Almas

20130425

vir


o sol brilha das colinas e eu vejo-lhe o sentido, tal como os mantos que carregaste um dia e que despiste com a morte para um longo infinito eterno. as árvores onde os corvos se pintavam eram símbolo de paz embebida de negro que me fazia sorrir. hoje, já não fazem. das peles onde encostavam arames farpados, hoje não resta nada. ou então talvez reste tudo. tudo que as agulhas não puderam coser pois os banhos de sangue não eram suficientemente perceptíveis perante a dimensão das feridas. e ainda assim existe a saudade dessa dor mais cravada no tempo, em que um milagre não era uma dádiva de Deus, porém era um achado de ti. enquanto te amava sem garantia e enquanto me repudiavam por ser eu. mas, que não sou mais. e se do corpo resta o pó depois da morte, da minha alma restam as cinzas que anseiam reincendiar. uma transformação de calor que virá da vida de ti, quando aqui chegares em nova alma. num corpo que alimente o meu, sem esperanças de morrer cedo, mas que tampouco viva até tarde de mais. porque amar demais é erro, tal como o tempo.

20130422

intro


numa terra de magias negras. numa cidade em que os defuntos sabiam mais do que os vivos. num tempo em que anjos e demónios se cruzavam no dia-a-dia dos sobreviventes, dois jovens desvendaram o amor que os matou. a ela de negro e a ele de morte. um anjo que escolheu o inferno para viver o amor e um demónio adormecido que desacordou do negro a sua pior forma de ser, depois da despedida.

eu beijei o sol na tua pele
ele me queimou
e ainda assim eu continuo gostando de ti

20130420

paredes de aDeus


paredes de quartos desavergonhadas de tristeza. o amor pra nós era breve e sabíamos sempre que o fim iria chegar. as paredes não eram mais que paredes e cheiravam às retinas que nos liam os pensamentos envoltas do nosso prazer. tínhamos medo de chegar perto um do outro porque era mais aquilo que desconhecíamos do que aquilo que prevíamos. preferíamos escrever ao invés de sorrir porque não nos conhecíamos o suficiente para perceber se esses seriam irónicos. perfumes a rosas bravas feitas nas palavras sobre nós. espinhos da imprudência onde a rebeldia se perdia. por vezes prendias-me nas tristezas quando me desapegavas dos vazios. não sabia o que sentia nem a que cheirava, porque a monstruosidades das peças que me completavam o corpo desfaziam-se cada vez mais nos segredos da chuva. outras vezes picava a pele para ver se ainda havia sangue que escorresse, para sentir se a leveza era um manto de beleza ou a doença que havia em mim. era um amor sentido de mais por quem não merecia o chão que me pisava. foi o fim dos dias da criança em mim. uma noite seguraste-me a mão e pediste-me que te odiasse. o coração mentiu e das tuas asas voou a morte. eu tampouco fui capaz e também morri sem ser capaz de te repudiar pela mentira que foi o nosso aDeus. mas foi. verdade.

20130419

sobre a dor que há em ti, tu não vês a vida


dos tecidos que lhe cruzam, outros são os seus vestidos
e da pele que se lhe rasga, não se destapam os motivos
de ver cruel despida, do que sente imperturbável nas facas que alimenta
na mentira que se julga ser maior, do que a angústia que a ostenta
dos nomes que lhe cruzam, pouco se sabe o sentido
mas nos olhos que se enxugam há o negro sabor escrito
na luz que o escuro brota da sua fragilidade tenra
da morte que se ama existe vida que se emenda, (sem tentar)
a pureza que se desnuda nas gélidas certezas de não possuir outrem
eu não saberia ousar da sua proeza perdida, nos sentidos de quem (não sou)
prezo que se desminta a razão, de ser maior que a dor de se ser ela
e guardarei na alma oculta, o que cantará da sua lua mais bela
se eu morrer primeiro esquecerei o que de mim foi infeliz
e se tu nasceres primeiro mostra no céu a escrita que nos quis
pois eu serei mais anjo, se tu fores mais inferno
já que somos mais distantes, se o que nos une é só eterno.

20130418

antes, hoje. novamente.


enganei-me nas palavras que escrevi. havia encontrado um amor diferente e apliquei-lhe falas do costume. senti-o das maneiras mais indevidas e encontrei nele a morte. senti frio na nossa cama e saudade no seu abraço. temia mais do que o que dava porque sabia que amar-te distintamente era perder-te de todas as formas, sempre que julgava conquistar-te. de tal diferença as flores murchavam quando sorriamos pois por trás da felicidade escondida tínhamos um defunto no sentimento que ecoava. o pôr-do-sol que nos fazia dar as mãos, encobria-se no escuro de um fim de mar que nos arrefecia as almas. as estrelas do nosso caminho, afinal não eram luminárias para um destino eterno, mas a paisagem de menos um dia no calendário que nos mantinha juntos. mas fartei de viver de ti há muito tempo. solucionei a morte que mantinha as tradições com a desunificação entre aquilo que sente e aquilo que vê. guardei a alma num quarto desunida do meu corpo. separei-me dos sentidos pois não me alimentavam mais. hoje vagueio nas ruas como um fantasma coberto de pele e imito-te como um espirito que se desvanece em pedaços nos reflexos inexistentes que a minha alma preservou. fechei o espirito em casa em volta de pinturas sóbrias, em cinzas de tabaco mescladas com o pó que resta das memórias, e do cheiro a mofo do que lá envelheceu. está lá, com cores perdidas no telintar dos recreios do whisky e roupas deixadas, cerradas agora em cofres para nunca o negro lhes tocar. vagueio pelas ruas como um vento sem direcção, como água sem caminho, ou amor sem coração. passeio também as ruas em mim, com cheiros a vómito das esquinas, na escuridão que a tua ausência alucina e sonho que um dia chegarás perto num novo corpo. dessa vez fecharei o corpo em casa, e dela libertarei a alma, pois do morto que lhe restar, estará o sangue que a vida em mim rejuvenescerá quando bela vier abraçar-me o peito que mais a precisa. a inocência de a desconhecer, dará amor que um abraço conquistará. e novamente amarei diferente, e ela amará desigual ao igual de mim. ela será diferente como um anjo de magia negra e eu serei um sábio imoral que só não saberá de mim. outra vez.

20130416

abstracto três


origamis de papel timbrado nos amores de baçaim.
papeis e versos sem rima nos lençóis de paris.
românticos perdidos nas ruas de nova iorque
amantes indefesos na cidade da nossa morte;

fomos gigantes solitários no negro lodo da ribeira
prefácios da saudade aos demónios da cegueira;

a agonia trouxe amor e dessa vista o nosso prazer
do rio lima correu o pranto no manto do meu chover
na despedida levei a morte para que sentisse por mim
e das ruas desta cidade fiz recordações de ti
vesti-te de caramelo com o teu coração d'ouro
nas jóias que carregavas nos trajes do meu tesouro
nas romarias vi os tapetes e nas festas a agonia
junto do adeus na praia "ao norte" onde também nasceu vida;

esquecemos as mãos cruzadas entre o frio d'avenida
e dos abraços descruzados nos comboios de partida
das noites não dormidas e das manhãs adormecidas
do quanto fomos fieis às promessas de santa luzia;

o amor morreu mais cedo do que aquilo que existiu
e os sorrisos são de viana, não dos amores q'ela sentiu.

20130415

suicídio


subiu ao topo da sua coragem e parou. teve a visão dos céus e olhou a terra de cima. tinha subido os seus últimos degraus e a partir de agora seria apenas o paraíso. olhar os problemas de cima era apenas sossegado, pois sabia que não encontrara a sua solução para eles, mas acabariam tal como iria acabar consigo. viu os anjos na terra do topo de um prédio, respirou fundo e embalou nele todas as cores que não viveu, todos os amores que não quis, todas as traições que o quiseram e respirou novamente. viu ao longe a infância, tão triste quanto feliz, esquecida dela pois não fez parte do seu caminho apesar de ser parte dele. recordou algumas pessoas e outras que nem pessoas foram. apoderou-se dos fantasmas e sorriu-lhes desta vez. falou-lhes em despedida e eles responderam-lhe até já. chegou ao topo da sua coragem e deu o passo em frente. não caiu de um abismo mas caiu do alto de si mesmo. caiu, como um anjo dos céus e aterrou na terra. apenas e só nesse momento alguém deu conta da sua presença, num chão incomodo de sangue, partido como o seu adeus. foi-se, como um desconhecido do seu entorno, sem ninguém o ter conhecido. e assim morreu, do alto da sua coragem, no alto da sua fraqueza, no dia em que se perdeu dos vivos.

20130414

espelho de alma


criei um espelho no submundo, subtraí-lhe as forças, esmaguei-lhe os sorrisos. arranquei de cada olho as pestanas que o protegiam da luz e fiz dele um corpo morto. calei-o para que não tivesse de ouvir a sua voz de demónio e cosi-lhe a boca pois só assim poderia gemer de dor no prazer maquiavélico que só eu lhe proporcionava. atei-lhe as mãos, sempre com o intuito de o prender. não queria ver aquele reflexo, solto à deriva na minha alma. o submundo era o recanto dos mortos que viviam em mim, dos corpos presos às memorias de alguém. apaguei-lhe as lembranças e em papel de veludo bordei tudo aquilo que lhe podia fazer sofrer. enchi-o de vazios para que mais tarde pudesse ser eu a preenchê-lo com tudo aquilo que me atormentava. todas as histórias irreais, que lhe dessem vontade de viver no dia em que o libertasse desse espaço escondido nos confins do mundo negro. despi-o de mentiras pois sabia quão verdadeira era a sua pele salgada. uma pele de capa em resistência que lhe cobria a fraqueza da desidratação. criei um amigo no submundo que rapidamente se tornou em mim. não por minha vontade, mas pelo luto que ainda fazia de ti e que  me fez perder na imensidão das lagrimas que eu não brotava, mas engolia. no interior do meu submundo tenho um espelho, onde a minha alma chora com um amigo. por (ti)m.

20130412

abstracto dois


conto os anéis destes dedos
cada um com a sua história
cada um de um anjo meu.
conto os anéis destes dedos
perco-me nos seus segredos
como se fossem pecados teus.
invoco-te num nome de ti
sem saber se pra mim a noite vai durar
albergo o meu canto neutro
amo em longo preto
enquanto por ti chorar.
sei de mim o quanto que não sei
como sei de ti o tanto que não vens
não rezo a ninguém pra que venhas
apenas que me sintas, tenhas
apesar de não esperares.
enfeitiças-me em chuvas breves
nas mãos pequenas e leves
de quente romantismo leu.
seguro-te nos olhos a tristeza
de ser um orvalho amado
imaginar desacordado
quando amado por ti chegar.
entrego nos lençóis as dores
molhadas de negras sinas
cravo cruzes nas costas
como se fossem vistas linhas
que o meu corpo criará.
despeço-me esperando a salvação
de nos amarmos pelos seres que são
a alegria do nosso viver
que cedo-tarde conhecer
no amor que não nos conhece.

20130411

abstracto um


as mascaras com que minto são tao feias quanto a morte, ela é verdade, existe...
eu não espero que a dor passe, mas gostaria que não existisse
eu não espero que a morte passe, mas por vezes gostava que passasse por mim
a boca com que beijo, não é tão verdade assim
por vezes beija com dor, outras sofre por não doer
o tempo que me voa, não é tão fácil assim
os minutos são incógnitas enquanto espero por um fim.
gosto da chuva por demais e dos mochos que ela embeleza
gosto de histórias reais, amores imperfeitos
infantis nos desejos, que amam incondicionais e persistem para lá dos tempos
gosto de amores que sofrem, mas que se cuidam no olhar
gosto de beijos na noite e dos corvos no luar
gosto de ser vadio e de ter um corpo gasto
porque são os traços da vida e as recordações dos deslaços.
eu amo de verdade quando não engano ninguém
mas sinto a morte chamar porque a felicidade não vem
eu rasgo o negro com os dentes porque às vezes também o odeio
mas todo o ser gosta de casa quando não está preso no meio
gosto de alimentar esperanças embora as veja morrer
e sinto a criança em mim apesar do fogo já não ser
gosto de amar com sentidos e de pesadelos de solidão
gosto de esperar por ti, embora saiba ser em vão.
Ele disse que não te trazia...e o meu destino é morrer
tal como o teu que não aprendes a desamar, aquilo que não podes ter
sabes o quanto me chora a alma por ter saudade de mim
e que a única chama da minha gente é ainda esperar por ti.
que chegues um dia diferente daquilo que imaginei
para te amar de surpresa e não errar no que sei,
um dia espero por ti, hoje não porque não vens
um dia despeço-me de ti, por ser negro luto que me tens.

20130410

ele era diferente


ele era diferente dos outros. andava de cabeça erguida e de alma em baixo. os ossos não eram fortes mas as costas aguentavam todos os dias os pesadelos de uma vida efémera. os olhos não sorriam nem brilhavam, mas eram molhados o suficiente para ver que ainda havia vida nele. o coração batia, mas decerto não era à velocidade que devia, pois a morte corria mais depressa do que aquilo que existia nele. os dias eram passados a tentar viver o que os fantasmas não o deixavam. a sua pele não era branca, era da cor do queimado com que pintava os dedos e desenhava os riscos mais rompidos da saudade. um moreno que se confundia com o negro das olheiras e que eram o reflexo das noites que ficavam por dormir, em que as histórias que o atormentavam o deixavam suficientemente acordado para a alma não descansar. os seus pés estalavam mais do que os ossos do resto do corpo, pois nos pés estavam as marcas dos caminhos que ele fez para chegar onde estava. eram todas as cicatrizes das quedas e ossos partidos que a vida lhe decidiu marcar na certidão de óbito. as cicatrizes do exterior não eram assim tantas quanto as reais, mas se alguém o sabia ler por dentro percebia os cortes que nem o organismo teve coragem de coser. a sua boca era fechada, não por mera fisionomia, mas sim por ser o símbolo da distancia entre as palavras não proferidas e os sentimentos menos expressados. a ponte entre o bem e o mal não proclamado. as suas roupas de mendigo, não eram de mendigo. eram trapos em memória das pessoas que o levaram aquele estado. uma homenagem, apesar de não merecerem o valor dos estragos e das estimas perdidas. trapos que não significavam nada mais para ele, mas que o levaram às trevas, apesar de também o renascerem quando o coração viu um novo amor. a sua alma era quente e as suas mãos gélidas, pois o seu sangue estava na alma e não no corpo. era a alma que lhe alimentava a vida e não o corpo que já havia morrido em tantas outras batalhas de amores desiludidos, amores inacabados. apenas a alma sobrevivia na espera do seu mais real amor, o único verdadeiro, que ainda viria nas suas réstias de esperança. nas suas réstias de saudade. nas suas réstias de futuro.

20130409

acto cego


salpiquei-a de água morna no seu corpo despido. cruzei-lhe a pele com as mão suaves que ela conheceu. percorri-lhe o corpo, frio, gélido de mágoas acorrentado de mistérios ocultos. beijei-lhe a alma com o mesmo sentido com que lhe tocava os ossos. dei-lhe carinho pelos cabelos e fixei-a nos olhos que brilhavam no escuro da minha noite. ela agarrou-me no pescoço e prendeu-me em gestos de pura melancolia. transpirava-me de felicidade inconstante em mordidas inconscientes nas feridas do meu pescoço. amava-me da maneira menos compreendida e eu amava-a da forma mais imperceptível. sofríamos em silêncio e guardávamos o melhor de nós para cada um do outro, mas cheirávamos já a morte em cada suspiro de paixão. ela morta e eu já meio cadáver das facas que me sangraram os valores mais intrínsecos. paralisados da morte do passado, eu deitado de cabeça nua e ela sem insistir adormecera sempre num sonho de negro véu. eu acordaria só, pois ela não existira nunca da forma que eu a julgava conhecer. fazíamos amor esquecidos do mundo e indefinidos de nós mesmos. não nos conhecíamos e ela nem sequer existira algum dia. talvez reflexo de um futuro no reino da solidão - vivido em tempos presentes do passado actual - uma imagem de uma alma que esteja pra chegar. e eu, é que continuo o único que nunca chegou, a ser a alma que prometera chegar. diferente. do negro que nunca partiu.

20130408

ela. ele.


ela brilhava no escuro com tons de malmequer e eu cantava pra norte com sonhos de bem-me-quer. ela corria do mundo e eu fugia da terra, enquanto que eu respirava fundo, ela suspirava da guerra, que a fazia arrastar-se entre aquilo que queria e o que o negro a deixava. eu vivia com a morte e ela vivia com os vivos. quando eu soltava sorrisos, ela gemia do choro que as dores secaram. ela falava de cor e eu contava-lhe histórias. ela tinha os olhos do céu e eu as olheiras dos demónios. eu tinha os lábios rasgados e ela os ouvidos profundos. eu respirava o pecado e ela sentia os defuntos. eu era parte dela e ela o completo de mim, mas eu só uma parte de um incompleto de si. eu arrancava os cabelos enquanto sofria de medo e ela usava pinturas enquanto a doença dava sede de vê-lo, (o medo). eu morria da noite e ela do tempo que não passava. nós vestíamos negro e nisso não eramos diferentes. e sentíamos amor, embora estivéssemos doentes, um do outro. ela era o que eu queria e ela queria o que eu era. ela era um ser de pureza e eu um manto de seda. que só a pôde proteger enquanto a morte não a levou, para fora de nós. ela foi o aDeus, eu a paga de ficar e enquanto ela quis morrer, eu quis voltar a amar. por isso vivi.

20130407

sal de primavera.


poderia ter adormecido no teu corpo, no chão do teu espirito morto que guarda segredos de outras horas. poderia ter-me agarrado contigo na palma das mãos que nos separavam. poderias ter fugido sem mim com  o meu coração na tua voz e com o meu amor no teu peito. poderíamos ter-nos deitado nas camas de flores na presença dos corpos que já não existem. poderia ter fechado os olhos contigo no dia em que foste e teria sido tão mais fácil morrer também do que me disfarçar de vivo. deixei-me levar porque os corvos me fitaram demasiado o olhar e me enganaram a alma enquanto ias em definitivo e eu não via. agora guardo marcas que não saram e castigos sós que não julgo merecer. e já passou demasiado tempo para ainda me lembrar de ti. para ainda chorar pelo luto que não fiz, pois esperava-te viva no tempo em que já estavas morta para mim. poderia não ter existido e ouvido a morte à nascença, mas arrisquei a sonhar sem ti. a viver sem nós e não consegui alimentar-me por muito tempo. afoguei-me em memórias todos os dias em que não te via e despedaçava-me por partires cada vez mais, naqueles em que te relançava instantemente o olhar pelas costas. escutei as dores do meu sangue e rasguei tecidos de mim com as facas que me foram dando. poderia ter acabado comigo, mas os pássaros de branco e os anjos da minha noite mandaram-me ficar. quieto e imune às tragédias dos demónios que me tentavam dias e dias sem fim. supliquei desconfiando demasiadamente e segui na espera. porque se as lágrimas do inverno eram demasiado velhas, havia de chegar a hora da primavera me trazer um sorriso novo. poderia ter morrido sem ti, mas preferi esperar para sofrer um pouco mais e antes morrer por mim. e quem sabe, se antes da partida ainda me resta ficar para viver uma primavera que renasça em dois seres escuros de prazer. em dois seres escuros de almas gastas, que na sua fusão se chamem de amor.

20130404

então vai, de negro.


saímos à chuva e demos a mão enquanto a noite chamava por nós. bebeste o veneno da minha saliva apesar de saber que morrerias de pecado. trincaste-me a boca e sugaste-me o ar, desejando que o meu coração parasse. sorriste à morte e os meus olhos cegaram de desejo de ti. abraçamos as almas e ficamos numa só, novamente, num espirito uno de mágica. trocamos de corpos e eu soube o que era ser mulher, e tu soubeste o que era amar-te. porque só eu o fazia por ti. por nós vestimos o negro, sempre o negro, porque somos iguais nas marcas do nosso passado, nos destinos do nosso futuro. é o negro que nos alimenta o ser e foi por ele que nos conhecemos. é a nossa casa onde deixamos os corpos dançar em prazeres miseráveis. é o nosso lar, onde os pulmões secam de saudade e a pele sente a chuva do nosso baile. e um dia morreremos nela sem que saibamos o nosso fim, sem que pensemos a nossa morte. mas, por enquanto, resta aproveitar o sol que virá depois da chuva. e depois o frio, que saberá nos dias em que não houver calor, já que a distância será maior que a dor da nossa saudade. embora unidos sempre pela ponta das almas que nos pertencem, o adeus será melhor, quando eu ainda dançar na chuva e tu preferires caminhar no céu. então aDeus, e se os caminhos se trocarem hoje, vai e não olhes para trás na esperança que vá contigo. porque o lugar do nosso amor era apenas na chuva do nosso negro, justa na noite da nossa dor. então vai sem te lembrares de mim. aDeus. vida.

20130402

lareira em corpos mortos.


uma lareira num canto e três mortos pelos outros restantes. o fogo é o ser mais vivo que nos resta e mesmo esse vai-nos fugindo com a madrugada. porque até ele precisa de alimento que lhe sustente o físico. as persianas estão corridas para não deixar que a morte chegue ao andar de cima, mas os buracos que se sentem do desgaste do uso deixam que ainda veja a lua. brilha com a luz do seu outro amor mais escondido, tal como nós que brilhamos do amor que nos dão. mas aqui não há amor. somos três corpos e outras tantas almas aqui depositadas e nenhum liberta um pouco de sede de carinho. a noite é mais noite e já não vejo as árvores. um dia falaram-me de borboletas e eu tanto que as queria ver belas como falaram. mas vivo dos corvos que voam em círculos esperando por mim. vivo do medo dos mochos que cantam às sombras a sua companhia de despedidas. dos morcegos que inspiram mortos-vivos com o desejo a sangue que lhes dê vida. e nenhum destes quer amor. eu era tanto como as borboletas até me acorrentarem as asas. eu tinha tanto para dar mas morreu aos poucos comigo. eu tinha tanto para receber mas morreu aos poucos antes de chegar. a lareira apagou-se com a água do mar que banha os faróis que tenho no rosto. já não alumiam nem avisam daquilo que me vai na alma, ou na falta dela. até o brilho secou, tal como as lágrimas irão secar quando já não restarem memórias. somos três corpos de alma adormecida. o amor fechou-nos os olhos no passado e talvez o mesmo os volte a abrir no futuro. mas nenhum está disponível para amar novamente se sabe que o fim é o funeral do nosso corpo mutilado de novo pelo que não foi cumprido de parte a parte. a lareira apagou-se, porque esta casa pertence a almas penadas. o fogo é vida, não poderia alimentar-se de corpos mortos. por isso também ele morre, todas as madrugadas no fim de nascer. já nós esperamos nascer, antes de morrer finalmente.

20130401

versículo 31.103 - yehokhanan


e não era suposto os homens ressuscitarem? então porque não ressuscitei nestes dias? talvez seja meio monstro, meio demónio que nem o perdão de Deus me acolheu a alma. 
e quanto serão os dinheiros do orgulho que justifiquem o preço da saudade? quantas moedas de prepotência foram trocadas por chicotadas de solidão? nem eu me desculpo pela guerra que comprei sem querer, nem tenho forma de a vender porque já ninguém troca nada. se vendes amor compras fodas, não julgues que ao comprar amor podes trocar por amor! e a guerra. se hoje compras a guerra, ninguém aceita troca-la por paz. então cais no chão enquanto te pisam e aprendes a lidar com isso mesmo que nunca o tenhas desejado. ninguém se importa quando és só uma força menor. mentaliza-te.
os tempos passam difíceis, tal como o espirito. não me reconheço no meio dos homens, nem tampouco me identifico com os anjos. eles não se agarram a mim, nem os de branco, nem os de negro que a morte passam. andam aí tantos cristos a carregar cruzes em facas sem terem cometido qualquer pecado e eu aqui. a saber da morte do mundo com consciência de que isto vai acabar tudo em banhos de sangue. mas para quê me mexer se quem se mexe é acusado de ser interesseiro ou manipulador? de acusações estou eu carregado, e das culpas que a mim atribuo sem mais ninguém saber.
tanta paz na inocência que grita sofrimento de não ter ninguém que nos acuda com amor. tanto mercenário que vejo aí sem merecer o chão que a sua pobreza pisa. a de espírito. mas quem sou eu para fazer julgamentos? quem sou eu para me achar melhor do que alguém mesmo sabendo que sou melhor que muitos? se Ele nos pôs cá foi porque nenhum de nós atingia os requisitos para sonhar na vida eterna. uns vieram aprender, outros vieram bater com a cabeça nas paredes outra e outra vida. talvez aprendam numa última. outros, os génios vivem para nos ensinar. a amar. os animais.
e a vida é isto. mais noites em que visto um manto de lágrimas que tapa um corpo de feridas e apenas a fé me deixa olhar as nuvens e vê-las correr mais depressa que a vida em todas as manhãs que me levanto. que o tempo passa e a vida foge. eu parado e o céu parecendo correr. eu caminhando para trás a cada dia e o céu chamando-nos para a frente sem chamar por mim.
olhar os dias. aprender a ver com os olhos no coração. porque quem vê com o coração está tão mais perto de Deus. ou ele não visse o que sente e a cabeça o que parece ver. ver com Ele, é ver com amor para além das tormentas, é ver com perdão para além das traições, é ver sem medo para lá da morte. custa. dói saber que sou nada para ninguém quando já fui vida em mim por tantos outros. 
mas hoje reconciliei-me com Eles e talvez reze. amanhã. se não me esquecer dEles amanhã. ah e lembrei-me que a saudade é apenas egoísmo, por isso vou-me deitar enquanto me lembro das saudades do(s) ti(s) que partiram no fim dos seus espíritos. e egoísmo ou não, se há coisa em que somos iguais é no "estou vivo, preciso que gostem de mim", por isso amem e deixem-se amar porque estamos cá todos para o mesmo. aprender a ser como Ele, amar e perdoar e isso chegará para ser feliz. o resto é banal.