Almas

20130330

untitled


hoje deixo algo diferente. a letra do primeiro tema original da minha banda. escrita totalmente por mim. gostava que deixassem a opinião e se quiserem sugestões para o título da música. obrigado.

so far away for what i'd be
all my sickness of life
i was young
i'm a old man now
and life is still not found

i've death at my chest
and i won't forget this run
I have broken my dream
cause i've been tried to burn

staying on the feathers
i will marry you
i still love who i loved
but sorry cause i feel so too

so come on and take my breath
forgot all my sweetness
i miss my heart on the place
where are yours shine's rest

you remember everything
and i don't care if you
are loving an other guy now
cause i've failed too

i still wonder
i care with the same
i love you on everything
you loved all this way

shame's old and mistakes
fails on our swords
i just take  the silence
i'm too much dead to storms

i had a miracle one night
love is still alive
i've been a demon at my home
all my entire life

so take my breath and count
my soul was sold for places
i'm still losing life
sunrises on my chains

i still love you
all the scary falls
all on this poor heart
marks of keep it all

i just turn again
to know the sons of your rise
you know all my secrets
you are all my life

you're the stars of my shine
shining on my rain
my guilty and my shame
causes of my pain

forever you will know me
but never will finish this game
forever i will love you
because we are both the same

20130329

casamento com um demónio


bateu-lhe na porta numa imagem recortada de imaginação. fechou-lhe os olhos e adormeceu com o negro na fuga das pestanas quando se tocaram. caiu no chão, livre de passados mas marcado pelas histórias que lhe pertencem e sonhou. sonhou com a vinda de um demónio que lhe pedia perdão e o curava antecipadamente dos males futuros. vendia-lhe a alma e ele pagava-lhe o corpo com cicatrizes de vazios vividos. bateu-lhe na porta da vida um caminho em que o diabo lhe propunha o matrimónio perfeito entre o bem e o mal. quando os olhos recusavam, o desejo do corpo era de sentir-se amado e enquanto as mãos recuavam para nelas não se colarem os anéis de suja morte, as palavras quase professavam o sim num contracto suicida. mas os anjos eram seus já há muito tempo, embora se mostrassem adormecidos para o deixar curar as feridas que não secavam. e no sonho em que poderia escolher a morte de braço dado com o demónio, os anjos desmaiaram-lhe a alma para o salvar, tornando inconsciente a presença das sombras que o atraiçoariam sem misericórdia. o seu coração arrancado a ferros noutros tempos pedia que o trouxessem de novo aos lugares onde pertencia. estava demasiado deslocado dos bons sentimentos num desespero que se tornava maior a cada noite. e nessa mesma hora, em que o diabo lhe trouxe as promessas, o Deus em quem sempre acreditou o recompensou pela resistência à tentação do aparente. no momento em que acordou com remorsos de supostamente ter perdido a oportunidade de ser feliz, foi recompensado pela felicidade de alguém que lhe trouxe a oportunidade de ser real.  então, bateu-lhe à porta numa imagem recortada de realidade, um sonho com a vinda de um anjo que lhe pedia amor e o curava antecipadamente dos males do passado sem ele próprio saber. aprendendo ele que quando as noites nos castigam com sonos que nos moem passados de demónios, uma manhã seremos recompensados pela luta de quem resiste ao que foi demasiadamente duro de enfrentar sozinho. e nessa hora poderemos aceitar a oportunidade de ser felizes de corpo e alma mais fortes do que antes com os anjos que nos amam a alma e não com os demónios que nos vendem segundo a melhor oferta que nos deseje trair.

20130324

poço de chama


cavou um buraco até não ver luz do dia. a terra onde começou era já distante e o quente já havia fugido daquele lugar. cavou, cavou, cavou...entreteve-se numa direcção oposta ao sentido da luz e pensou que o mundo passara a ser só noite. cavava sempre mais fundo achando que iria chegar a um lugar melhor do que aquele do qual partiu. virou as costas aos dias de chuva e cavou a terra seca de água que as almas negras haviam sugado. até que bateu em terra firme, um pedaço de espaço possuidor de interminável força, anormalmente indestrutível. pela primeira vez um pedaço de terra lhe enfrentava o desejo de fugir, pela primeira vez algo contrariou a sua vontade e o obrigou a parar para sentir. já há muito tempo que o tempo passava em flecha, entre a ocupação de cavar um túnel morto e o sono onde descansava uma alma só. os dias que lhe ocuparam o tempo a cavar levaram-no ao fundo de um poço mascarado. achou que o mundo o estaria a deixar realizar a sua vontade, até que um dia o contrariou com um pedaço de terra mais forte. um pedaço que o obrigou a parar de cavar e a terminar a distracção de todos os dias antes. o corpo teve tempo para pensar como nunca havia feito. lembrou-se de tudo o que havia deixado quando iniciara uma rotina dentro de um poço e percebeu o caminho errado que tomara ao fugir da realidade. finalmente sentia o frio da ausência de outros corpos, a solidão por nenhuma alma o visitar, a sede pela água que outros seres haviam levado e a falta da luz dos dias que existiram antes de desejar a noite eterna. pegou nas feridas do seu corpo e com a chama das suas lágrimas incendiou a alma que adormecera há muito tempo. pegou no fogo e queimou os vivos sentimentos que lhe arruinaram um caminho de volta ao futuro, mas do fumo que gritava em negro ninguém sentiu o seu sinal de anseio. ninguém ousou ajuda-lo quando mais precisava de acalmar o que pior inflamava nele. a sua voz chegou ao topo da saída mas ninguém escutou a sua salvação. queimou. e das cinzas quase nada restou, somente o pó em dor que ainda dói na alma e nem a esperança de uma nova vida, porque essa só seria capaz de existir se um novo amor o tivesse salvo daquele buraco. quando pôs as mãos no fogo queimou toda a pele. havia fechado tantas vezes os olhos à vida que no final quando os abriu já só a morte o assistiu. e deixou-se ir, de olhos abertos para a morte,  tão abertos que já nada o faria perder-se do caminho do bem. tão vivo ou tão morto, nem as fogueiras poderiam acabar com a ponte entre ele e os anjos que o esperavam. um final tão negro quanto o fumo da sua morte, mas tragicamente doce pois a vida ficou na alma que ama agora noutro plano todos aqueles que são como ele. mortos-vivos à procura de luz, a luz que vive neles e somente eles não a vêem. vivos.

20130321

louco homem espaço morto

fecharam-no num cubículo para não o ouvirem. nunca souberam ler-lhe as mãos para perceberem que era ele. quando aprendeu a calar, soltaram-no do que o amordaçava e rezaram para que fizesse barulho novamente. nunca o escutaram e agora pediam que falasse. nunca o escutaram na sua dor, quando esta eram os registos da sua história. nunca o escutaram e isolaram-no como um doente macabro. no inicio fingiam até se importar, davam-lhe comida gasta e visitas rápidas porque o ritmo do tempo era demasiado acelerado para as suas agendas preenchidas. mas tudo se desapega com o tempo. as janelas passaram a ser pequenas e não lhe davam espaço para respirar o exterior. apenas a noite o fazia imaginar-se fora da caixa a que foi depositado, pois tal como o céu escuro, também as paredes escureciam no ambiente fechado. de todas as vezes que via alguém apenas suplicava por tinta. se ninguém o ouvia pelo menos as paredes poderiam registar as letras do que o matava. mas nem isso. de tanto nada que lhe deram, nem um pedaço de carvão foram capazes de lhe chegar. foi então, que com os talheres da comida gasta que lhe chegava escassas vezes furou a pele que lhe cobria a alma. e com o sangue da sua vida escreveu os capítulos da sua morte. um a um em cada pedaço de tela branca das paredes que o atormentavam.  a sua vida era rotina, acordava de manhã cedo e fingia-se um monge. cantava em risos doentios a um Deus que lhe confinava desejos insanos. com o avançar da fome esquecia os cânticos de oração e batia nas janelas esperando alcançar do mundo que não o deixava viver a vida que o alimentasse. mas nada chegava dia após dia. para quê alimentar um doente, se assim poderia morrer mais depressa? mordia os dedos e trincava a carne viva que lhe enganava o estômago. a fome era tanta que nem a dor de comer o seu próprio corpo necessitava de anestésicos. horas passaram e capítulos foram escritos, demasiados para as paredes existentes, mas nada era impossível para um louco. as unhas que restavam dos dedos cozidos picavam paredes riscadas como um apagador de memórias traduzidas pra letras. aquela história foi escrita repetidas vezes sem nunca ter acabado, sem nunca ter começado, sem tampouco ele ter noção. aquele espaço  assaltou-lhe a mente demasiadas vezes, roubou-lhe a sanidade que pouco restava e tornou-se num asilo de sentidos perdidos à história da vida humana. aquele espaço era um coleccionador de mentes, onde a porta se fechou um dia e nada mais se veria até ao dia em que reabrisse. e nesse dia, no inicio do seu ultimo fim, quando a dor dos ossos já não incomodaria mais à vida, quando as lágrimas voltassem a ser luz para os céus, já nada mais importaria para aquele espaço, para aquele homem. apenas restaria o sombrio no vazio das histórias que lá passaram. apenas o asilo de um louco passaria a ser um não-lugar e tal como todos os loucos, quando são grandes são tristes, quando são velhos morrem, porque em criança também morreram. antes de nascer, já o lugar a que foram destinados escolheu a loucura das suas mortes, a insanidade das suas histórias, os gritos da dor de quem os deixou morrer assim. doentes, o homem e o espaço que ele habita. mortos. porque os lugares e os homens só são recordados se quem os acompanhou continuar vivo quando morrem. e com franqueza, ninguém acompanha os loucos na morte dos seus espaços, nem na dor das suas vidas. por isso não são lembrados, por ninguém...

20130319

0130319 RAPF


alimentaste-me à janela com os contos de bicicleta que escrevemos na praia. guiaste-me o caminho tantas vezes no vermelho que me trazia da escola de tal forma que me sinto reconfortado só de entrar nesse carro (vazio). ensinaste-me a trajar com a roupa do campo e a tocar bombo com o ritmo da vida. deste-me a mão sempre por pura telepatia e sorrias à minha alma com sóbrio amor paterno. nasci com o teu feitio e a vontade de cantar estará sempre inata onde quer que estejamos os dois. já me disseram que somos iguais. ensinaste-me a idolatrar-te involuntariamente, porque cada gesto teu era o grito da ingenuidade mais bela dos homens. e eu tanto queria ser como tu. sabe a ti cada trago de saudade e tento ver-te em mim cada vez que me fixo no espelho. não descanso de tirar parecenças e sofro quando não as encontro. hoje é dia do pai e continuo sem dar a devida importância ao meu. tenho as lágrimas nos olhos porque não me esqueço de ti e sorrio por ainda me poder lembrar. tiraram-te de mim demasiado cedo, ainda não tinha aprendido tudo, ainda não tínhamos feito todas as viagens no mundo dos avós. lembro-me do nosso ultimo abraço e da primeira vez que as lágrimas não se seguraram no teu olhar e escorreram com medo da partida. 60 dias antes já palpitava no teu interior o fim e 60 dias após as facas a caixa com o meu maior tesouro se enterrava. nunca pensei ter coragem para carrega-la com tanta força, mas não iria perdoar-me não dar tudo o que merecias de mim. despedi-me sem nunca te largar de mim e deixei que te cobrissem com um manto de terra. quase há um ano que olho o futuro de pernas para o ar, mando-te beijos quando passo pela cruz que te guarda o pó e falo-te em silêncio para que descanses. não te verei nunca num cortejo académico, nem tampouco me abraçarás na missa de finalistas. não brindarei contigo o diploma de mestrado, nem testemunharás o casamento como meu eterno padrinho. mas estarás lá que eu sei, sempre estivestes como um pai que preferia ter. amar não chega para te dedicar nada, nem a água que neste momento escorre como um rio de lágrimas é suficiente para representar tua falta. guardo trapos teus e visto-os na esperança de te sentir mais perto de mim e levo o teu sorriso para qualquer lugar que vá e espero, pelo dia em que te reencontre e te possa repetir como na noite do teu aDeus "és o meu orgulho, amo-te muito avô, vai em paz". foste avô com o título de pai, meu exemplo de vida, minha linha de comando e sentido de oração. nunca poderei esquecer-me de ti, porque sou tu em grande parte de mim.

amo-te.



20130317

o mar levou-o.

entrava sempre mar dentro como se ele o chamasse para o abraçar. nadava lado a lado com a sombra que lhe gritava aos ouvidos pra morrer. deixava-se ficar na eternidade de alguns segundos, enquanto as ondas o repudiavam para terra. nem o mar o queria, nem tampouco o levava para um fundo de tesouros onde encontrasse a sua riqueza. acordava todas as manhãs na areia que despia o seu nome e olhava em volta da garrafa que lhe embebia o ser. estendeu a mão e ninguém o viu, abriu os olhos e não viu ninguém. durante tanto tempo não viu ninguém. estaria já morto sem saber, mas vivo ainda para sobreviver. perdeu-se dela pois ela nunca o agarrou, e nunca encontrou mais ninguém que soubesse por o seu nome junto do peito, num recanto da alma. tentava afogar-se todas as noites junto do cais que o viu nascer. onde a ribeira foi palco da sua infância e os barcos os quartos dos seus primeiros amores. passeava durante o dia naquela cidade fria de inverno, via saudade em rostos pintados de branco, sem coragem para perdão e via o amor nos olhos dos negros, embora famintos de alguém que lhes desse a mão para os salvar da vida. bêbedo sentia a desgraça cair-lhe aos pés com a força do mundo, sóbrio sentia a saudade de a conhecer. saudade de ela o ter morto de solidão. a vida deixou-lhe buracos a que alma não resistiu, levou com tiros no peito que feriram a fé e lhe destruiram o carinho. a saudade não foi mais do que medo de a esquecer. mentira. a saudade foi só saudade e o seu erro foi ter misturado sentidos. cada um é algo diferente, alguns semelhantes mas sempre diferentes. misturar sentidos é tornar uma dor ainda mais complexa. a saudade era saudade. dela. o medo era o medo. do seu nome. rashid. o nome que o medo não o deixava lembrar. yarin. o nome que a saudade não esquecia. ele sempre foi do sentir, ela nunca quis que ninguém a sentisse ser sua. ver a chuva naquela cidade era o seu teatro. não havia melhor peça que lembrasse as personagens da sua história. adorava ver as nuvens chorar, pois achava que eram os céus a acolheram a sua dor, a chorar aquilo que lhe pertencera outrora. mas sejamos realistas. as nuvens não choram, só desvanecem deixando cair a água que não lhes pertence. e se nem a água pertence às nuvens, como poderia ele achar que ela lhe pertencera um dia e ainda os céus chorassem por algo que nunca foi seu? ninguém nos pertence quando achamos que sim. e se o acharmos por certeza, a vida trata de mostrar que não. ele, enfrentou a escolha entre ser alguém e não ser nada e preferiu ser a ilusão de ser tudo para alguém. e no dia que escolheu uma ilusão, perdeu a oportunidade de alguém o amar enquanto ouvia a sua morte. no dia em que escolheu uma ilusão do passado, perdeu uma realidade do presente e morreu de dor. afogado. no dia em que se iludiu que o mar não o levaria daquela vez, já que nunca o havia feito antes. afogou-se e levou a dor como sua maior riqueza. iludido na realidade de ser tudo para alguém, quando achou que alguém era tudo para ele. o mar levou-o, porque o queria para ele numa realidade, e ele foi, porque queria o mar numa ilusão!

20130314

passo em frente. rumo atrás.


caminhou todos os dias com um passo sem direcção. ao inicio sentia-se bem ao libertar-se do que o amarrava. um passo a cada dia não faria notar-se. um passo seria quase insignificante para ele que cegava o melhor que tinha. um passo hoje, um dia amanhã, e outro, e outro. tantos passos deu sem olhar para trás que quando destapou a peneira tinha já ultrapassado a fronteira do invisível. tantos dias passaram que a distância entre o presente da mente e a mente que havia passado eram já de pessoas distintas. quando começou a caminhar, alguns nem notaram, outros amavam-no e deixaram-no seguir a vontade, e outros ainda, conheciam-no o suficiente para saber que se caminhasse, se iria perder. outros tantos passos existiram, em tantos outros dias vazios. mas um dia...um dia o sentir tomou conta de si novamente. olhou por si dentro e voltou-se ao passado mas já não viu ninguém. já não sabia o que o movia para a frente e tentou regressar. tomou conta do que havia perdido e tentou chamar pelos nomes antigos. alguns não ouviram, outros morreram e outros tantos se perderam também no dia em que decidiu partir por si só. no dia em que tomou conta de si, agarrou-se a uma alma perdida, a uma mente de um meio cheio omisso que lhe trouxe fantasmas de cores arrapiáveis. nesse mesmo dia em que tentou caminhar de volta, percebeu que um passo em frente só piorou os motivos que o fizeram partir. fugiu. e no dia que fugiu construíram-se muros onde existiam guerras. mas as guerras não acabam por se construírem obstáculos. fomentam mais ainda enquanto não se atinge o verdadeiro alvo. a crença daquele homem voltou no dia que tentou curar o que tinha adoecido. mas pontes caíram onde haviam laços, tudo se tornou assustador, sombrio e desgastante. não se viam metas porque o caminho era em curvas. e muitos ficaram nessas curvas, quando tentaram procura-lo desesperadamente. filhos deixaram de existir, para ele já tinham morrido há muito tempo e não tiveram valor algum. no dia em que deu um passo de volta, julgou que o tempo lhe dera uma segunda oportunidade. assumiu perante os anjos que dessa vez iria tentar dobrar o céu. mas segundas oportunidades não existem. segundas oportunidades dão continuidade ao que já existiu, mas uma nova oportunidade, uma nova oportunidade é diferente. é um motivo para criar algo que nunca foi feito. Deus ouviu os seus passos voltarem atrás e avisou-o de que a casa que tinha deixado já não era a mesma do tempo em que partiu, pois também aquela casa teve a oportunidade de começar algo novo no dia em que deu um passo em frente. e ao contrário do que ele fez, ela nunca mais pensou dar um passo para trás de encontro ao que tinha sido um dia. porque o mundo não pára enquanto decidimos entre lutar ou não por uma nova oportunidade. e se o mundo não pára, um dia já são demasiados passos em frente para cruzar outra oportunidade numa só vida. um dia a oportunidade já passou e num outro dia a oportunidade nem sequer existiu. um dia também a oportunidade dá um passo em frente, e no fim, já nem nós sabemos o caminho para trás.

20130313

chora


sorri. sorri "kowo". sorri desta vez. porque não? insisto que sorrias. não consegues? então chora, "kowo". chora porque não estás bem. não passes por cima desta vida para tentares alcançar outra melhor. tudo a seu tempo. tens de chorar hoje. a vida não correrá melhor por disfarçares o que sentes dela. não sorris "kowo", porque a destruição que tens dentro cerrou-te os lábios por fora. esses olhos não mentem, nunca mentiram, apenas ninguém te conhece o suficiente para entender. mas eu "kowo", eu sou um espelho da alma que ouve o que sussurras ao vento. eu sou uma sombra doente que te vê despir no final da noite. tu não mentes a ninguém, mas ninguém te lê as lágrimas como mereces. chora "kowo", se a vida que tens em ti ainda cheira a morte. chora "kowo" se a dor que guardas em ti ainda sente ódio. escuta-te quando rasgas a pele na noite, ouve o teu grito de revolta que te assombra o sentir e perdoa-te pelo que os anjos não te culpam. ergue-te das trevas e revela o que és. todos sabem que és um pedaço de bondade, sempre o serás, mas não deixes que o prejuízo te roube o doce do negro e tampouco a loucura do branco. também gostas de branco por isso chora nas asas dos anjos. a vida nunca sorri, é tirana e és tu quem tem de sorrir para ela. chora. e não julgues que consegues chorar tudo hoje. sorri "kowo" porque mereces o que a alegria te guarda, sorri "kowo" e no dia em que brotares lágrimas sorridentes a tua ferida estará melhor sarada. mas "kowo", todas as feridas deixam uma cicatriz, para te lembrarem que chorar é a cura quando julgares que a vida é disfarçada com sorrisos falsos. nesses momentos, simplesmente chora. porque chorar é limpar a alma, quando te conscientizas que a ilusão da realidade dói.

20130312

perderam-se


cercou-se numa camisa de forças e gritou dor. todos o chamaram maluco e apenas os surdos o ouviram. agarrou-se ao amor mas ele fugiu-lhe. também ele fugiu dele, num acto certo na altura errada. todos o chamaram verme e apenas os cegos o viram. agarrou-se à dor e ela encontrou-o. também ele a encontrou, num acto errado na altura certa. sempre numa altura certa, num tempo errado, num choro seu.  cercou-se numa camisa de dor e gritou por forças. só os de bem o acolheram, quando os de mal o acolhiam. só os de mal o perderam, quando os de bem o prendiam. e ainda assim não chegaram para o erguer. no amor não cabe sempre amor tal como no ódio não cabe sempre ódio. porque tantas vezes o amor cabe no ódio e o ódio se chama de amor, assim como ele se chamava por ti e tu nunca chamaste por ele. nunca coube amor em ti e ele nunca soube amar. porque se ele era maluco, como poderia amar?

torceu-se num armário escuro e gritou perdão. todos a chamaram assassina e apenas as almas a ouviram. agarrou-se ao choro mas ele secou. também ela secou nele, num acto certo na altura errada. todos a chamaram de vadia e apenas a morte a chamava. agarrou-se à saudade e ela encontrou-a. também ela a encontrou, num acto errado na altura certa. sempre numa altura certa, num tempo errado, numa agonia sua. torceu-se num armário escuro e gritou perdão. só que ninguém a acolheu, quando a destruição a acolhia. só o vazio a conquistava, quando ninguém a prendia. e ainda assim não chegou para a matar. na solidão não cabe sempre saudade tal como na saudade nem sempre cabe a solidão. mas tantas vezes a saudade cabe na solidão e a solidão se chama saudade, assim como ela se culpava por ti e tu nunca a culpaste de nada. nunca coube culpa em ti e ela nunca se desculpou. porque se ela era culpada como poderia deixar-se amar?

perderam-se numa guerra de fantasmas e gritaram amor. todos lhes chamaram miseráveis e apenas os sonhos os ouviram. agarraram-se um ao outro mas não chegou. também eles não chegaram um para o outro, num acto certo na altura errada. todos os chamaram cobardes e apenas eles se sentiam. agarraram-se ao passado e o passado encontrou-os, num acto errado na altura certa. sempre na altura certa, num tempo errado, num amar despercebido. perderam-se numa guerra de fantasmas e gritaram amor. só eles não perceberam, quando se odiavam tanto. só eles se perderam, quando ainda eles se amavam. e ainda assim não chegou para se separarem. no peito nem sempre cabe amor tal como o amor nem sempre cabe no peito. mas se o amor chegar ao peito, o peito não chegará para amar, assim como o amor chamou por eles e eles nunca ouviram chamar. nunca coube amor neles e eles nunca se puderam amar. porque se eles não se viam, como se poderiam amar? mas se eles se amavam, como se poderiam esquecer? e se eles se amavam, como se puderam perder?

20130311

pele. corpo. saudade. alma.


a trovoada come-me os nervos porque me leva às memórias. esta chuva que me assenta na pele, amolece-me a carne mutilada. com este tempo não há corvos, nem mochos que me soem aos ouvidos, nem as bruxas saem à rua para me espreitar. sigo vagueando a alma ferida, fugido à chuva, fugido da morte que pairou sobre mim. prendo-me ao tempo porque este pode não chegar para amanhã gritar perdão. enquanto os olhos se fecham no olhar a minha vida corre para trás. os meus braços tremem porque sentem o que digo, a minha pele arrepia e os meus olhos choram sem saber porquê. o molhado do chão queima com os sentimentos que nele piso e alguém teve vontade de me procurar na chuva. já a conheço de outras histórias e já a curei de outros males. as teias com que cobre o rosto são como cofres que escondem as linhas daquilo que viu. eu sempre procurei as chaves com flores que lhe abrissem o olhar, mas ela sempre achou melhor matar-me antes de qualquer tentativa de a salvar. eu não lhe iria falhar porque sempre a amei e ela nunca me amaria porque é uma encantadora de sonhos e eu próprio sei que os sonhos não existem. eu e ela somos um crime em primeiro grau e é a tristeza a linha da nossa saudade. as tintas do nosso tom de pele embebedam o sangue por nós derramado noutras vidas. eu peço sempre para ela fugir de mim, porque a minha alma já fugiu também. foge, porque eu vou ficar sempre aqui, talvez para te ver partir todos os dias, talvez para me ver ficar todas as noites. a saudade é minha amiga, a estrada leva-me ao fim do nada e contigo chegaria ao fim de tudo. se o céu não era o meu destino, porque é que a vida não soube gritar? se a vida não era inimiga porque é que ela não me pode ajudar? o tempo nunca foi meu e a morte foi tão certa quanto a dor. voa, que o tempo também voa. sinto-me perdido a cada dia que passa, sinto-me sozinho a cada dia que voltas. já morri por ti e voltaria a viver por outro alguém que soubesse o meu nome. por vezes ainda espero, outras desespero e por algum motivo ainda corro no fundo do poço tentando chegar ao topo. mas no fim de cada dia sei que estou no mesmo sitio de sempre, a despedir-me de quem vai e de quem nem considera ficar por mim. é o meu destino. despedidas e falsas amantes. finjo muito bem o que me vai, tão bem que nem eu percebo o quanto me engano. lágrimas disfarçadas por sorrisos que ninguém percebe serem de dor. e saudade de quem ainda há-de vir. se um dia for feliz é porque a saudade se esqueceu de mim e traí o passado com o presente. no dia em que for feliz, a trovoada irá deixar-me memórias e a chuva curará a minha pele. na tua.

20130307

ele


um drogado que se larga na vida conforme a morte o chama. o seu corpo não transporta nada, se já nem a alma cabe nele. não adianta ter um rosto para mostrar numa sociedade que vive de facadas no peito. e ele espeta nas veias o que a saudade lhe espetou nas costas. eu conheço-o e tantas vezes sei dele, quantas vezes sei de mim. por vezes sentámo-nos até na mesma cadeira enquanto ouvimos os corvos chorar. outras vezes bebemos até o mesmo café, na mesma chávena, na mesma esquina onde nos encontramos pela primeira vez. eu sei de mim, mas tantas vezes não sei dele.  por vezes sentámo-nos nas mesmas cadeiras enquanto nos perdemos um do outro. outras vezes um quebra a chávena enquanto o outro quebra a ressaca, na mesma esquina onde nos separamos pela ultima vez. eu conheço-o mas as seringas que nos espetam o corpo são a diferença que nos espeta o futuro. eu larguei-me à vida e só droguei a saudade desta vez. ele larga-se à morte e droga só o corpo de todas as vezes. nem a saudade tem saudade de nós. somos tão diferentes sós, mas realmente iguais se nos juntamos no mesmo momento. cada um deles sente-se metade viva do outro, mas estão inteiramente mortos como o amor que os juntou. por vezes parte de nós morre, para outra parte nascer.  por vezes apenas a coragem nos serve para deixar  morrer uma parte de nós, por outras vezes uma parte de nós morre para servirmos de coragem. eu deixei morrer uma parte de mim no dia em que o conheci e apenas uma parte mais pequena restou no dia em que o matei. mas em todo o lugar que morre, um lugar nasce, e no lugar onde ele morreu, uma parte de mim nasceu também. em todas essas partes do que for, a droga terá saudade de me matar, mas eu terei sempre coragem para viver depois deste amor que nos drogou juntos. sobrevivi e estou cá.

20130303

diferente amar negro

não reages como os outros. és diferente e ninguém sabe. ninguém te vê e ainda assim teimas em respirar. vestes-te em preto porque ninguém te cheira a pele e toda tu és cheia de luto. carregas um fardo de mágoas por trás desse negro vestido e teimas em respirar. procuras entender os medos do teu próprio nome e rezas para que ninguém desvende os teus segredos mais cruéis. não pertences aqui e tu sabes. sentes-te negra porque os segundos que passam neste tempo, são batimentos perdidos noutro mundo. sentes-te perdida de ti, não por seres má, mas sim por não teres uma alma que te deixe ser boa. os sentimentos que te correm as veias estão camuflados pelo ódio que te suga a dor e te faz cegar o peito. chorar para lá da morte é tão pouco que te torna sádica a experiência de sorrir. sorrir para lá da morte é tão sádico que se torna pouco a experiência de viver. porém vive, ou morre se preferes. deixa-te levar pelo cinzento que aparece ao de leve do negro  que lamentas. agarra-te à dor e usa-a para amares incondicionalmente quem te abriga. almas sobrevivem sozinhas, mas vivem para lá do tempo quando se encontram aos pares. são doces se o negro lhes levar o nome, mas não deixam de ser puras porque ninguém lhes leva a essência. o brilho dos olhos afugenta muitos monstros, mas os anjos deste mundo lutarão para te ensinar a amar. por isso deixa. deixa o preto do fumo que te escurece o sorriso e morde o tempo que te ama a alma que escolheu pertencer-te. e sê feliz, com o cinzento que desbota do negro preto e deixa ao peito ver para além das cores, para além de um espelho que aparenta ser-te feio e que no fundo até o é. mas ninguém é bonito como pensas e ninguém é tão feliz como aparenta ser. viver por vezes custa, mas sofrer também custa e tu deixas, por isso tenta. e se quiseres tentar comigo estamos juntos para encontrar um caminho fora do negro que nos ame aos dois, porque sabes tão bem quanto eu que também não pertenço aqui. sou como tu e por isso se torna sádica a experiência de me amares. sou diferente e tu sabes. porque não reajo como os outros e ninguém me vê, mas ainda assim teimo em respirar. talvez por ti, só por ti.