já não há bailarinas nem cartas
beijadas no papel. já não há caixas de música e o ballet não é coisa de
princesas. o romantismo já não é coisa de princesas. eu sou tão delas que me perco sempre de mim e ainda assim sou
tão eu que me perco sempre delas. e elas. elas são tão belas de mais que quando
se perdem de mim, encontram-se em si. sou um labirinto de maus pedaços de vida
e nem todas as princesas dão a mão a vadios como eu. aprendi a não precisar delas, nem de demónios. só conto com os anjos e até eles às vezes parecem
me falhar. aprendi a não precisar de ninguém, estar sozinho não me assusta
porque sou boa companhia. eu. eu já fui feliz (sem saber) e nesse enquanto todo
o mal me alimentava a esperança de ser triste (sem querer). a gente sabe tanto
quando não quer e quer tanto sem saber. talvez não faça sentido sonhar ser
triste, mas para mim faz menos sentido ainda ser feliz sem entristecer com
nada. nunca me deixaram ser assim. feliz. só feliz, sem saber querer ser
triste. eu. eu já tive uma família, mas tenho uma coisa dentro de mim que me
sobrevive no corpo e a matou. um vagabundo dentro de mim que a matou por me
roubarem a tristeza. tal como a tristeza me matou o medo quando me roubaram a
alma. e vivo assim, (sem saber) ser feliz e (sem querer) ter medo de ser
triste, para quando as princesas me puderem dar a mão. e vivo assim, (sem querer)
ser príncipe e (sem saber) cuidar de princesas. o romantismo já não é coisa
de princesas. nem de príncipes, só de monstros. porque os monstros tem o toque
da tristeza que faz amar (tristemente) feliz. e eu. ainda gosto de caixas de
música (sem saber) e da rebeldia escondida nas cartas de papel (sem querer). sou um monstro e os monstos são felizes quando amam. românticos. tristes. princesas.
Almas
20130226
20130221
uma vez, duas vezes, várias vezes
noite de inverno. o nevoeiro
cerrado tapava as vistas longínquas. uma casa em pedra maciça, tão maciça
quanto a dor daqueles tempos. era a única casa naquele monte vazio, só mais
existia o vento com a vida e os gritos. e dois corpos. uma mulher, largada dos
filhos que a visitam quando se lembram e não quando podem. uma mesma mulher
traçada pela vida com as cicatrizes das doenças que a escolheram. e um homem.
vulgarmente infeliz, que não teve funções de pai e que à muitos anos se perdeu
no papel de marido. perdeu-se, do papel de companheiro fiel no momento em que a
doença lhe roubou a esposa e o amor. a luz não chega aquele monte e de perto só
se ouvem os animais que vagueiam em busca do suor a carne fresca. nada existe.
as horas após o jantar são de horror para os corpos que lá habitam. ela já
deixou de viver. a doença matou-lhe demasiada vida e agora o homem mata-lhe
demasiado a morte. e então nem vive, nem morre. acomodou-se a um parasita que
lhe rouba a virgindade todas as noites a sangue frio. rouba-lhe o sexo
violentado de frieza. viola-lhe a alma com o nojo da doença lhes ter levado o
amor. ele vem-se por rotina porque já nem ele sente. a barba por desfazer é o
luto pela inocência levada e o vinho que lhe escorre pelo beiço é o único
disfarce à depressão. enche-lhe o ego rasgar trapos de um corpo cozido, mas os
trapos são tão trapos que o ego vaza tão rapidamente como os sorrisos da
infância. e por isso o repete. todas as noite, uma vez, duas vezes, várias
vezes. rouba-lhe o espirito, uma vez, duas vezes, várias vezes. ela crê merecer
o castigo por a doença lhe ter levado o amor próprio, uma vez, duas vezes,
várias vezes. sabe que apenas alimenta um corpo molestado porque à muito que a
alma a abandonou. não a incomoda o que ele lhe rouba do corpo, se a doença
também a roubou sem um contracto até que a morte as separasse. se a doença pôde,
ele também há-de poder. aos dois já nada importa, já nada os faz amar, já
nada os faz ver o mundo para além do nevoeiro cerrado. e eu. eu tantas vezes os
vejo, do lado de dentro da minha janela. e tantas outras vezes choro por eles,
uma vez, duas vezes, poucas vezes para as que merecem. eles não se querem, não
se olham, nem respiram já o mesmo vento que lhes chora os ouvidos, mas tão
pouco saberiam viver um sem o outro. assim se deixam, sem viver e sem morrer,
uma vez, duas vezes, várias vezes. e assim o tempo passa, para mim e para eles.
eu continuo a vê-los quando me lembro, e eles continuam a ser meus pais, uma
vez, duas vezes, várias vezes. vez nenhuma.
20130219
sorrir de nada
aquela noite em que um rosto de
princesa e um corpo de mulher se misturam, e esse mesmo ser nos diz que somos
engraçados e temos uma voz lindíssima. não foi invulgar ao ponto de não me ter
alegrado por momentos, mas foi tão real o suficiente para garantir que cada vez
mais sei agarrar os pés à terra. já aprendi a não sonhar, tal como o tempo já me
ensinou que os projectos que planeámos só se concretizam se o destino quiser.
não importa o quanto lutemos, se não tiver de ser, não será. já aprendi a sorrir
por fora, e chorar só por dentro. já aprendi a manter de pé um corpo de alma
perdida e enchê-los com os poucos nadas que a vida nos dá. e quando aprendemos a
viver com pouco, sem pedir muito à vida, sem desejar histórias de final feliz e
a desapegar os sentimentos do passado, torna-se mais fácil sorrir das saudades,
das memórias e das insignificâncias do dia-a-dia. aprender a viver com o pouco que
é dado, é aprender a sorrir sem motivo, a amar sem aparências e a morrer sem
arrependimentos. um dia aprendemos a lidar com o tempo, com a escola que ele
nos dá e com as lições que a companheira da vida nos oferece. Deus não nos tira
nada, só nos mostra o que nunca foi nosso. Deus não nos castiga, só nos ensina
a lidar com o desapego de quem não pode ficar no nosso caminho para sempre e a
seu tempo nos dá como presente aquelas pessoas que sentimos conhecer desde
sempre. a seu tempo, o tempo nos dá vida e a vida nos dá tempo pra viver.
20130218
obrigado
hoje lembrei-me de ti. mas já não
doeu. foi tão simples como sorrir ao ver-nos passar. os anjos estavam comigo
certamente, pois nem os momentos tristes me apertaram o estômago. não foi
fácil, mas hoje alegro-me por ter acontecido. foi demasiado importante para mim
mas sabe tão bem ser livre de novo. foi o preço de quem desconfiou de mais das
suas capacidades, do seu valor e de quem achou que o mundo ainda era cheio de
gente bonita (no interior). um preço demasiado caro, mas que ainda assim me deu
troco ao que eu tanto lutei para não o pagar. troquei lágrimas por força,
troquei amor por saudade, troquei ingenuidade por franqueza, mas o mais
importante, troquei a mentira pela verdade. hoje sou mais rebelde do que à
tempos, mais forte, sincero e lutador. hoje sei o que fazer para não cometer os
mesmos erros, sei como lidar com os factos e sei amar melhor. pelo menos é o que
dizem e o que eu sinto. a ti, agradeço-te por teres feito parte, aliás, teres
sido parte. agradeço-te teres-me ensinado a lutar, a querer mais e a saber ver
as pessoas. saber e esperar. esperar para ver as pessoas jogarem baixo, jogarem
sem sentimentos, jogarem com a estupidez mesmo que essa ponha vidas em perigo.
vi tudo isso, e por isso te agradeço, por teres sido o motivo de ter lutado,
ter crescido e amado, mas também por teres sido o motivo para desistir, para
perceber que afinal não eras como disseram, mas também não és como pensei que
fosses. obrigado por hoje poder sorrir e não me incomodar o passado. obrigado
por hoje olhar o presente com a mão dada ao futuro, obrigado por hoje amar quem
apareceu e não quem me deixou, obrigado por me terem deixado esquecer-me de ti.
para que não dôa, o passado foi bom, mas ficou na memória. e é tão bom ter
memórias que nos digam quem fomos, por onde passamos e o que tivemos de lutar. sem palavras difíceis para ler e interpretar, por hoje é só isto, e já foi tanto. obrigado.
p.s:. Avô <3
20130217
ponto de situação
este texto não é como os que
costumo fazer. aliás odeio fazer este tipo de textos mas acho necessário.
sinto-me realmente "apavorado" com os possíveis recados dos anjos. os
que me conhecem mais de perto sabem as minhas crenças. os que não me conhecem
vão passar a conhecer algumas. não acredito em coincidências. determinada coisa
acontece porque tem de acontecer para nos transmitir algo. acredito em Deus,
mas não me prendo a uma religião, apesar de me juntar a algumas práticas do
catolicismo romano, quando há necessidade de tal. não significa de todo que me
identifique com a totalidade das mesmas, ou até com alguns ideais da religião. tudo
isto é normal para a maioria de vós. a parte mais anormal, ou que ainda se
prende como meio tabu ou como um tema para os loucos é que junto com Deus,
acredito em toda uma parte de fantasmas, espiritismo, bruxaria, energias, entre
outras coisas e seres que não valem a pena aprofundar aqui. julgo que seja mais do que
acreditar, mais uma vez os que me conhecem sabem do que falo, os que não,
percebam apenas que Acredito realmente em todo esse universo e senti necessidade de partilhar o que aconteceu comigo.
toda esta introdução, para dizer
que na minha vida, volto a referir, não
existem coincidências, tudo tem o seu propósito. o texto anterior a este
referiu alguns factos, que eram de todo fruto da minha imaginação. a questão
que enfrentei hoje, é que muita da história que contei, existe realmente em certos aspectos. descobri
hoje, ao longo da visualização de um filme (exorcismo de emily rose), que
existem demasiadas parecenças com o texto que escrevi anteriormente. posto
isto, e segundo a mensagem do próprio filme, juntando a mensagem pessoal que
retirei dele, reflecti o suficiente para me aperceber que estava a fazer coisas
erradas.
ok, erradas talvez não seja a
palavra correcta, mas mais uma vez tudo isto entrou em conflito com as minhas
crenças. indo agora directo ao assunto, a minha forma de escrever, os termos
que gosto de usar, as histórias de fantasia que ponho no papel, as invocações à
morte, as referências aos espíritos, bruxas e demónios, estão erradas. na minha
crença poderei dizer que estou quase a atrair um lado negro do mundo. o meu
caminho não é esse, e por muito que goste dessa forma de escrever, sei que
aquele filme após o meu texto foi um recado para me afastar do que ando a
fazer. afastei-me de todo um universo de energia positiva, fé e crença e julgo
que foi o momento para pôr a mão na consciência e voltar a reconciliar-me com
esse universo.
por isso, este blog talvez leve
um caminho diferente a partir de hoje, a essência da escrita estará sempre lá,
mas todo o lado negro dos textos, a obscuridade e fantasia negra dos mesmo fará
parte da história, pois o meu destino é com toda a certeza o de um mundo de paz
e felicidade. mereço mais do que o mal dos demónios e por isso percebi que
estes não podem ser mais personagens das minhas histórias.
poderei responder a qualquer
dúvida, peço apenas que não julguem e que se não compreendem, pelo menos
respeitem e não sejam cobardes de gozar com o que desconhecem. paz.
20130216
madrugada.
3. madrugada. os sonhos roubam-me
o sono e então acordo. algo me querem dizer mas estou cego à muitos anos. há
quem fale de fantasias, eu falo de amor e morte. a morte é tão verdade e o amor
é tão cruel. e por isso odiámos a verdade por ser honesta e amamos um amor que
tapa a verdade porque nos reconforta com uma mentira bonita. os sonhos não são
nada, mas são tudo se ouvirmos o que nos contam. mas estou surdo à muitos anos.
3:30. madrugada mais velha. os sonhos roubam-me o sono e então tento escrevê-los.
um anjo sagrado, um manto negro que lhe veste a pele. queimada. um anjo de pele
queimada com memórias de ti. puxa-me da cama onde descanso o corpo e leva-me a
alma ao inferno. odeio estas viagens nocturnas. os caminhos onde passo gritam
nomes e levam promessas deitadas ao vento. as cangostas encobrem as bruxas
disfarçadas de branco e os cruzamentos são o palco onde se exibem os feitiços.
não fosse madrugada e os espíritos não andassem soltos e não te via com elas.
3.45. madrugada mais manhã. os sonhos levaram-me ao inferno e eu rezo. os anjos
são tão negros aqui e as crianças inocentes não existem por cá. as gentes que
aqui choram são almas perdidas nos luxos da traição. os mandamentos de Deus não
servem aos príncipes do demónio, pois estes só se alimentam de dor. a morte
está cá, mas só de visita como eu. ela vem rir-se e eu venho buscar o sentido
do sonho. os meus pés queimam-se nas chamas deste mundo e as imagens que me mostram
choram para mim. vidro nelas como se entendesse o que elas querem e revejo-te a
rir. 4. madrugada para acabar. os olhos caem ao de leve e entendi o sonho.
entendi que as memórias são para rir. e chorar. são para recordar. e viver. e
deixar lá, no canto delas e seguir o destino. ele há-de ser feliz. a alma está de volta. desta vez
sozinha. 4:15. madrugada ainda noite. o sono não deixa os sonhos falarem.
adormeço o corpo e aprecio a mente conversar com a alma sobre mim. e elas falam
bem de mim, porque me amam e são cegas. e tão honestas por me deixarem morrer. e
eu não me importo. pois a verdade é mais cruel mas leva-me ao céu e larga-me do
inferno desta terra de sonhos em memórias. perfeição. uma verdade cruel e um
amor verdadeiro. alma, corpo e mente. tão cegos e tão surdos de mim.
20130215
14 e conclusão
ontem recebi uma chamada de uma pessoa
(f) de coimbra que me perguntou se queria ir jantar lá? (os que leram o post
anterior façam a ligação (pensem) com este que ficam a perceber). surpreso, estupefacto,
vi-me obrigado a recusar. mais uma vez voltei as costas a mim, quem sabe a algo
mais. começo a aperceber-me que dou cabo da vida por me dedicar tanto aos
outros. é uma triste realidade a minha. ainda assim, no meio de tanta cirurgia,
doenças e explosões desta semana, e já que a família deve estar sempre à frente
de tudo, tenho a consciência de ter feito o melhor a pensar nos que amo.
e voltando ao facto de dar cabo
da minha vida por me pôr sempre em segundo plano, concluí que quando estou numa
relação com alguém acabo por de certa forma colocar a relação em segundo plano
também. talvez por dois serem um, e esse um ser o meu mundo, passa para
secundário por causa dos outros. resumindo o que quero dizer é que tem parecido
que as minhas prioridades e vontades são outras, devido ao facto de me importar
mais com os outros do que comigo, e por isso deixo de viver a minha vida para cuidar
da dos outros. ou seja, involuntariamente e sem intenção acabo por falhar com a
pessoa que está ao meu lado, por causa de me dedicar demais aos outros e como é
evidente essa não é a minha vontade. agora julguem-me sem saber os motivos de
tal...(fuck off, i’m tired)
20130212
noite de máscaras
viana. passou o ultimo comboio e
eu quase fugia numa carruagem de fantasmas. esta noite há festa e eles nem
precisam de máscara. sozinho. sentado. não fumo, mas o cigarro acendeu-se e eu
aproveito. estou mascarado, e o meu personagem é fumador nos tempos mortos pela
saudade. os carris desta estação estão maquilhados de partidas com sangue.
ganhei companhia. a morte pintou-se de gata e veio miar ao meu lado.
convidou-me para dançar ao som da chuva, mas recusei. não vou fazer mais um par
de noivos mortos como tantos que andam aí. viana. varrida de luz neste inverno.
pedrado. escuto os morcegos pedirem bebidas nas tascas. ando perdido nas ruelas
escuras e os velhos chamam-me pedinte. olhei o céu e ofusquei-me com as luzes das
casas velhas. entrei num bar e o preto que visto perdeu-se também com as luzes
que saltam dos tectos. a tequila come-me o cérebro e fico-me pela cerveja. olho
ao redor e o redor olha pra mim. fazer conversa sobre a vida não é forma de angariar
amigos, nem tempo. procuro de novo e vejo alguém. uma alma disfarçada como eu, como
se de uma dupla se tratasse. o olhar dela está mais perdido que eu. talvez seja
um fantasma. vou chegar perto e confirmar. toquei-lhe. o calor nas minhas mãos
fez-me sentir neste mundo. as minhas palavras de cumprimento deitaram-lhe lágrimas
ao rosto. talvez sejam efeitos do álcool, vou dar apoio como tantas vezes me
habituei. mas não, havia ali um estado de sobriedade que nem deu espaço para o álcool
suspirar. até eu fiquei sóbrio repentinamente. encontrei alguém como eu.
olhamos nos olhos e ela sorriu. sem nunca me ter visto abraçou-me e senti outra
vez que pertencia a este mundo. fechei os olhos, e nesse instante uma voz me
soou tão doce ao ouvido e me agradeceu. toquei-lhe os braços e convidei-a para passear
no frio do norte. os olhos dela aceitaram, e conversamos tantas horas em
silêncio. foi bom, contamos a vida um do outro sem uma única frase sonante e percebemos-nos
pelo profundo dos nossos olhares. ela adormeceu no meu colo e apenas estou
inquieto por não saber quem ela é. continuamos estranhos apesar das nossas almas
já se terem tocado noutras vidas. estas coisas sentem-se. acordei-a, quando me
deixei levar por um carinho espontâneo e ela sorriu de mansinho. não faço ideia
do que se passa comigo para tanta cumplicidade. não me conheço neste jeito.
parece que tudo ficou tão banal. seis da manhã. os fantasmas começam a
esconder-se e ganho coragem para lhe perguntar o nome. olhou-me o peito,
pediu-me o telemóvel, deixou-me o numero e fugiu. inquieto de surpresa e
mistério. apenas receio que a morte se tenha mascarado de princesa para me
ouvir morrer. se me enganou, ao menos por momentos fui feliz. e viana, foi
novamente carinho, quem sabe, amor.
20130211
remorso
remorso nem sempre é um
sentimento dos maus, por vezes também é um sentimento dos orgulhosos.
enquanto passamos uma vida de
costas voltadas, chegamos à hora da morte para nos arrependermos de tudo o que
fizemos e não fizemos. de tudo o que nos fizeram e não fizeram. chegamos à hora
da morte e como um milagre de Deus, todos tentam ver o nosso melhor. o nosso
melhor que tanto encobriram durante os dias que estivemos vivos, o nosso melhor
que deixaram de querer saber, que não teve importância quando devia, que não
teve valor algum junto dos erros que cometemos. então os remorsos, quando o
arrependimento de termos sido demasiado duros com quem não merecia nos esgana a
garganta, quando o arrependimento de termos sido demasiado radicais com o que
não merecia nos estilhaça o peito, quando o arrependimento de não termos dado a
oportunidade merecida aquela pessoa nos destrói a alma por inteiro. quando o
arrependimento nos esmaga os sonhos que não vivemos. e valerá de algo os
remorsos? valerá de algo se estes não trazem a vida que se perdeu, as amizades
que se deixaram, os amores acabados e todos os sonhos falhados de uma vida?
e se sou boa pessoa? talvez não o
tenha sido sempre, mas apenas não me quero arrepender de não ter tentado, não ter
evitado ou não ter querido saber de deixar os corações e as almas que um dia me
tocaram em paz de amor. afinal tudo se trata de amor. é com ele que se nasce e é
com ele que se morre. não se desperdice o amor, porque este não se arrepende de
ter passado, mas deixa-nos partir sem remorsos do que já passou. amem hoje, que o amanhã é tarde. e assim seja.
20130207
de que morte, de que vida
sentei-me naquele banco como os
outros lá estavam. talvez a minha dor me permitisse sentar de um jeito que
outros não conseguiam. piscava os olhos a cada partida que o corpo me pregava e
engolia as lágrimas olhos dentro sem mais ninguém notar. tentar disfarçar o que
sentia, distraía-me para não sentir o que os meus olhos pediam para ver. macas,
batas e mortos. mortos, misturados com os vivos sem ninguém dar conta da leveza
daquelas almas que já haviam partido. mas eu via. via as almas fugirem daquele
antro, ancoradas aos pedaços de luz que avistavam entre o abrir das portas, das
janelas, dos corações mais bondosos. paredes brancas e mórbidas de vómitos químicos
de tanta saudade. vómitos químicos de tanta terapia. vómitos químicos de tanto cancro
descurado. vómitos químicos. sem cura. aquele homem grita dor e ninguém o ouve?
aquela vida está sem alma e ninguém a escuta? implorem-lhe uma agulha de
morfina que lhe foda com as veias mas lhe leve o suor aos calcanhares. ninguém
vê que tudo está perdido à espera de um Deus que não responde às chamadas deste
mundo? ninguém vê que o nosso Deus não fala na mesma língua que nós? não foi
isto que ele nos ensinou. amem-se nas migalhas do pão que ele deixou e bebam,
que sempre houve vinho do Senhor para as nossas bebedeiras fieis. mas isto não
é vida porra, estas doenças que nos consomem os dias dão mais vontade de matar
do que amar o próximo. a mulher ao meu lado morreu enquanto a filha a largou um
instante. talvez já estivesse morta antes, mas o calor de dois corpos juntos
alimenta a ilusão de que a vida é mais do que isto. este puto sistema não
funciona e a morte não espera por nós. nem a morte, nem a vida, que essa passa,
puta e vadia, sedenta de mágoa para os melhores e artista de cinema para os
maiores fantasmas. aquela criança não tem pai, nem mãe que a guiem. que lhe
adianta berrar de tudo se ninguém se importa com o quê? nem eu me importo, nem
eu porque não sou mais que ninguém nesta hora. este ambiente assusta mais que a
própria morte. estas urgências deviam ser uma redoma que encobrisse uma
floresta verde. se é para morrer pelo menos estes corredores já teriam o plano
de fundo do paraíso. se é para morrer assim, de que adianta ter vivido feliz?
os de quem privilegiaram de ter vivido feliz. de que adianta se a última
memória que vai para a morgue é a de um corredor de desesperos? de que adianta,
se o que nos consome é saber que os que amamos ficam infelizes no tempo do
nosso eterno descanso? de que adianta morrer doente num túnel escuro de
doutores e enfermeiros? de que adianta morrer? apenas morrer, se a vida não é
mais do que um caminho que nos leva às paredes deste corredor, às luzes de uma carrinha fúnebre?
de que adianta não adiantar a vida? a morte? o aDeus? o aDeus meus senhores, o
aDeus não adianta porque é uma despedida eterna, é uma despedida para outro
plano, o aDeus é uma despedida para o corpo gritar nunca mais. nunca mais ver.
nunca mais sentir. nunca mais morrer. quem sabe, nunca mais.
20130206
alcatraz
alcatraz 29091949. prendi-me em
visita à ilha. agarrei-me à solitária e parti os ossos do meu pescoço. rasguei
a pele e paralisei as pernas para que não andassem no tempo. fiquei lá, no
tempo. na sala em que o medo chamava a morte de amiga para que esta lhe
vendesse os seus defuntos. prendi-me, mutilei e quebrei os sorrisos de quem me
dava vida. arrastei-me às lágrimas das dores e o tempo não foi tempo, mas
passou. solitária, não é nome para uma cela assim. não é solitária porque não é
vazia. uma sala comigo nunca será vazia, pois a alma que carrego está cheia de
nadas sentidos, está cheia de pedaços de mim, de espelhos quebrados por partes
mentidas, de dores agarradas ao inferno, de choros gemidos como os das alminhas
daquela curva. está cheia de desamparos de amores de costas voltadas, está
cheia de flores mortas com cheiro a tristeza. e tudo isso vem de mim, tudo isso
me enche enquanto preencho a solitária. tudo isso me preenche com mais força do
que um mar enraivecido, do que um fantasma à procura de paz, do que um homem
morto de amor. com mais força do que eu pude alguma vez julgar. com mais força
do que a própria morte me pode trazer, com mais força que a despedida de vós.
somente com mais força ainda do que o olhar feliz onde tens amor. e com mais
força que o amor é tão difícil, é tão insano e solitário. é tão preso ao
passado. é passado. liberto. alcatraz 28042012
20130201
nosso amor, porcelana
(escrito algures num quarto despido de nadas, entre um final de dezembro triste e um inicio de janeiro nostálgico). recordações, apenas e só.
quando o inferno chegou
nossas almas queimou
numa dor que roeu
uma angústia cravou
e meu corpo morreu
nosso tempo parou
o meu peito rasgou
o amor se perdeu
eu lutei pelos nossos corpos frios,
estas lágrimas são mais que lutos vazios
foi um pedaço de mim
um adeus com saudade
um passo para o fim
bruxaria e maldade
foi perder-te assim
foi buscar a verdade
de vila em cidade
desde o tempo em que vi
deixa-me sentir que o tempo é nosso,
que o querer também é teu,
um lugar que haja em mim
amar se há em nós
eu só amo o que posso e não posso deixar
quando acabaste a esperança
a revolta cresceu,
esqueci a aliança
o sonhar esmoreceu
o amar se amançou
o sentimento não deu
o coração prendeu
e a lembrança ficou
eu tentei terminar os amores tão frios,
já só queimo a saudade, já não choro os vazios,
é vontade de matar
roubarem-me o amor
p'ra voltar a sentir
nunca perdi o calor
cresci com esta dor
de te amar mas partir
rosa cor dada em flor
quem me dera dormir...
deixa-me esquecer o que foi nosso,
se só amo o que quero e não posso
já não espero por nós
porque te esqueceste de mim