Almas

20160420

foi-se


pegas na vida e esperas. deixas passar. o suficiente para te atrasarem o passo. seres ultrapassado por meia dúzia de acasos. é difícil estar sempre à tona. manter a distância do segundo lugar. não ser esquecido. ter capacidade para sustentar o pódio, sem cair em desgraça. é tudo tão dramático. a começar por mim. que  serzinho insignificante. repúdio. é nojento e violento ser-se assim. sofres demasiado por dentro. não há necessidade de se estar sempre no topo. ver o mundo um pouco mais abaixo do que é suposto, também pode ser bom. mas esperas. deixas passar. e num instante largam-te a mão, escorregas num abismo, traem-te nas costas e o tempo nunca volta atrás. o que os olhos viram, não podem voltar a ver como virgens. já não é igual. o acto em si é o mesmo. uma blasfémia para a alma. num instante és ultrapassado. és lembrado. és um morto. és o segundo. és quem chega depois da meta já ter sido cortada. da surpresa. da novidade. era tão bom poder mostrar-te o mundo todo, enquanto o conhecia também. pegas na vida e esperas. mentiras. pegas na espera e a vida. vai-se. quando percebes. foi-se. não tem de ser surpresa. experiência. um atraso. triste sina. tempo e pecado. a vida é um instante. roubado. esperas. e eu espero que ma roubem também. pfff. foi-se.

vomito


desprezo. dás-me com desprezo e eu vomito. engulo o vomito tantas vezes que o meu estômago é não mais que um mar de degredo. morto. maciço. baço. uma réstia liquida onde descansa a morte. o veneno. o nojo. poderia aguentar tempo sem fim, enquanto construo um castelo de névoa e frio. é este o sítio onde habito. onde me guardo. sinto o dever que chama dentro de mim. alimentar-me. castigo-me. engulo o que menos quero, mas anseio-o no mesmo instante. a incerteza de que a morte não chega. de que o medo fica ou parte. que o amor não vem. não estará lá em numero suficiente? o amor pode contar-se e conter-se? ás vezes tento medi-lo. em força. quantos cortes aguentaria ele? até ser amputado de vez? o braço? o pulso onde lhe sinto o batimento. a mão que me tapa a boca e, me dá de comer. os dedos que me impedem o vomito. não quero que saias. não quero sentir o vazio. o estômago em espuma branca quando tudo o resto for. vai. feitiçaria. é tão bom queimar-me o corpo com café e sal. e cortar-me o estômago com os dentes em brasa. queima-me a pele. castiga-me o ser. confessa-me. diz que me torturas a alma e me carregas o corpo com veneno. é assim tão doce a tentação? a loucura do pecado? é mais leve que a alma? quanto pesa? quando mede? posso medi-lo? o degredo? o fim, o abismo, o poço? quantas escadas serão até ver-se luz? desprezo. dás-me com desprezo e eu vomito. engulo o vomito tantas vezes que o meu estômago é um banho de químicos. o que não presta de mim. guardado nas profundezas da minha vergonha. as facas. as mortes. o cancro. o amor. sonhei tantas vezes que julguei ter queimado todas as fichas. o carrossel parou. se o meu sonho viaja, o estômago prende-o. joga-lhe a memória e ela falta-lhe. será um feitiço todas as noites? será o degredo? morto, maciço, baço, que não deixa o sonho ficar? penetrar? deixar ser leve, além do peso que me transtorna. talvez mereça ser isto. o que me resta. não fazer mais por mim. não ter mais ninguém por mim. resignar-me ao barulho das tripas a contestar uma qualquer incapacidade de digestão. é tão difícil destruir o escuro. o que não se vê. o meu maior medo é a faca com que me corto. não chegar nunca ao sítio das coisas más. onde o cancro habita. não ter força para cortar tudo. nem um só bocado. o meu maior medo sou eu. o criador de mim mesmo. o organizador da matança. o escultor do abismo. o servo que me dá de comer. que me impede o vómito. que segura o degredo dentro de mim. que me impede de ser. ser só. desprezo. dás-me com desprezo e eu vomito. não percebo, mas vomito. desentopes-me os canais e eu vomito. amo-te, mas vomito. amo-te.

lembra-te da próxima vez


lembra-te de voltar. voltar sempre para mim. como se pudesse realmente fugir. ter onde ir. desaparecer. desfazer-me em migalhas e ser sacudido da toalha. esvoaçar-me no ar de outra casa. partir em pedaços e fazer dos cacos lixo. ecoar no silêncio de outros braços. é só uma questão de sentido. fazer sentido. ter sentido. onde iria eu? afastar-me do pilar que conheço e onde criei meu sustento. algum. como se uma casa pudesse mudar de lugar? como se fechasse os olhos, pudesse estender a toalha noutra mesa. para quem mais varrer as migalhas? os restos de mim? o que sobra, ninguém quer. restos. quem de mim guardaria o que menos interessa, como se valesse ainda assim a pena? o que sou eu? cacos. migalhas. sobras? restos? cuspo-me se não valho a pena. nada. não parto, não quero ter onde ir, se sempre houvesse uma voz que diga para ficar. chega. vem. anda. vem-te. não dá sequer para partir. se o coração tem um lar. quente. uma casa quente. um sono profundo. um abrigo. se a vida que nos corre se liberta a cada instante de pecado. os teus braços, são os meus. não são nada. há dias em que não são. oh de mim se tivesse sido jardineiro e cuidar de pétalas de tantas cores. ou arranca-las como espinhos e espetá-las numa cama para fazer amor. doer. amar. rasgar a pele. arranhar. sentir prazer na dor. oh de me mim se tivesse nascido gato. ou príncipe. ou sapo. quereria vestir negro. quantos prantos e campos precisaria de correr para te alcançar? cortar-me. fitar-te os vestidos e dançar. com eles. todos. beijar-te as peles. é tão bom ser-se o que uma mulher quer ter. mas nunca chego realmente. fico sempre à porta. nunca entro para ficar. um dia saio e corro. vês-me as costas e choro pela frente, para que não vejas. não quero que me vejas enquanto morro. é bom saber o que a alma consegue guardar. até onde. da próxima vez se for marinheiro. que traga o mar a terra o meu lar. se da próxima vez existir, que me guarde a tua alma. numa pétala de várias cores. nos espinhos desta dor. na cama onde dormires. nos sítios onde fizeres amor. amor. vou morrer. eu sei. também já morri.

tic-tac


tic-toc, quantas feridas no meu corpo são tuas? 
tic-tac, parto a louça, rasgo a pele e como duas.
solidão é o caminho da vergonha. agonia são as paredes do abismo. picotado, picotado, só mais um traço em que me perco e me marco. se sismo, parto. ai, ai, ai, isto dói, mas nunca tanto como a dor. quem me dera ser mais forte que o vazio. é tão triste o que sinto e os pés gemem de dor como abanicos. o que sinto é tão triste e as mãos só pedem sempre mais um risco. é suposto me perder para me encontrar. drenar. escorrer. nada escorre, secura, é preciso ir somente mais fundo. os meus olhos são aquilo que eu não minto. a boca foge de quando em vez porque não encontro as palavras deste labirinto. custa tanto ser mulher. ser melhor. se a luta não é suficiente, morramos todos. dementes. colapsados pela vontade de morrer. de sofrer. de sentir. magoar para sentir. mais além. mais. algo. é preciso sentir algo. a companhia de algo. companhia para morrer. abrir um risco para sentir a companhia de nós mesmos. é uma fúria sem lei, aprisionada pela mentira de nós mesmos. solta-te e vai. sangue. pinta as paredes e corre. vida. quem me dera ter mais para viver, se assim morro. perco tempo. quem me cala estas vozes? quem me fode os tendões onde me suporto com o peso de nada? nada? só queria ser tudo. ser tanto. ser mais além do que em vão. mais forte que o vazio de não ter ninguém. o meu Deus fala entre linhas de desespero. Entrelinhas. é a guerra, é a fome e eu não quero marchar mais além de onde tenho raízes. voar, deixar escorrer-me e partir. é sádica a vontade nobre de morrer. honra o teu nascimento. não pediste? não morreste. não. nada. pouco. somente.
tic-toc, quantas feridas no meu corpo vais sarar?
tic-tac, junto os cacos, desinfecto e bebo duas. doses. solidão. agonia. será isto o abismo? ou só o fim da queda?
tic-tac. tic-toc. tic-.

20160413

ruína


dependência. ser-se de outro. aumentar a estrutura, adquirir um pilar e depois ruir. carência. precisar-se de outro. ser-se autónomo, partilhar a vida e desaparecer. mudar. ameaçar sem ternura. insensibilidade. precisar de afecto. precisar de ouvir. precisar e não se estar atento. quando foi que me tornei a sombra do que a vida devia ser? se te gelam os pés, estarão eles ligados à vida? às vezes sinto que me desconecto. que a vida me é sugada por uma qualquer superfície demoníaca na qual me venço. luto contra mim mesmo. tento aguentar-me sem ruir. mas está longe o resto de mim. quando foi que perdi o controlo à realidade? aquele instinto racional que me guiava. era mais seguro ser-se antes. não mais fácil, apenas mais seguro. sem elementos que me abalassem. era isto que eu receava. quanto mais baixa a base, mais fácil a capacidade de segurar os sonhos. não os deixar fugir demasiado. tê-los sob controlo. não lhes dar nome, nem significado. viver dependente. deixa-los sugar o discernimento como um feitiço num espelho de invisíveis. perder para a carência a necessidade de amor. de afecto. de sentir mais além do que existe. destruir a saudade. queimar as memórias. sobreviver aos enterros. utopias. segredos. sonhos. feitiços. dependência. carência. se me roubarem um pilar, estou pronto a desmoronar para que toda a gente note. que finalmente, ruí. 

corrompi-me


leve. escorregas no ar e olhas em frente. encontraste um achado no traço que desenhaste na pele. olhas em frente, como se o ar entrasse fácil nas narinas. comes um chocolate. será depressivo? é consequente gozar com a vida? qual é a regra de ser certinho? não infringir os valores que te põe de pé? trair a nós mesmos? olharmo-nos de forma diferente? chegarmos ao espelho e gritarmos «corrupto»? o que dói mais que o cansaço? que a ardência? que o estalar da pele enquanto a lâmina nos traça? esvazia a mente? centrar os pecados nesse pedaço de lugar onde concentramos também a fraqueza. o pecado é a fraqueza. ou vice-versa. infringir as leis de nós mesmos. correr atrás do que renegamos. cair no abismo e tentar trepar. fingir que a maturidade nos deu o que queríamos. que alcançamos a mesma merda que os nossos antepassados. tudo fakes. tudo arquétipos de modelos já usados. protótipos uns dos outros, fingindo a beleza de se nascer. dar ao mundo nada mais que um vassalo para sofrer. quem perguntou se eu queria ser feito? um projecto egoísta. decidir dar à luz. conseguir cantar. perder o sufoco. abrir um traço na pele para drenar tudo o que não se vê. para sentir vida além da tristeza. não precisar de mais nada. estar satisfeito. ser perturbado mas estar contente. cegamente leve. é tão fácil ser-se a ruína de nós mesmos. deixar de lutar. cair. ir atrás do que o fundo puxar. entrar no jogo. deixar cair as barreiras que impedem a luta do bem contra o mal. entregarmo-nos ao lado mais escuro. não querer saber. que adianta ser-se bom? toda a vida bom? há quem diga que não acredite no castigo eterno, então resta aproveitar. deixar cair a máscara e sofrer afirmadamente. e gritar no espelho «deixei-me corromper pelo fracasso. quero ser o que resta depois de não lutar mais. cansei. desisti. corrompi-me.»

quantas?


vem de mansinho. vai chegando ao de leve e corrompe-te o ser. a dúvida. o infinito da questão. do nada és apenas a dúvida. o que ela te resta. o que ela te deixa. vem de mansinho. vai chegando ao de leve e come-te a alma, vivo. perdes a confiança naquilo que era mais sagrado. e mutilas. cortas os membros que se gelam para sentir como é. ir mais além. sair de onde te deixaram. encontrar alguma existência dentro de ti. foderam-te com amor. abriram as fendas e bazaram. arrastas o corte com medo e seguras firme. pousas enquanto a vontade vaza. observas. como é percorrer a ardência e ver escorrer ao de leve, de mansinho. para onde vai, por onde vai até cair no chão? o que te deixa? a dúvida? leva contigo a confiança com que te aspiravam cegamente. os dedos tremem. gelam. quem estará cá quando eu cair? tudo seca. a dúvida é uma mulher de muitos homens. a confiança uma colher de poucas bocas. ou alimenta ou deixa à fome. se vai, dificilmente volta. onde estão os teus sentidos? essa cama de rede onde baloiças de olhos em vão. nem é vazio, é fome. tapa-me a boca e enche-me o peito com a tua saudade. melancolia. ingrato. sempre me senti ingrato. o destino é um cabrão. é um saco de sementinhas ruins. ervas daninhas que precisam de ser arrancadas. mas eu não sei cultivar, seu cabrão. vens de mansinho. vens chegando ao de leve e enganas-nos uma vez mais. vens ao de leve, trazes o que mais te convém. o que sobra dos ricos. carregas no botão quando te apetece e o jogo vira roleta russa. confiança. coragem. disparar. morrer. quantas vezes tem um homem de morrer para não confiar em mais ninguém? para entender o infinito? para não amar com desejo? para não querer? para não esperar? para não confiar novamente? para não perder? quantas vezes um homem tem de morrer para sarar? quantas vezes um homem tem de matar? quantas vezes morri? quantas, seu cabrão?

20160412

o que mais custa


o que mais custa é o desapego. é sempre o desapego. é esperar e não vir. e quando chega, se chega, não chegar. em si. o suficiente. fingir que veio. que apareceu. enganar um dia mais. uma noite a menos, sem dormir. o que mais custa é a expectativa. é achar que vai ser assim e não ser nada. ou se chegar a ser, não ser, por ser tão pouco. já não ter para dar. já não querer. perder-se entre o mar e a montanha. entre a vila e a cidade. em sítio nenhum. no fundo o que custa não é o amor. o amor é única farpa que nos entra nos dedos e não dói. o que dói é carregar sozinho as memórias de dois e desapegar. é desenlaçar a mão ao vento se já ninguém a pode segurar e expectar nada. o que dói é a mentira. fingir que está tudo bem e a alma gritar que está tudo mal. deitar sozinho e acordar só. ou não acordar de todo, se assim o corpo não deixar sequer dormir. não quiser dormir. até para o dormir é preciso deixar. desapegar. não esperar nada. meu amor e essa casa onde habitas. quem és? chegaste? de onde chegaste? partiste? fecha a porta, por favor. às vezes aqui faz frio. às vezes encontro a paz que procuro, mas não chega. tranca a porta do lado que mais queiras. meu amor, talvez parta antes de chegares. amanhã. se não ficar foi por ter esperado de mais. onde a alma não sente, o coração não se agita o suficiente para ficar. para ter de ficar. esperar também é uma virtude. amar é um pecado, mas deixar de amar é um crime. desamar. ir desamando e sentir-se. notar-se ao de leve, até ficar carregado. todos os dias um bocadinho mais. como o branco que fica preto, o amor transforma-se em muitas coisas. em muitos ós, em muitos nós e muitos não vás já. fica. mas se ninguém pediu para ficar. então ó, parti, até já. se quiseres vem buscar-me. fundo. estou fundo. mas não te enganes. não desta vez. não me enganes. não desta vez. se eu partir e olhar para trás, não grites que me amas se sabes o quanto de ti amei. não grites que me amas, se não deres o quanto te dei. não grites que me amas, pois foi por ti que matei. me matei. me parti. chacinei tudo o que de mim conhecia só, para agora aprender a me abrigar sozinho. aquecer-me de novo sem alma. sem corpo. sem chão. sem ti.

20160409

mulher21


comecei a contar letras, daquelas que formam palavras. frases. continuei a sentir e, doeu. nunca soube o que era sentir por alguém como falavam nos filmes. mas senti. caí fundo, cegamente, fundo adentro num chão que te roubam. doeu. se me contavam que os livros fazem sentido, perguntava porquê? se me perguntarem se os livros fazem sentido, respondo sonho. Se a vida dá 30 voltas, nós damos sempre mais uma por cima. Se o sonho acabar, lê-se um outro. Dói e se dói, o medo, o horror, o abismo de não ver mais se não o fim, próximo.
Já te vi ser mais criança do que hoje. Crescer faz parte. Mas dói. Dá-me medo ver o quanto és. Quanto te tornaste em tão pouco tempo. Tão rápido. Foges-me da mão e dás-me um sorriso. Dou-te amor, quando quiseres e assim pedires, com jeitinho. Tens de pedir com jeitinho. Decidi aprender a deixar ir para voltar, a contar o tempo para poder dormir, contigo. É tão difícil ser-se só. Estar-se só. Se me tivessem contado o que era a paixão, teria recusado querer senti-la. Com os 7 diabos, que faço eu contigo se não te posso esconder do mundo? Se não podes esconder, só podes mostrar. Com orgulho, teus vestidos que vais despindo e procurando dentro de ti, onde andas? Perguntas. Ofereço-te outros, metáfora. Talvez seja o medo de deixar ir. Se não posso esconder, posso tentar agarrar-te. Colher-te um pedacinho de alma para cuidar e deixar crescer flores. Margaridas, como antes. Não as vi, mas sinto-as em teu cheiro. Em teu pedacinho de peito onde me deixaste entrar. Não faço tudo por ti. Como disseste, faço tudo por mim. Egoísmo. Cuidar de quem queremos por perto. Enganar com carinho para que não fuja. Alimentar os gatos para fingirmos que são nossos. Passear o cão na praia para acharmos que o merecemos. Tão puros. Egoísmo. Peso. Leveza. Ser-se. Amor, és-me. Hoje também é o meu dia, mais um dia para poder estar. Glorificar-te. Desejar-te, despida, com a alma nua pra mim. Orgulhar-me. És tanto. Felicitar-te. És demasiados sorrisos. Vinte e um cálices de vida e três bebidos com a minha. Compaixão, do germânico, co-sentir. Contigo. O que é meu é teu, o que é teu é nosso. Amor. Amo-te. Amor. Parabéns. Mulher. Se te merecer.

20160405

vazio


vazio
assim estou vazio.
o amor é uma borboleta
que nos pousa e nos devora.
vazio
assim estou vazio
o amor é uma promessa
que amanhã deitamos fora
o que a vida nos ancora
o que a vida nos rouba
e tudo o que vazio entoa
vazio
e o que tenho ainda por vazar
e o que é o amor?
e o que é trair?
e o que é gostar?
sem nada esperar,
sem nada guardar,
no fim,
como suportar.
no fim,
como acabar.
no fim,
como dizer fim,
vazio.

escuro,
assim é o escuro
não negro, mas infinito
onde me perco e grito
e peço que me deixes sólido
não partido.
o amor é uma gula
que nos deixa comidos
destruídos,
o amor é uma mentira
que damos sem esperar amar.
miséria,
o amor é uma miséria
onde nos podemos esganar.
aquilo que há para dar,
não receber
como é possível querer
sem ter?
o amor é uma pistola
que dispara se tem mola
que nos rouba e viola
e não se pode controlar.

verdade,
o amor é uma mentira
que nos rouba a intimidade.
mas o que é a verdade?
partir,
o amor é partir,
o amor é deixar partir.
chegar, o amor é chegar
e deixar pousar,
uma borboleta
que nos saiba acalmar
que nos queira sugar
desmontar
para nos poder devorar.
partir. deixar.
vazio.