senti os teus ossos dispararem as
tuas esperanças vazias. cada uma recheada dos temores sobre a vossa morte. eu
conseguiria amar o teu fantasma e viver sem confiança nos restos de espaço do teu
peito, mas continuaria a viver sem ti. fazer círculos de veias mortas, sempre
foi o nosso maior mal. ai a rotina é tão medíocre. queima-la era o acerto certo
na ponta errada, mas um circulo não tem pontas, por muito que o fogo seja sinal
de vida. mesmo que víssemos uma ponta que ainda pudesse arder, ela não
existiria realmente. lembras-me de respirar com vida. afinal respirar é viver,
mas como um defunto que nunca morreu. cada suspiro é um trago boca-a-boca em
que não me vês, mas recordas. a bela amnésia que tanto gostas, não é um pedaço
de nenhum amor, mas sim o único pedaço que resta do teu amor. a pior lembrança é que está tudo tão
escrito como a dor. é já uma lenda em que homens se reuniram para formar
coros e protagonizar a sinfonia do aDeus, menos um que já não te quer, querendo. todos a seu lado, só não os viste,
porque afinal ver é viver, mas nem todos enxergam defuntos. é tudo tão eterno que por vezes o ceu é inferno, mas desses faz-se suor e das lágrimas proezas. não sou rei,
nem príncipe, mas choro como um homem grande. lágrimas de sal quente nesse mar, o suficiente
para queimar a pele onde tal leito passou e onde tal coração morreu. onde tal morte vive.
20130724
20130718
amor, nunca bebemos vinho
escurece dia para que o corvo
pareça feliz. apaga farol que existem sorrisos antigos a chorar. não os quero
lembrar. as memórias são terríveis, não por lembrarem almas passadas, mas
porque sabem a saudade. "ai vida". amor, nunca bebemos vinho. talvez
devêssemos falar sobre isso. e beber do que não bebemos. acho que tudo correria
ao contrário porque o ódio também se chama de amor. e acho que tudo correria ao
contrário porque nunca falámos sobre verdades.
(…)
as pessoas amam-se em silêncio demasiadamente. as pessoas amam-se demasiadamente para lá da morte. tempo é o silêncio do amor. é
quente quando dois corpos partilham a mesma alma e gelado quando duas almas se
perdem de qualquer corpo. e divagam. e sofrem. e morrem. o tempo só não resolve
o que o orgulho não quer. e feitios. e era isso que eu admirava em ti, nunca
pensei que se virasse contra mim.
(…)
devias ter percebido os beijos de
saudade nas letras de cada mensagem. devias ter sentido saudade, e se a
sentiste devias ter desejado que terminasse. ou que continuasse apenas quando
não estivesse por perto. precisava perceber quanto tempo foi real depois da morte.
desculpa se não entendi. desculpa se morri antes de morrermos. só te culpo por
sermos demasiado iguais, por seres demasiado tu sem mim. só te culpo por não te esquecer. certamente que esse, foi o único feitiço. beijo.
20130715
olá de despedida
olá velho. tens olheiras bonitas
e sorriso chorado. conheço-te? és-me familiar nos detalhes da pele queimada. conheces-me?
olhas-me com olhar de quem me sentiu! olá viúvo. tens uma aura que te ama a eternidade
e um capuz escuro que aconchega a cabeça. o amor nunca parte, o que parte é o
sentido de existir. olá arquitecto, das palavras de silêncio, das letras meias
roucas. és parecido com um dos meus anjos. és jovem o suficiente para me
conheceres...talvez demasiado bem, nem eu quereria tanto. olá amor, tenho fingido
que me detesto, na verdade gosto-me tanto que me mato. não me conheces, por
isso sempre me enganaste. por isso partes como o tempo que não volta, todos os
dias mais história. olá corvo, quando te tornaste tão belo? ainda és mensageiro
da noite, por isso manténs a madrugada acordada? perdi cartas infinitas à lua,
com nomes de princesas. obrigado por as teres encontrado aqui. espera corvo, és
meu agora. admiro-te o corpo negro de bem e os olhos com que observas as almas.
olá criança, tens memórias travadas por bloqueios maléficos. a amnésia pode ser
bela. o cancro é feio. trocou-te demasiadas lágrimas e o sufoco sempre foi a
tua maior depressão. mas aprendeste a escrever. olá feto que já corres. não te
desejo mal, como a ninguém, mas sei tanto da tua vida que não te arrependerias
de ser trocado na semente. a morte à nascença é mais bela. a morte à nascença
não seria tão dura quanto a vida. um anjo que não sofreria a verdade. olá kowo,
arriscas a escrever a tua morte só por conheceres um passado constante de
misérias? és um nada de Deus, mas sê um pedaço de terra e planta a tua fé.
alberga os teus crentes e dá-lhes amor. como o judeu. como o próprio amor que tanto afastas.
20130712
mãe, sou órfão
esferas perfeitas moribundas em
espaços de barrigas de cavalheiros medievais. nobrezas conquistadas por um
qualquer estandarte que decapita louvores. e essa mãe, resignada a míseros lençóis
lavrados da terra vermelha, onde crianças procuravam o destino da tal linha da
palma da mão. filhos de uma qualquer mãe analfabeta, talvez loba, mas que amava
cada órfão sem os saber escrever. oh mas tanto se lê dos olhos. não fosse tonta
escrava. oh tanto se esconde no olhar. escolhe uma lógica para a vida e decora-a com
um sonho. um dos feios, bruxa, para que a verdade acordada não te deixe
desiludir os encantos adormecidos. o céu é preto, lembrei-me - não tem
sabedoria, eu sei – mas o céu é preto mãe, e eu sou órfão. ai bruxa, eu sonhei
acordar-te sobre aqueles lençóis tingidos a sangue, mas a vida esqueceu-me, pobrezinho. e
eu não sei mentir às escuras, e o céu é preto, mãe. e eu sou órfão. tenho medo. coitadinho.
20130710
jardim de ossos. amores.
um jardim de ossos, preso por
cordões de peles como tendões em carne apodrecida por uma peste qualquer. ah e
quantos lhe chamam amor. corvos pousam longas escrituras e vasculham a morte
nas réstias humanas deste cemitério esquecido. nem almas. e todas elas tinham
um corpo antes de morrer. e todos eles amavam outros corpos. amor era a
fraqueza dos homens no complemento da sua maior força. ah e quantos lhe
chamavam vida. e mantos de seda faziam de vós princesa. ah, mas só quem vos
amasse faria de vós mulher. os corvos observam e picam-vos letras no peito e
escondem os vossos maiores segredos. e escondem o nome das almas que vos
rodeiam com amor. e dos corpos que vos desejam sem amar. e eles teriam sido
reis na vossa vida. mas culpa de quem escolhe amar um corpo de uma alma sem
honra. já ninguém ama corpos, e se ama é porque na verdade não sabe amar. ah e
castelos de água são desfeitos em ondas de areia. ou o contrário que tampouco
importa. ah e muralhas de laços são quebradas por mentiras maciças. ou o contrário
que faz toda a diferença. fugimos da morte com tanta dedicação, sem percebermos
que a vida é que faz o aDeus valer a pena. fugimos uns dos outros com tanta
dedicação, sem percebermos que a liberdade do amor não depende da fuga.