somos paralelos. cruzamos o
tempo. ficamos intrínsecos aos movimentos cósmicos porque é o ar que nos
suporta. inspiramos. expiramos. respiramos o que há para doer. somos películas
finas de uma qualquer camada divina. restos do sagrado. aniquilados, mas
dizem-nos livres. talvez um dia pagãos.
talvez um dia. não-normativos. somos tantos. somos tangentes ao plano da agonia
que quase nos toca. somos o suficiente para sermos vistos. validados. sermos
lei. constituídos como parte de um pedaço de terra. de estado. social. podes vir amanhã. se quiseres vir
amanhã e tocar-me. vai doer. mas somos paralelos. ensinaram-nos que linhas
assim se cruzam no infinito. talvez se desviem da morte para serem felizes.
juntas. num final bonito. num final que não por enquanto. não agora. não, se
temos caminhos diferentes. e almas bonitas. e corpos quentes. e línguas
molhadas. e coxas grossas. e vales nas costas. e o inferno por baixo dos pés. e
riscos. riscos e riscos. na pele. cicatrizes tapadas por roupa que não nos
aquece o suficiente para nos sufocar e calar tudo o que dói. dói tanto.
desculpa não ser o que sonhaste. desculpa, não ser o que sonhei. se nunca
sonhei ser nada. se me plantaram o sonho e deixaram que rebentasse sem poda.
somos paralelos mas andamos em círculos. numa órbita quadrada porque temos de
caber numa caixa de ferro. e eu nunca saí fora da caixa. eu nunca morri por
ninguém mas morreria por ti. eu nunca soube ser ateu. eu nunca soube sentir
sozinho. eu nunca soube rasgar as amarras e viver por mim. hoje eu queria ser
frio. hoje eu queria não sentir. hoje eu queria ser a besta que os teus olhos vêem
no escuro. nas caretas. no sexo bruto. no fervilhar dos dedos que querem bater
nas paredes. no monstro que se quer mutilar. na criança que quer morrer. no
homem que quer chorar. no filho que não existe. no neto que o avô morreu. somos
paralelos na rota. e somos esquisitos na forma. e tu és rosa na cor. e eu sou
negro em mim. e culpo-te por seres assim se sou eu que não sabe o que ser.
amor, não me importo de morrer. porque é que estou contigo? porque quando estou
contigo me sinto feliz. amor, não sei o que fiz. amor, acho que rasguei a pele
e me feri. tu não estavas e eu também não morri. hoje. o que importa é quando
estamos. quando somos, sim sou feliz. mas, somos paralelos. e o amor? e o amor
é um caminho difícil. e o amor é um caminho feliz. talvez um dia. num fim.
pagãos. não-normativos. cruzemos o tempo. tracemos os laços e. casemos. nus.
no. infinito. amigos. filhos. cobertos. por. um telhado de vidros. para vermos
o céu e sabermos. que ainda assim, somos. infinitos. unicórnios. bonitos. e que
as cores que não vejo sejam aquelas que sinto. em ti. ó. em ti. em ti. ó. em
ti. amor.
20161220
20161219
o que queres para o natal?
estamos fartos de sítios vazios.
lugares que nos vão deixar um dia. sabemos que a vida é o passo antes da morte,
e talvez por isso nunca saibamos qual o passo certo a seguir. gostava que os
unicórnios se beijassem. na boca. gostava que o jardim fosse cor-de-rosa. e as
casas. e as luzes. e as árvores. e as trevas. nunca soube responder o que
queria no natal. talvez devesse ficar contente pelo facto de ter alguém que me
quisesse dar uma coisa no natal. mas se aquilo que mais queres é inalcançável
aos comuns puritanos, seria lógico perder a sanidade com artifícios materiais
que me distraíssem do foco? se cortar os pulsos faz sangue, porque é que usamos
isso para cortar a alma e ver se ela ainda sente? se cortar os pulsos
funcionasse como cura então terminariam todos os problemas com um saco cheio de
cicatrizes. nunca soube ler poemas. nem textos. daquele jeito bonito. nunca
soube ser eu. aprendo a ser com os outros à medida que nasço. nunca entendi o
que faço aqui. cada vez menos. se aquilo que planeei não é aquilo que tenho,
então risco os pulsos e escrevo de novo. gostava que os unicórnios se
beijassem. gostava de fazer amor com poemas e cortar as asas aos anjos. um dia
o meu pai matou-me num pedaço de palavras soltas. para ele foi só comer sopa,
para mim foi rasgar os pulsos. um dia a mãe cansou-se de ser forte e eu
cansei-me de ser tudo. às vezes acho que percebo a mãe. às vezes acho que vou
ser como o pai. uma noite vou ter um bebé nos braços e se não o partir em
pedaços, vou dizer-lhe palavras bonitas. amor, não quero que ele rasgue os
braços. amor, eu estou feito em pedaços e não sei como encher os sítios vazios.
amor tenho frio. o próximo passo é cego, então. fico contigo?
kowo, o que
queres para o natal? podem ser canetas.
kowo, o que queres para o natal? quero
uma caneca.
kowo, o que queres para o natal? PORRA, podem ser poemas.
avô, só quero ler-te poemas.
20161209
das palavras que cortam
fomos engolidos pela peste e chamamos-lhe amor. acordamos nos
braços de alguém que não nos quer e pedimos licença para parar a dor que nos
atinge. sufoca. esmaga. se são as palavras que nos
cortam, o que são os olhos que nos despem quando o sexo não presta?
que fedor. sinto a alma partida em pedaços de merda de um animal
doente. morto. apetece-me bater. em mim mesmo. com um bastão
calejado que reúna a força de três deuses e a cobardia de um poeta. quero
partir e esquecer que fui alguém com um significado belo. quero chegar sem
ser ninguém para que a expectativa seja a totalidade de um vazio de
infinidades. tudo. nada. nunca ser um meio termo. preto.
branco. nunca cinzento. entre o espaço dos ossos ao coração,
cabem quantos quilos de dor? é que a noite aperta-me o vício de ser
decadente. se tudo o que é bonito me traz tristeza, como posso
olhar as coisas feias sem ver o final intimo da vida? o escuro tem muitos
nomes, silêncio. o escuro tem muitos nomes, ansiedade.
o escuro tem muitos nomes, foda-se, pânico. o escuro tem
muitos nomes, ciúmes. quero ser uma puta e foder com o coração, enquanto
finjo que gosto que finjam que me amam o corpo. quero ser a morte e sê-la
de verdade. desligar. terminar. expirar. desaparecer. indagar
a memória. preencher uma caixa de memórias com papel de fotografia. quero ser
passado e partir sem ressentimento de sentir que és feliz. sabes que não confio
mais em mim para garantir que sou um homem são? sou um homem besta. não
sou um homem. não sou uma besta, mas faço sentir-me assim e acredito que
me perdi algures num tempo melhor que este. o que resta de mim não ficou a
salvo. não é são. não quero parar para descobrir. se parar o tempo agora
vou ruir as sobras de mim mesmo. não posso ouvir que me digam que fiquei
novamente partido. não quero saber que parti de novo. depois de tanto
tempo. contigo. partido. no chão. não posso admitir que tu,
enquanto ser me partiu desde o miolo e me roubou. sou um animal
ferido. estou no chão e não me vejo. não quero parar para ver
como estou. o que resta. o que sobrou . se essa puta partir sem
mim, leva-me consigo sem saber. e eu só quero morrer. preciso
de morrer. amor, deixem-me morrer. eu preciso de ir. e.
eventualmente. voltar. a ti. e se estas tuas palavras cortam, é
então, isto, aquilo que mata.