Almas

20161220

infinitos


somos paralelos. cruzamos o tempo. ficamos intrínsecos aos movimentos cósmicos porque é o ar que nos suporta. inspiramos. expiramos. respiramos o que há para doer. somos películas finas de uma qualquer camada divina. restos do sagrado. aniquilados, mas dizem-nos livres. talvez  um dia pagãos. talvez um dia. não-normativos. somos tantos. somos tangentes ao plano da agonia que quase nos toca. somos o suficiente para sermos vistos. validados. sermos lei. constituídos como parte de um pedaço de terra. de estado.  social. podes vir amanhã. se quiseres vir amanhã e tocar-me. vai doer. mas somos paralelos. ensinaram-nos que linhas assim se cruzam no infinito. talvez se desviem da morte para serem felizes. juntas. num final bonito. num final que não por enquanto. não agora. não, se temos caminhos diferentes. e almas bonitas. e corpos quentes. e línguas molhadas. e coxas grossas. e vales nas costas. e o inferno por baixo dos pés. e riscos. riscos e riscos. na pele. cicatrizes tapadas por roupa que não nos aquece o suficiente para nos sufocar e calar tudo o que dói. dói tanto. desculpa não ser o que sonhaste. desculpa, não ser o que sonhei. se nunca sonhei ser nada. se me plantaram o sonho e deixaram que rebentasse sem poda. somos paralelos mas andamos em círculos. numa órbita quadrada porque temos de caber numa caixa de ferro. e eu nunca saí fora da caixa. eu nunca morri por ninguém mas morreria por ti. eu nunca soube ser ateu. eu nunca soube sentir sozinho. eu nunca soube rasgar as amarras e viver por mim. hoje eu queria ser frio. hoje eu queria não sentir. hoje eu queria ser a besta que os teus olhos vêem no escuro. nas caretas. no sexo bruto. no fervilhar dos dedos que querem bater nas paredes. no monstro que se quer mutilar. na criança que quer morrer. no homem que quer chorar. no filho que não existe. no neto que o avô morreu. somos paralelos na rota. e somos esquisitos na forma. e tu és rosa na cor. e eu sou negro em mim. e culpo-te por seres assim se sou eu que não sabe o que ser. amor, não me importo de morrer. porque é que estou contigo? porque quando estou contigo me sinto feliz. amor, não sei o que fiz. amor, acho que rasguei a pele e me feri. tu não estavas e eu também não morri. hoje. o que importa é quando estamos. quando somos, sim sou feliz. mas, somos paralelos. e o amor? e o amor é um caminho difícil. e o amor é um caminho feliz. talvez um dia. num fim. pagãos. não-normativos. cruzemos o tempo. tracemos os laços e. casemos. nus. no. infinito. amigos. filhos. cobertos. por. um telhado de vidros. para vermos o céu e sabermos. que ainda assim, somos. infinitos. unicórnios. bonitos. e que as cores que não vejo sejam aquelas que sinto. em ti. ó. em ti. em ti. ó. em ti. amor.

20161219

o que queres para o natal?

estamos fartos de sítios vazios. lugares que nos vão deixar um dia. sabemos que a vida é o passo antes da morte, e talvez por isso nunca saibamos qual o passo certo a seguir. gostava que os unicórnios se beijassem. na boca. gostava que o jardim fosse cor-de-rosa. e as casas. e as luzes. e as árvores. e as trevas. nunca soube responder o que queria no natal. talvez devesse ficar contente pelo facto de ter alguém que me quisesse dar uma coisa no natal. mas se aquilo que mais queres é inalcançável aos comuns puritanos, seria lógico perder a sanidade com artifícios materiais que me distraíssem do foco? se cortar os pulsos faz sangue, porque é que usamos isso para cortar a alma e ver se ela ainda sente? se cortar os pulsos funcionasse como cura então terminariam todos os problemas com um saco cheio de cicatrizes. nunca soube ler poemas. nem textos. daquele jeito bonito. nunca soube ser eu. aprendo a ser com os outros à medida que nasço. nunca entendi o que faço aqui. cada vez menos. se aquilo que planeei não é aquilo que tenho, então risco os pulsos e escrevo de novo. gostava que os unicórnios se beijassem. gostava de fazer amor com poemas e cortar as asas aos anjos. um dia o meu pai matou-me num pedaço de palavras soltas. para ele foi só comer sopa, para mim foi rasgar os pulsos. um dia a mãe cansou-se de ser forte e eu cansei-me de ser tudo. às vezes acho que percebo a mãe. às vezes acho que vou ser como o pai. uma noite vou ter um bebé nos braços e se não o partir em pedaços, vou dizer-lhe palavras bonitas. amor, não quero que ele rasgue os braços. amor, eu estou feito em pedaços e não sei como encher os sítios vazios. amor tenho frio. o próximo passo é cego, então. fico contigo?
 
kowo, o que queres para o natal? podem ser canetas.
kowo, o que queres para o natal? quero uma caneca.
kowo, o que queres para o natal? PORRA, podem ser poemas.
avô, só quero ler-te poemas.

20161209

das palavras que cortam


fomos engolidos pela peste e chamamos-lhe amor.  acordamos nos braços de alguém que não nos quer e pedimos licença para parar a dor que nos atinge.  sufoca.  esmaga.  se são as palavras que nos cortam,  o que são os olhos que nos despem quando o sexo não presta?  que fedor.  sinto a alma partida em pedaços de merda de um animal doente.  morto. apetece-me bater.  em mim mesmo. com um bastão calejado que reúna a força de três deuses e a cobardia de um poeta. quero partir e esquecer que fui alguém com um significado belo.  quero chegar sem ser ninguém para que a expectativa seja a totalidade de um vazio de infinidades. tudo.  nada.  nunca ser um meio termo. preto.  branco.  nunca cinzento. entre  o espaço dos ossos ao coração,  cabem quantos quilos de dor?  é que a noite aperta-me o vício de ser decadente.  se tudo o que é bonito me traz tristeza,  como posso olhar as coisas feias sem ver o final intimo da vida?  o escuro tem muitos nomes,  silêncio.  o escuro tem muitos nomes,  ansiedade.  o escuro tem muitos nomes,  foda-se,  pânico.  o escuro tem muitos nomes, ciúmes. quero ser uma puta e foder com o coração,  enquanto finjo que gosto que finjam que me amam o corpo.  quero ser a morte e sê-la de verdade.  desligar.  terminar.  expirar. desaparecer. indagar a memória. preencher uma caixa de memórias com papel de fotografia. quero ser passado e partir sem ressentimento de sentir que és feliz. sabes que não confio mais em mim para garantir que sou um homem são? sou um homem besta.  não sou um homem.  não sou uma besta, mas faço sentir-me assim e acredito que me perdi algures num tempo melhor que este. o que resta de mim não ficou a salvo. não é são.  não quero parar para descobrir. se parar o tempo agora vou ruir as sobras de mim mesmo.  não posso ouvir que me digam que fiquei novamente partido. não quero saber que parti de novo.  depois de tanto tempo.  contigo.  partido. no chão. não posso admitir que tu, enquanto ser me partiu desde o miolo e me roubou. sou um animal ferido.   estou no chão e não me vejo.  não quero parar para ver como estou.  o que resta. o que sobrou .  se essa puta partir sem mim,  leva-me consigo sem saber.  e eu só quero morrer.  preciso de morrer.  amor,  deixem-me morrer. eu preciso de ir. e. eventualmente.  voltar. a ti. e se estas tuas palavras cortam, é então,  isto, aquilo que mata.