Almas

20140731

memórias


suspira de mansinho. um ultimo sopro em que o coração reluz. é severa a expressão desenhada pela doença. lava-se o corpo uma última vez com água benta. fecham-se os olhos, mas abre-se a luz numa porta para nós desconhecida. dão-se lágrimas ao desespero, é cruel ser-se vivo quando tudo em nós morreu. vai-te, comece a despedida e sofra assim minha alma. entregue-se à terra teu corpo em casca de madeira, fiado a uma profecia cheia de ateísmos na própria crença. ser-se por si só é um fracasso. deixa-se a roupa, mas leva-se o cheiro, esvanece-se carne e osso em pó e resta nada. um fiasco na própria criação divina, ou será esta a soberba exponencia da arte? alimenta-se a dor, escava-se a paz em lágrimas que só encontram chão. e aguarda-se. que o tempo vai e não volta, que o presente para, que a saudade é tamanha e o reencontro breve. então aDeus, o que é de Deus se nunca o ser foi nosso. alma e vida, que o que começa nunca acaba nas memórias da mente.

20140728

encosto



tenho um encosto no ombro. sacudisse eu a alma e ele fosse de mansinho atrás dela. tenho um encosto junto da alma, sem nome, com um corpo perdido para Deus. pesam-me as costas e secam-me as vistas. já me alteras-te o espírito, mas não sou a luz que procuras. não, já não guio ninguém, despistei a morte uma vez e desde então só desguio o mau olhado. "tem cuidado", dizem-me elas. bem sei do que falam, não o sentisse na pele. temo a vida e o inferno destas almas que me acompanham. tenho um encosto que pousa e suga de mansinho. estou cansado, o sal já não resolve e nem a morte é cura para a desgraça. tenho um encosto no ombro, e uma vida sem cura num corpo sem beira.

20140724

as vozes



escuta as vozes, amor. são belas as vozes, não são amor?

as vozes são belas, amor.

as vozes são telas.

oh as vozes são pretas, amor.

são negras em luto, amor.

as vozes são a morte, tenho medo, amor.

as vozes são pó.

as vozes desaparecem como fantasmas, amor.

ouve-las, amor? consegues escuta-las? na minha cabeça, amor? fazem ecos na madrugada e eu não durmo, amor.
elas mexem-se, amor. fazem sombras e eu ouço-as, mas escondo-me. elas mexem-se e dançam em torno de mim, e agarram-me, e estendem-me a mão até ao abismo.
são belas as vozes, amor. então eu ando com elas. porque são elas a morte, amor? aquela que há em mim?

as vozes são morte, amor.

as vozes são pó.

as vozes também desaparecem, amor. 

por isso eu canto sem elas. e sabes porquê, amor?
para que se lembrem de vir, e para me lembrar que sempre existem, amor.

as vozes são minhas, amor. 
ensurdecem-me a noite e abafo-as de dia enquanto canto. 
gosto das vozes, amor.