se a alma murchar regamos-lhe o
pranto. se o corpo cair enterramo-lo só. se tudo se for e tudo se vai um dia.
se tudo ficar "e tudo fica se nenhum de nós ceder". se a alma murchar
regamos-lhe o pranto. se as almas murcharem atamo-las ao vento para que partam juntas.
acima de todas as coisas abaixo do céu e o que restar acima disso para
contemplar. uma alma só. se o tempo não chegar mas a dor for grande. e se o
coração partir com os fantasmas e
decidirem caminhar juntos. se precisar de me esconder. se precisar de me
esconder de ti, esconder-me-ei dentro de ti. se não tiver onde me esconder
então dispo-me e morrerei na tua frente. sem vergonha de ter morrido antes. ou
com toda a vergonha de me ter partido. de me ser tão frágil. quantas vezes um
cancro há-de vir para me quebrar? não esperar o amor. decidir terminá-lo depois
da morte. talvez seja esse o teu segredo, avó. deixar morrer, aceitar a morte e
não esperar nenhuma outra. um grande amor e quantos anos resistirá a solidão do
corpo? e quantas vezes ainda lhe beijas a alma? quantas vezes te despediste
dele depois de morreres tu também? o que sobra? o que resta? é sempre tão mais
que nada. "e tudo fica se nenhum de nós ceder". mas a natureza não
cede. e por mais que se dobre um dia volta com a força de «Deus». toda
poderosa, arruinadora de laços, arremessadora de estilhaços crus. nada mais
importa. seja tarde, melhor que nunca e destruir toda a mentira que criei. sem
natureza. a tua, desconhecida natureza. mas, segue-a agora e preserva o que
melhor de ti terás. e não te percas. deixa-me falhar e eu deixo-te ir. voar.
leva-me contigo. termina-me. quando terminares não quererei ser continuado. mas
voa, já devias ter voado. talvez antes de eu chegar. talvez para me renascer.
das cinzas. fénix. quando me chamas nomes bonitos. Deusa. Vénus de Seda. Alma
de Júpiter. Papel de Renda. Meu Pedaço. teu, kowo. até minha alma murchar. rega-me
o pranto.
20160606
20160604
e esses gritos
e esses gritos que me acolheram
ainda me habitam. visitam e visitam em horas vagas. traumático talvez. gritas o
meu nome, imploras que a retire e enxugue. desculpa reviver as memórias. talvez
haja uma parede fria para lá da minha visibilidade. às vezes tento proteger-me
do suicídio. confesso que já não o sinto tão longe. pelo menos já sei a que
sabe o sangue dos braços. desculpa as memórias, mas ninguém me poupa do cancro
quando passa na tv. ser-se bom só interessa para um pequeno grão de gente numa
selva de cimento. ser-se bom não interessa. não há uma recompensa, nem há
castigo. ninguém se salva. que poderei eu ser realmente? mentiras. uma mentira.
o que serei se não uma mentira, se desde a raiz fui enganado? e esses gritos
que me acolhem e me habitam. visitam e sinto-me louco. ouço-os e não existem.
mas ela grita desesperadamente. não por mim, por ela. por ela que ali está. mas sou eu que ouço, se ela já não pode ouvir nada. ela grita. grita e eu tento não ouvir
para fingir que não adivinhei já o acontecido. de que serve existir sempre? de
que serve estar lá, se tudo se vai? ainda saberei o caminho da tua casa? e se
morares noutro canto? onde morarei eu quando não estiveres?
misturo assuntos.
e esses gritos que me acolheram
existiram realmente. visitam-me realmente a qualquer hora em que me concentro
no nada. ouço-te chorar como um fantasma que me implora por auxílio. e esses
gritos são lágrimas de morte. visitam-me em vozes ruins. em tons sufocantes, asilados
no profundo de mim. e o que faço eu com eles? mato-me ou cuido de ti? estou
cansado de ser só dos outros. perdi-me dentro de ti. esqueci-me de mim. e esses
gritos que me acolheram também são teus. tudo é teu dentro de mim. e esses
gritos que me habitam. pelo menos já sei como choras a morte. e a que sabe o
sangue dos braços. e como se abre uma vala para fazer um enterro. confesso que talvez a morte ande a pairar. desculpa as
memórias, mas caso a morte venha, não as quero guardar. oh inocentes. fossemos
todos inocentes como os animais que morrem. desculpa as memórias.
20160602
quantas vezes já morri?
apetece-me morrer de hoje em diante. e cavar a terra e
enterrar os ossos. apetece-me esvaziar profundamente cada veia. e drenar pelos
dedos, esvair-me ao longo dos braços até aos pulsos. apetece-me entregar hoje e
esquecer-me. e esquecer-me do amor e do sentir. apetece-me subir ao resto de
tudo e gritar - "não sobrou
nada". eu sei. que um dia me vais deixar. eventualmente. que vais seguir
diante de mim e crescer. que o medo das asas quebrarem não será suficiente para
te impedir de voar. eu sei. que um dia em diante partirás. junto de um pássaro
maior. eventualmente. apetece-me cerrar os olhos e esquecer tudo o que em demasia
me carrega. os demónios como devoradores da alma que se ergue entre os ceús. os
fantasmas como senhorios do espectro carnal que nos sustenta. as fadas negras
que meticulosamente nos enchem de ilusões frias e alimentos estragados. cheira
a podre, "não sobrou nada", mas tudo o resto cheira a podre. encontras
uma pestana e brincas ao destino. perdi. encontras outra. e ganhei. e o que são
as tentativas de adivinhar o futuro? tentar enganar o destino com truques de
crianças? se as nossas almas são assim tão velhas, qual das duas terá aprendido
a viver melhor sem a outra? quem somos depois de nós? salomé. d'ouro. anjos e
espelhos. margaridas. o meu avô ensinou-me coisas sem dizer, o cancro abriu-me
os olhos. talvez me tenha ensinado tudo. ou quase tudo. penduro um sorriso na
parede do quarto. quantas vezes já fui realmente feliz? a avó deu-me de
comer...e isso quer dizer tantas coisas. o sol tem tantas cores e o tempo nunca
se vê a passar. passa tudo tão...que já passou. passarás assim por mim? sem me
dar conta de que irás? que aquilo que um dia é, um dia deixa de ser. gostava
que um dia te apaixonasses por mim. talvez de novo. que desta vez já passou. podia
ser um gigante, mas escolhi ficar pequenino para ti. podias voar longe, mas
ainda estás presa por mim. tenho tanta incerteza de tudo, que crio certezas de
nada. certezas de medo. de angústia. de frio. de desespero. o meu amor é uma
dádiva e uma semente que cresce sem fim. apetece-me morrer. de hoje em diante.
e arrancar-me da terra. parar de beber e pedir-te. cura-me. trata-me as
pétalas. segura-me. sorri. como é que uma flor se suicida? arranca-se da terra
para partir. seca-se num livro e sorri. torna-se uma memória. apetece-me
morrer. quantas vezes já morri?