Almas

20131030

não serei freguês


lanço canas de pesca ao desamparo. marés de venenos e petróleos desguiados ao engano. nem peixes, nem sermões, e eu era tão bom em ouvi-los. 
de que adianta ter fome sem ter pão? o fim é um culminar de aparições que te mudam o apetite das visões enxergadas no passado. 
pesquei dois sois, mas matei uma lua. esta praia está deserta e esta chuva de pronomes lavou toda a gente em mágoa. calco sementes do demónio, as trevas cozinham-me ervas daninhas e enquanto como, não mato mas engordo, às garfadas de mentiras vegetarianas. tão cru que nem me sinto. asas de vento em ares de tempestade. águas dopadas em perfumes de defuntos. ceifeiros em bagagens de chegada para que os vivos não aterrem na praça deste mercado. só minha alma marralha:

como fui sem nunca ter chegado?
como parti de onde nunca havia pousado?

oh morte não serei teu freguês. tão cedo é o luar quando trazes fios de pesca sem sustento.
oh amor, também não serei freguês. não como, só bebo choros de inferno em mares de chamas, tempestade. e fosse essa a minha fome.

20131010

azáfama dos corvos


grupo de sombras gemendo ao uivo das dores. a noite é bonita se te confundes com poros de magia escura. as penas caem e as lágrimas voam na sonolência que despem de negro, enquanto viajam por nossas cabeças. mistérios sagrados se revelam nos rodopios do vento. se os soubesses ouvir, saberias como reza-los. a azáfama dos corvos e eu tão só. cabeça vazia e alma cheia de whisky. se alguém questionar como é que os insectos morrem, eu respondo - como os homens sozinhos - nada em vida é tão célebre quanto a mordida da saudade acompanhada - como a noite alheia - se alguém ousasse responder e passar. iluminação obscura de corpos mortos, a azáfama dos corvos e eu tão só. cabeças baixas têm estes passageiros da noite. bico refinado às conquistas do ouro, letras de calibre ecléctico em cartas de medo. se alguém questionar como é que os homens morrem, eu respondo - com a alma distante na azáfama dos corvos. se só param para pousar sobre os ombros do destino como ceifeiros da noite, se esquecem dos vivos, para azafamar os mortos. e eu tão só.