Almas

20130523

numquam


nunca contei dias porque eram as noites que me matavam. e a vida passou tão rápido, que a luz perdeu-se para ser contada por palavras em cantos escuros.

nunca soube esperar, mas foi a espera que o tempo mudou. secou a morte, tão suja quanto opaca para a verdade e um renascer de nada nos berros de uma dúzia de garrafas com sabores de lúpulo e águas embriagadas.

nunca soube morrer e saberá a vida reconhecer-me a proeza de existir em modo neutro, na respiração meia breve que o passado prende, ou no suspiro acelerado que o futuro me pede, não sentindo.

nunca soube sentir, para além de amar sem ódio inimigo, porque até esses eu cuidaria se tivesse a morte de optar entre mim ou eles. e nem o negro que me acompanhou, nem o capuz de desespero nas baladas ao luar que fizeram chorar as estrelas no inverno me cicatrizaram a pele das memórias desse amar de morte que em mim carrego.

nunca. ora vivo, ora defunto, ora sóbrio de alcoolemia minha, nunca serei de cá, porque tampouco algum dia me deixaram ser de almas que nunca me foram negras quanto os sonhos. esses, nunca os provei vestidos de branco, nem as alucinações me deixaram ver outra cor. ora morto, ora renascido, ora bêbedo de sobriedade minha, nunca serei de lá, porque tampouco algum dia me deixaria ser de almas que nunca foram minhas, mesmo que fossem brancas quanto a verdade de existirmos.

20130511

abstracto cuatro


quantas vezes vais olhar pra trás
estás preso a uma história que voou
quanto tempo vais ser tu capaz
quando ao longe o tempo te olhou;
quantas vezes vais ser tu a história
e quantos mundos irás tu perder
se a vida em ti não quer entrar
vais perder o tempo que te deixou ser;
quantas vezes vais ser tu capaz
de esquecer o mundo que voou
quantas vezes vais ser tu rapaz
de olhar o que não ficou;

não lembra de quem falou
não lembra de quem te quis
a sorte só vem pra quem escolhe
o seu maior tesouro;

quantas vezes vais ser tu capaz
de ser rapaz escolhido pelo amor
quantas vezes vais ser tu capaz
quantas vezes vais ser tu maior

traço que ficou,
história que mudou
apenas para te ver sorrir
quantas vezes serás tu capaz, rapaz
de ver o que ainda há pra vir
amar, sem ti, não é diferente
do tempo que soou
se a diferença está no tempo,
velho negro que passou;
não voltes às antigas estão à solta
a ver o tempo que em ti amou

quantas vezes vais ser tu capaz, rapaz
de ver o que o amor quiser
quantas vezes vais ser tu capaz, incapaz
de amar apenas outra mulher
quantas vezes vais ser tu rapaz, capaz
de vencer o saber amar de ninguém
quantas vezes vais ser tu capaz
de amar o que te faz morrer.

20130503

és?


já contemplaste quão bonita és? és feita de nódoas negras e de cicatrizes invulgares das conquistas que os comuns dos mortais nunca chegam a alcançar. saberás quão poderosa é a tua mente? pergunto-me se serás feita de pedra nos ossos que alimentam a tua estrutura ou de vazio que te corre nas veias ao invés do sangue que te escorre pelo olhar? afogas-te em lágrimas ou os teus banhos são secos de sal e morte, onde os cremes que te nutrem a pele apenas rasgam ainda mais o que dela se despedaça? alimentas vida nos desejos dos teus sonhos, ou morres em cada passo que tentas dar, sem descobrir que a vida é apenas inútil? é de ti ser cruel, conquistando encobertos horizontes, ou é apenas descomplicada a forma como admiras a paisagem que dança contigo à noite antes de deitares? és a astúcia dos desejos ou a rebeldia dos compromissos? ou um misto de géneros que te deixa encarar a terra como um pedaço de sossego e as pessoas como pedaços desassossegados, no qual não te consegues definir, pois amas o natural mas também desejas o pudico? és de palavras bem ditas ou de sentimentos não ditos, irreais até, que existem para além do que é o ser existente? és a mágoa de perder alguém ou preferirás ser o pior dissabor de um sentimento não comum? és como eu ou és só tu? diferentes em todos os sentidos, sem um toque de homogeneidades subtis? és um pedaço de bronze embutido numa alma de ouro, ou és o chumbo que pesa nos corvos tatuados no teu corpo? és verniz estalado em mobílias antigas que gritam o teu nome, ou és tinta pulsante, rica de odores aborrecidos que se sentem na tua pele? és doença, ou és a cura? é o teu respirar maior que a vontade de morrer, ou são os teus gemidos menores que um coração acabado de morrer? és o que alimentas em mim, ou o que desejas alimentar de ti, como se eu te alimentasse também sem que nada nos fizesse encontrar no mesmo corpo? és tu de mim ou de cada um dos que te tentam, no inferno que nos há-de tornar em despedida, ou na chuva que nos fará chorar perante o frio de tantas almas distantes? és tu tão distinta disto, ou é a tua mente tão imperceptivelmente opaca, que não me deixa ver para lá do sol que te serve de manto?