Almas

20180724

homem. não-mulher.

não me chega o lesbianismo
pois não é lésbico o corpo que porto.
não me chega adorar mulheres
se carrego comigo a semelhança com todos os homens.
eu queria ser mais puro
e que fosse infinito o sexo do universo.
que derretessem as estrelas congeladas na boca dos anjos com o calor do hálito húmido para me vir.
eu queria ser mais puro
e que fosse infinito o sexo do universo.
que os astros e os mastros e os buracos fossem o acomodar de um novo lar e pudesse entrar em ti. [em paz].
eu queria ser mais puro
e que em ti se aceitasse a minha forma nascida
e se tornasse ilimitada a forma de nos termos lermos e escrevermos.
mas não é lésbica a genitália que transporto
nem o medo que broto do pau que me faz [capaz ou homem].
e não é lésbico um homem
e eu só queria ser mulher para que me amasses mais
e eu só queria ser o sexo que devoras e por quem voltas [madrugada adentro]
madrugadas mais. pernas bambas. prazeres. não iguais.

foda-se.
não me chega aprender a foder com os pêlos e as peles
com os músculos e as sedes ou os suores e os odores que nos calam [virilhas, axilas, conas versus paus]

foda-se.
nunca me chegou tentar. ser mais.
agradar à natureza dos corpos e oferecer-me como um sacrifício.
ó, também eu preciso de ser aceite.
mas não me chega ser lésbico,
se lésbico o meu corpo não mo permite.
ó, também eu preciso de ser aceite.
mas nunca me cheguei a ser perto,
se longe está o meu sexo de ser [lésbico].

que me cortem ou mutilem então
me trans-formem em vida e libido
porque afinal não sou mulher
senão o sexo que me pertence.
e do meio das pernas não gozo do que tu dás
pois não me chega ser lésbico
se afinal não sou mulher.

encara-me com a foice e rasga-me, foda-se.
olha-a. para [chupares].
diferenças.
olha-me. pára. [de me usares].

e do meio das pernas eu não broto o liquido das algas
e não me chega o lesbianismo para derrubares barreiras e baixares as armas.
desejares. [me].
comeres-me a alma e sugares-me.
não sabes sorver [me].
e não me chega ser lésbico
se lésbico num homem é. [o ultraje].
de ser mulher.

encara-me com a foice e rasga-me, foda-se.
a tua boca não me quer-não. a tua boca não me quer.
homem. não-mulher. não.

20180718

trans

sou homem de lã e pele índia sem cor
que das asas que broto como ossos que moldam o ar me sento para voar
e folheando seda e cetim, cascas de pinheiro e ouro viajo
entre ser infiel ou mártir
ou lamentar a vida inútil
porque afinal não morri
ó. fácil é chorar [como o barulho que desliga as luzes do olhar para partir].

sou bicho de pau e corpo sem género ou lei
que vacilo e bambuo entre roupas cruas cheiros imundos e suores intensos
e tocando com a ponta dos dedos viajo entre seda e cetim, cascas de pinheiro
entre homens e mulheres
e sexo em que amor é vida
porque afinal não morri
ó. fácil é usar a boca e lamber [como se a alma gostasse de receber. o que o corpo não tem]

sou mulher alheia. das mulheres que me fizeram sem saber
que as sinto e repito como a estrutura de um corpo que se implanta no mar
e recebendo as ondas, todas as ondas são seda e cetim, cascas de pinheiro
entre sal e m[águas]
ou o frio da solidão quando tudo é
porque afinal não morri
ó. fácil é fugir do vento e vender o corpo [como submissa força a quem abusa de mim]

ó. que neutralidade bélica
que é isto de inventar a guerra para fazer revolução?
como é beijar mulheres entre as pernas e sentir-lhes? [o coração na rata]
ou que brutalidade material é ser por ser só eu?
adorar sexos erectos e usa-los como compensação?
que amor próprio ou individualidade freudiana
quero comer-te mãe. quero matar-te pai
quero a dúvida eterna entre ser e sexo
existir e sexo
mentir e género
foder histérico
porque não posso ser mulher
porque não quero ser só mulher
ou o homem que em mim habita
é um traço hábil da emancipação
eu não sou a criação
se não a ordem de mais um dia
em que o colapso é um cérebro sem nexo
de ser a trans-neutralidade
a trans-precariedade
de um salário de puta e fome.
[hoje à noite eu vendo sexo]
por ar-dor, amor e homem(s).

20180717

torre dos sem prisão

São como socos em sacos de papel que guardam ar.
Como se os braços se esticassem no vento para acertar em algo que não está mais lá.
Fugiu. Distante. In-alcançável.
E eu estrabucho dentro das entranhas e ouso gritar-te serenamente para que me ouças.
Mas nada. Do autocentrismo genético eu li as críticas. Mas não há espelhos para a alma se não o tempo a sós.
Eu fui trocado por um gole fresco de tinturas nórdicas e isso fez de mim o vazio.
No momento em que eu me for eu não volto. Mas o meu luto é demorado e junto dos mortos.
Que saudades não existem para mim. Foda-se o compromisso, eu não existo.
Se não sou tempo quando faço de mim relógio e te mostro as horas. Estou farto de ser cobaia. Preciso de algo.
Amar em sonoro só não chega. Não quero foder. Não quero chorar ao teu lado. Não quero mostrar-te prosa.
Isso já perdeste. Foi a primeira das partes que mandaste embora. E está longe.
Confiança. Estabilidade. Tempo. Gestão.
Carrego-me cheio de merdas por dizer para não provocar uma avalanche, mas se me calo recebo bolas de neve que me acertam como balas à queima roupa e eu morro aos bocados.
Que queres de mim? Aquilo que tu escolhes dar? Desculpas?
Sempre me questionei sobre o que era o destino se fingimos ter uma opção a fazer.
Ir ou não ir. Querer ficar parece uma premissa infundada. Meios tempos. Tempos contados. Tempos cortados. Tempos sozinhos. Essa solidão que me assiste quando te tenho. Se te vou perder como me posso entregar?
Não é justo ser uma opção do momento entregue a palavras de vida inteira.
Não te posso chegar perto? Que é isto? Um campo de concentração para sentimentos oprimidos ou a porra de um gulag a quem quer dar tudo o que conhece às bruxas?
E eu não sou magia.
Se não a fogueira que te mata aos poucos.
Ou o fogo que apagas aos poucos.
Eu não sou.
Que é o pai, é a língua é a vida e os afazeres menos eu.
Eu não. Não sou.
Última opção.
E todas as desculpas para não estar comigo se não um resto de instante ao fim da tarde.
Ao fim do dia.
Nada demasiado longo.
Nada demasiado perto.
Eu sou sozinho.
E as pontas de cigarro são o meu pior serão.
Cansei de esperar de ti.
Eu vou foder com o mar.
E misturar-me com a areia.
Mutilações.

em 16-07-2018, 23:42 - praia do cabedelo.

20180702

Loop

Mas não há nada melhor que a chuva para sentir o céu acima de nós.
Reage caralho. Foge ou morre de vez. Mexe a carcaça ou o cigarro apaga. Corre rio adentro ou morre de vez.
Que puta de ideia é essa de querer arrancar a morte com os dentes e esperar que a vida te mande mensagens?
Se o defeito é estar sozinho porque é que o mundo soa melhor sem mim?
Que se nada doer tudo passará. E mulheres serão felizes sem mim.
Que exigir a presença é injusto mas necessário. Que nunca ter crescido é uma faceta medonha da toxicidade que porto comigo.
Eu queria ser diferente antes de partir. Mas não me garanto e engane-se quem me tem por garantido porque eu não existo se decidir.
Que provoco o mal e me torno a negatividade de alguém que transporta um demónio.
Que morrer é fácil dizem, mas como será sobreviver? Qual é a glória de tentar mais um pouco de loop? O loop. O loop. O loop.
Nada é definitivo. Nem a chuva nem o rio. Nem a noite nem o frio. Nem o vento nem eu. Curvas de tempo.
Temporal. O tempo e quem habita.
Decidir é agir e não esperar.
Talvez devesse correr mas prefiro molhar a cara.
Mas demasiada chuva incomoda e então movo. Insuficiente força. Insuficiente estrutura. Não me decidi hoje.
Se me atirasse à água será que o rio abriria um espaço para não me afogar?
Mas tenho medo do colapso. Ou se alguém me salva num estado já irreversível? Seria destino?
Devia correr de forma assertiva e finita.
Ou agir como alguém-homem. Que talvez letras minúsculas componham mesmo o meu nome. E eu sou o que sobra de mim porque já não me sei montar.
Estou cansado.
Devia morrer mas a puta da chuva deixa-me acordado.
Estás a 2km daqui e só te queria nos braços. Estás a 2km daqui e esses braços não são meus. Se não hoje amanhã.
Que essa casa não existe. Não é para lá que voltas. E eu sou mau. Não sou o que querem de mim. Traidor mas não o suficiente. Não normativo mas não o que baste.
Foda-se não sou ninguém. E digo tudo o que te magoa.
Morro ou fujo de vez? Não vou mas não sei ficar.
O melhor a fazer é pegar no amor e mandares-me embora. Não se carrega a toxicidade do outro por tempo infinito. E mudar é o quê? Curar-me?
Não acredito em mim, não o devias fazer por mim.
Conheço o monstro e o cabrão não se afoga.
Conheço-me feio e a beleza que já viste era só um reflexo teu.
Não sou um espelho mas sei reflectir o que pensam de mim.
Foda-se. Manipular é uma arte dos doentes. Fingir é a cobardia dos homens maus.
Sou um resto de chuva. Ácida. Queimo. Fodo. Com tudo.
Só queria ser amanhã. E o resto do fim do mundo. Que à noite o rio são mil anos.
E nenhum passa devagar.
Que eu devia correr, mas enterrei os pés por ti e fodi-me todo.
Quero morrer mas não sei morrer sem ti.
Foda-se. Não quero ser sem ti.
Nem antes nem depois.
Tentei correr à chuva. Segui estrada fora longe. Olhei para trás e não te vi. Estavas lá eu sei.
Peguei na chuva e voltei. Acendi o cigarro outra vez e cresci. Parecia uma alma envelhecida e mesmo assim não morri.
Foda-se não sei o que faço aqui. Mas acredito no que tens para mim.
Desistir-não-desistir. É como tentar não gostar de ti. Se me mandares embora eu vou. Se me disseres aDeus eu mereço. Se eu morrer não deixes lixo na minha campa. Mas podes cuspir para o chão. Eu mereço o nojo de ser a herança de um cristão. Desamarra-me as pontas. Quero sorrir.
Amor. Quero dormir.
Foda-se. Porque é que preciso de ti?
Não-verdade. Preciso de mim.
E hoje eu não morri.
Hoje eu não morri.
Hoje eu não morri. [loop] até ao fim de mim.