vem descalça. sopra-me ao ouvido
como o tempo. risca-me mistérios de pureza, inundados em lágrimas como da
primeira vez que te amei em segredo. esgota-me o toque dos ossos que estalam
saudade e arrepia-me a pele com toques de poesia das linhas da tua mão. esquece
o passado, amor, só hoje. remoei-me o que nos aconteceu e ama-me como antes. ou
mais como nunca. só o desejava verdade. sobrevive ao aDeus, ele não foi opção
nem desejo. nem nunca será por muito que o esconda. eu faria o céu chover para
que as gotas te levassem a mensagem. eu escolheria a morte para que soubesses a
verdade de tudo. eu tremeria com o mundo para que a tua voz se dirigisse a mim.
e depois disso morreria em paz, para que te visse em vestidos de águas brancas.
para que me despedisse realmente, como nunca pude fazer. para que visse os teus
olhos de relances mágicos e soubesse que um dia me amaste como um anjo que não
sou. morreria se escolhesses e viveria se me escolhesses. perdão, por te amar
de jeitos que só eu entendo, por jeitos que só eu me adaptei, por jeitos que um
tempo nunca esquecerá, quem sabe uma nova vida. quem sabe que jeitos o tempo
remoerá, como o mar que já te levou, mas trouxe tantas vezes, e nunca me deixa
desamar-te em jeito nenhum. desejo e quero. e querer-te não deveria ser mais
opção. mas o tempo remói, e o passado é presente tantas vezes, que a certeza é não te poder esquecer. desejo.
20130621
20130617
cravo amor, em letras
cravo letras porque as vozes
estão mudas. perdões nunca foram contados tal como a fome que nos dependia um
do outro. cravo letras no passado porque talvez ainda o sinta. paixões nunca
foram valorizadas tal como o sentimento que nos dependia um do outro. fui do
tempo tanto tempo que perdi nele os nossos segundos. e poderia ele ser tempo teu
se soubesse amar-te como eu. fui do tempo tanto tempo que erros foram perpetuados
nos nossos segundos. e poderiam eles ser amor teu se soubessem o quanto te amo.
sou uma alma de anjo, mas cravei sofrimento como um corpo de diabo. o tempo é
um apetite incurável que crava e descrava, que ama e odeia para que o amor
pareça indiferente. o tempo é um apetite incurável que crava e descrava, que
sente e relembra para que os amores verdadeiros sejam jovens inocentes,
amaldiçoados de eternidade. cravo letras porque a morte é um sorriso para a
alma. oportunidades são esquecidas porque a falta de alguém não é maior que a
dor que ela nos causou. cravo letras porque a morte não vem e o amor nunca há-de
passar. nenhum merecia que o presente fosse tão passado quanto as letras que nunca
me amaram, mas tampouco o passado merecia as letras que te amaram e foram
incapazes de te chegar como o amor que não se esquece. enfim.
20130610
flores são só flores, mas as rosas são diferentes.
morri tantas vezes que desta vez
engasgo-me se vivo. flores são só flores, nunca entendi como há quem ouse ver
mais do que elas são. poderia doar a minha alma a Deus, talvez ela fizesse mais
sentido nas mãos de um desgraçado que depositou em mim tudo aquilo que as
flores não podem fazer sorrir. flores são só flores, como o vinho é só vinho, a
não ser aquilo que dele nos surge. cada gole é um trago de amargura destapada
por um sorriso que pede lágrimas. ah o quanto eu gostaria de chorar, já que os
sorrisos nada me conquistam. já que as flores nada me brotam, só saudade de
seres de mim o escárnio que a feitiçaria me roubou. flores são só flores, mas as
rosas são diferentes. há uma beleza traiçoeira nas pétalas que se roubam de
frieza, há sangue virgem que sobra dos espinhos que não se dão, mas amaria dar!
vivi tantas vezes que desta vez despeço-me se morro. flores são só flores.
vinho é só vinho. e amor é só amor, enquanto não for a morte que ousamos
surgir. flores são só amor. e morte quando quisermos. e eu daria a minha alma a
Deus, para que não tivesse de sentir mais o peso de tanta rosa que não vive,
nem morre. apenas vinho que nos chora sorrisos e nos engasga o coração.
20130603
pastor de almas
saberemos no fim dos tempos que a
morte é uma fonte de água que nunca seca, que o mal é uma opção e que a verdade
é um Deus que magoa.eu sou um pastor de almas e o meu corpo apenas o manto que
elas carregam. eu sou um pastor de almas, e nunca poderei ser igual a elas. ah,
o quanto eu me quereria perder para que me encontrasses tu desta vez, num
monte. onde almas negras fossem belas, onde um rio se visse ao fundo, onde as
mãos se tocassem como beijos. sou um pastor de desejos esquecidos. o destino
corre mais depressa que a vontade de acontecer. que os monstros existem para lá
dos corações sombrios e a luz só existe para iluminar o escuro, já eu sabia mas
continuava a não acreditar. mas saberemos no fim dos tempos que o amor é uma
fonte de ódio que nunca seca, que o bem
é uma dádiva e que a mentira é um demónio que nos faz feliz. eu sou um pastor
de almas. e as almas vagueiam, junto de corpos que perderam as suas. talvez
como eu. ah, o quanto eu me quereria encontrar para que nunca te tivesse perdido dessa vez.