despe ternura, porto meu.
limpa-me a espinha dorsal que me percorre o ser. segura-me em fios de prata e
banha-me de negro. fosse eu marinheiro para te governar as velas ou um vento do
norte para as guiar. o mar bate enquanto a lua vê. algo extermina o pensamento
e se abstrai nas perguntas das ondas. sabes se o tempo volta ou se com quem ele
vai, vem? se que o dele torna a vir não são mais que restos do que foi um dia e
se assim é, torna-se pior ainda de que amar e não poder. venho já, diz o mar
enquanto recua, parte aos vagares para que desmame a ausência ao de leve e para
que o sal tenha tempo de permanecer nos olhos de quem o(s) vê partir. de que
vale voltar, se o que o vento trás não é o mesmo recheio que partiu? se o vento
passa de novo devolve velhos estranhos. é a dor quem sempre fica, quando um
vazio tem de ser ocupado com restos de partidas ou chegadas, ou água em remoinho
criando correntes de angústia. tudo estranhos ao olhar, aos laços desfeitos
pelo que o peito chora ou não chora, pelo que o vento leva e não leva nas velas
desta proa negra. se me sento para o ver, bate no rosto a brisa de quem vai, se
me levanto para o deixar, trago o cheiro de quem foi. e assim dispo do meu
porto, ternura.
arrancas-me suspiros
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