Almas

20161003

por extenso


pergunta numero um,
por extenso
que o percurso é longo
e o amor vai morrendo
aos poucos
pedaços de terra que não se casam
não se igualam
estagnaram nesse vale
e o que vale no fim de contas
é o resto
de nada
que nada é amar um,
se não chega
colecciona-se um pedaço de estrela
que o universo vai morrendo
aos poucos
dizem que é a vida
assim será
com o que o tempo nos diz
e tudo o que o tempo dirá
oh vida
eu questionei a tua sina tantas vezes
e que adianta ter uma sina
se é o destino que nos escapa pelos dedos
oh amor
inventaram que era a dor
e o sofrer e o doer e o morrer
mas isso não é amor
então que se aprenda a viver
a partir pra não chegar
a fugir para não apanhar
a correr para não te ter
a morrer para me apagar
e ser a distância entre lágrimas e sorrisos
ser o longe e ser o perto
e não ser opção no momento certo
se opção é um escolher incorrecto
indevido, imperfeito, não concluído
queria chegar-te.
ao ouvido
gemer de dor e dizer
que tenho frio
oh amor
se não me tocas nos pés
tocas nos pés dele
tocas nos teus pés
se são pés que adquiriste para caminhar
contigo
se tenho frio e não tenho ninguém
se tenho amor mas não tenho a tua mão
se tenho casa mas ela está vazia
se tenho casa mas não posso entrar
se tenho fome mas não posso comer
se tenho raiva mas não posso gritar
se tenho amor mas não posso dar
se tenho a ti mas tenho de esperar
para que estejas
para que venhas
para que abras a porta
para quê?
esperar
só, se só ficar
se só não ter mais o que amar
se não a mim
há tanto para me amar
em mim
acima de mim
mas para quê?
se o fim é a morte de mim mesmo
só, poder morrer só
numa noite de amar-me sozinho
sem pés, só os meus
velhinho
porque hoje não era o meu dia
mas era dia de morrer
e tu não estavas
então parti sem te dizer
sem te tocar
sem os teus pés
sem a tua mão
com a tua alma distraída nos pés de alguém
nos que escolheste para caminhar
contigo
assim é não estar sozinho
mas eu estou
bandido
roubei a minha própria glória
e escrevo para me enganar
para fingir que sinto
que minto quando dói mas digo não
quando dói e me queixo sou egoísta
mas há o queixume
há o lume e há ciúme
mas não importa se há pés para te dar
pés para caminhar
pés para andar
o que é uma casa sem andares
na noite em que casares
mas tu não vais casar
comigo
eu não vou casar
contigo
que o divino só quer morrer
amar não é sofrer
mas amar é um percurso longo
que o amor vai morrendo
outro vai nascendo
pergunta numero um,
por extenso
que o percurso é trágico
que o amor é mágico
se só de amor fossemos
ríssemos
se só de amor nos apaixonássemos
morrêssemos
então o que seríamos além da miséria de um cupido
do devaneio de uma reacção química
do estilhaçar de um cometa perdido
do ruído ultra-sónico de um palpitar caótico?
eu sou a vida que escolher
hoje chamo-me persistência
que o amor vai morrendo
mas ninguém sabe a resposta por extenso
ao que eu temo
ao que eu tenho e vou perder
hoje chamo a vida
e liberto-me do passado de mim mesmo
e que seja a vida a pintar a nova dor
se os meus pés vão contigo
e as minhas mãos só te sabem de cor
oh e isso não é dor
é amor
é
hoje chamo-me persistência
é
o que me faz ficar
a deixar ver-te partir
quebrar
se um dia morrer sozinho
numa noite de mansinho
sem pés para me tocar
que não sofras quando me encontrares
pois suspirarei sossegado
por teus pés não me sentirem gelar.
mas o percurso é longo
o tempo é o tempo
o tempo são só segundos
a vida é só o bater do coração
a morte é o fim disso mesmo
o amor não se sabe
e o amor não cabe
pergunta numero um
o percurso é longo
e o amor vai morrendo
e o amor vai persistindo
e o amor vai nascendo
e o amor vai ficando
e eu vou ficando
e tu vais ficando
aos poucos
até quando?
quando
morrermos
não sobrarão pedaços
aos poucos
sobraremos descalços
com os pés
que caminharam juntos
aos poucos
aos poucos
aos poucos
saberei amar melhor
se um amor é pouco
e o percurso é longo.
amemos, por extenso.

20160916

precisei de ti


hoje precisei de ti. preciso. hoje precisei da parte que me arriba a alma e me sopra ao de leve na face e a conquista por fim; da parte que me segura e se ri quando me vê. também me questiono todas as vezes se é real. se ainda é verdade. se é mesmo. será que sentes ainda por mim? será que sobrou algo para mim? não de mim, mas para mim. hoje eu precisei de ti, depois de tentar segurar-te. depois de me agarrar ao pedaço de insónia que se misturou com o balanço dos lençóis e o quente do corpo meio vestido, depois da guerra, oh depois da doença. madrugada. trabalho. hoje eu precisei de ti e senti a ignorância. serei uma peça de um puzzle inacabado de onde faltarão sempre peças que não deixas de procurar? sou uma peça, sou uma caixa, sou o que resta de quê? a parte viva que arde e magoa, ou a parte morta que descama, dilacera e deixa a mostra um osso carregado de dor e radioactividade. destrói. dói-me tanto. ver-te assim. e o que faço se mais não sei fazer? e o que dou se mais não sei o que dar? como te carrego quando não posso comigo? quem carrega comigo? quem me carrega quando preciso? hoje eu precisei de ti. há gatos hiperactivos que desaparecem nos mapas da vida, há sombras despidas que se mexem nos espelhos partidos da minha casa, há coisas para fazer. mas não me lembro que coisas são. foram. hoje não. hoje quero-me a mim e ao meu lugar. amanhã não preciso. se amanhã tiver já morrido. moribundo. se só preciso de um segundo para morrer. um instante, sigh. hoje precisei tanto. preciso. saí torcido no desespero ténue da fraqueza que me assola. às vezes fico assombrado. saio mar adentro, enterro os pés na areia se a alma não posso deixar, descalço tudo o que me pesa e tento sorrir. leve, sorrir agradecido pela dádiva de estar vivo. ah se o coração bate. emancipo o frio das águas e baptizo-me os pés, num bálsamo de constelações marítimas, estrelas invisíveis que se escondem submersas do pôr-do-sol. e corro mar adentro até onde o medo me deixa. o que me pode acontecer além do fim ultimo de morrer? talvez o melhor. perder-me. mas de quem? do quê? há algo realmente? será verdade? dúvidas? hoje precisei de ti e só o mar me pediu que ficasse, que me entregasse, que me despisse enquanto me despedisse das memórias que nos prendem. os crimes, as amarguras, os funerais, os enterros, as pessoas, os corpos, as almas. hoje precisei de ti e senti - não. hoje eu senti a solidão, o sono pesado, o declínio, o vício, a amargura, a tristeza. hoje eu senti demasiado e precisei. mas não. ninguém. de que tamanho é o sorriso que me vê chegar? varia com a distância cósmica das poeiras que nos erguem o corpo? em que dias te posso olhar? de que adianta ter uma casa se a porta se fecha? hoje eras tu e não eu; e eu entendo que hoje fosses tu; mas eu precisei de ti. e nem todos cedemos para nos darmos demais, para responder que eu estou, se tu estás, se tu precisas. oh eu precisei. e perguntei por Deus? e lembrei-me que era justo perguntar por unicórnios se nenhum dos dois foi visto antes. quem terá cornos para aparecer? hoje eu precisei, fui  um passageiro da noite e ressaquei na vaidade da minha expectativa. hoje eu precisei de mim. da parte que te entreguei. mas o que vai, não volta. eventualmente, és tu. e hoje eu precisei, de ti. e não. não arriscaste. depois do escuro, um novo dia. se preciso. for. tudo o que é preciso. preciso. de ti.


20160808

unicórnios


dá-me um copo de céu e um trago de desejos. talvez seja demasiado novo para acreditar em estrelas. cadentes. mas se encontrei o negro nas casas dos demónios, porque não esperar a cor? dos unicórnios. violetas. Deus. fé. e quem são essas criaturas orgásmicas? mitológicas? dor. guerra. mutilação. quantas dores se escondem num riso? tripas. coração. alma. que nos sorriam as entranhas! que nos toquem por dentro e nos matem para viver. por dentro. fundo. estrelas engolidas em beijos eternos. céu que queima criaturas míticas. pele que arde sem se ver.  se a vida pode ser amor, a vida pode ser melhor. livre. o que é esse amor tão livre? e essa doçura e essa beleza? e o ciúme? adormecer em braços de mulheres como um cavalo branco a nascer. puro. donzela. unum. poli. amor. todos. se o que se sente tem tantas cores. dores. amores? ciúmes. caras. quantas caras temos para poder gostar? e esse Deus que não se sente, não mente se não fala. não aparece. não responde. Deus? unicórnios? duendes? como deixo de ser criança? não quero crescer. não quero morrer. não quero amar.  aprender a amar. certo? encontrar esperança na cor. ser feliz. colher pessoas felizes. coleccionar. se o mundo pode ser bonito. inocente. foda-se, unicórnios. que mais importa a quem quer ser feliz? amor. fantasia. sintonia. orgasmos múltiplos. prazer mental. espírito vivo, saúde. poeira cósmica. sentido. criaturas mágicas. onde encontra-las. onde habitamos? conteúdo. fora do vazio. ser-se mais. sermos mais. amar. no plural. é tão difícil ser-se racional. unicórnios, foda-se. é tão bom acreditar no infinito da ilusão. nas falácias da memória. unicórnios. vamos ser puros. virgens. insanos. fortes. amar simplesmente. amar. como. unicórnios. sê-los.

20160606

rega-me o pranto


se a alma murchar regamos-lhe o pranto. se o corpo cair enterramo-lo só. se tudo se for e tudo se vai um dia. se tudo ficar "e tudo fica se nenhum de nós ceder". se a alma murchar regamos-lhe o pranto. se as almas murcharem atamo-las ao vento para que partam juntas. acima de todas as coisas abaixo do céu e o que restar acima disso para contemplar. uma alma só. se o tempo não chegar mas a dor for grande. e se o coração partir com os fantasmas  e decidirem caminhar juntos. se precisar de me esconder. se precisar de me esconder de ti, esconder-me-ei dentro de ti. se não tiver onde me esconder então dispo-me e morrerei na tua frente. sem vergonha de ter morrido antes. ou com toda a vergonha de me ter partido. de me ser tão frágil. quantas vezes um cancro há-de vir para me quebrar? não esperar o amor. decidir terminá-lo depois da morte. talvez seja esse o teu segredo, avó. deixar morrer, aceitar a morte e não esperar nenhuma outra. um grande amor e quantos anos resistirá a solidão do corpo? e quantas vezes ainda lhe beijas a alma? quantas vezes te despediste dele depois de morreres tu também? o que sobra? o que resta? é sempre tão mais que nada. "e tudo fica se nenhum de nós ceder". mas a natureza não cede. e por mais que se dobre um dia volta com a força de «Deus». toda poderosa, arruinadora de laços, arremessadora de estilhaços crus. nada mais importa. seja tarde, melhor que nunca e destruir toda a mentira que criei. sem natureza. a tua, desconhecida natureza. mas, segue-a agora e preserva o que melhor de ti terás. e não te percas. deixa-me falhar e eu deixo-te ir. voar. leva-me contigo. termina-me. quando terminares não quererei ser continuado. mas voa, já devias ter voado. talvez antes de eu chegar. talvez para me renascer. das cinzas. fénix. quando me chamas nomes bonitos. Deusa. Vénus de Seda. Alma de Júpiter. Papel de Renda. Meu Pedaço. teu, kowo. até minha alma murchar. rega-me o pranto.

20160604

e esses gritos


e esses gritos que me acolheram ainda me habitam. visitam e visitam em horas vagas. traumático talvez. gritas o meu nome, imploras que a retire e enxugue. desculpa reviver as memórias. talvez haja uma parede fria para lá da minha visibilidade. às vezes tento proteger-me do suicídio. confesso que já não o sinto tão longe. pelo menos já sei a que sabe o sangue dos braços. desculpa as memórias, mas ninguém me poupa do cancro quando passa na tv. ser-se bom só interessa para um pequeno grão de gente numa selva de cimento. ser-se bom não interessa. não há uma recompensa, nem há castigo. ninguém se salva. que poderei eu ser realmente? mentiras. uma mentira. o que serei se não uma mentira, se desde a raiz fui enganado? e esses gritos que me acolhem e me habitam. visitam e sinto-me louco. ouço-os e não existem. mas ela grita desesperadamente. não por mim, por ela. por ela que ali está. mas sou eu que ouço, se ela já não pode ouvir nada. ela grita. grita e eu tento não ouvir para fingir que não adivinhei já o acontecido. de que serve existir sempre? de que serve estar lá, se tudo se vai? ainda saberei o caminho da tua casa? e se morares noutro canto? onde morarei eu quando não estiveres?

misturo assuntos.

e esses gritos que me acolheram existiram realmente. visitam-me realmente a qualquer hora em que me concentro no nada. ouço-te chorar como um fantasma que me implora por auxílio. e esses gritos são lágrimas de morte. visitam-me em vozes ruins. em tons sufocantes, asilados no profundo de mim. e o que faço eu com eles? mato-me ou cuido de ti? estou cansado de ser só dos outros. perdi-me dentro de ti. esqueci-me de mim. e esses gritos que me acolheram também são teus. tudo é teu dentro de mim. e esses gritos que me habitam. pelo menos já sei como choras a morte. e a que sabe o sangue dos braços. e como se abre uma vala para fazer um enterro. confesso que talvez a morte ande a pairar. desculpa as memórias, mas caso a morte venha, não as quero guardar. oh inocentes. fossemos todos inocentes como os animais que morrem. desculpa as memórias.

20160602

quantas vezes já morri?


apetece-me morrer de hoje em diante. e cavar a terra e enterrar os ossos. apetece-me esvaziar profundamente cada veia. e drenar pelos dedos, esvair-me ao longo dos braços até aos pulsos. apetece-me entregar hoje e esquecer-me. e esquecer-me do amor e do sentir. apetece-me subir ao resto de tudo e gritar  - "não sobrou nada". eu sei. que um dia me vais deixar. eventualmente. que vais seguir diante de mim e crescer. que o medo das asas quebrarem não será suficiente para te impedir de voar. eu sei. que um dia em diante partirás. junto de um pássaro maior. eventualmente. apetece-me cerrar os olhos e esquecer tudo o que em demasia me carrega. os demónios como devoradores da alma que se ergue entre os ceús. os fantasmas como senhorios do espectro carnal que nos sustenta. as fadas negras que meticulosamente nos enchem de ilusões frias e alimentos estragados. cheira a podre, "não sobrou nada", mas tudo o resto cheira a podre. encontras uma pestana e brincas ao destino. perdi. encontras outra. e ganhei. e o que são as tentativas de adivinhar o futuro? tentar enganar o destino com truques de crianças? se as nossas almas são assim tão velhas, qual das duas terá aprendido a viver melhor sem a outra? quem somos depois de nós? salomé. d'ouro. anjos e espelhos. margaridas. o meu avô ensinou-me coisas sem dizer, o cancro abriu-me os olhos. talvez me tenha ensinado tudo. ou quase tudo. penduro um sorriso na parede do quarto. quantas vezes já fui realmente feliz? a avó deu-me de comer...e isso quer dizer tantas coisas. o sol tem tantas cores e o tempo nunca se vê a passar. passa tudo tão...que já passou. passarás assim por mim? sem me dar conta de que irás? que aquilo que um dia é, um dia deixa de ser. gostava que um dia te apaixonasses por mim. talvez de novo. que desta vez já passou. podia ser um gigante, mas escolhi ficar pequenino para ti. podias voar longe, mas ainda estás presa por mim. tenho tanta incerteza de tudo, que crio certezas de nada. certezas de medo. de angústia. de frio. de desespero. o meu amor é uma dádiva e uma semente que cresce sem fim. apetece-me morrer. de hoje em diante. e arrancar-me da terra. parar de beber e pedir-te. cura-me. trata-me as pétalas. segura-me. sorri. como é que uma flor se suicida? arranca-se da terra para partir. seca-se num livro e sorri. torna-se uma memória. apetece-me morrer. quantas vezes já morri?

20160525

perdão


enterro os dedos no baço e que se dane a imunidade. esqueci-me de cortar os demónios e queimar os braços. perdão, cortar os braços e queimar os demónios. enterro os dedos na ferida e que me doa a saudade. esta noite fico ao portão. e enquanto as luzes ligam e se vão, o motor que a levará longe aquece. cheira a sangue e perco-me no escuro. embrulho os dedos, aperto o ar e olho para o céu em busca de um sugador galáxico. porra, que nada neste mundo me leva. sugam-me a vida, mas nunca me chegam ao corpo. entre a alma e o osso quantas raios de sol trespassarão? até a luz me rasga os trapos. cega-me a vista, mas deixa-me os olhos. porque nunca nos levam tudo realmente? deixam sempre um pedaço para doer. para fazer lembrar. fazer crescer esperança e cuspir a ganância. alguém saberá realmente viver? haverá mesmo um rei da chuva? e se chove no inferno, porque nunca é o suficiente para apagar a dor? e será que ela tem família? a minha mãe perdeu uma nuvem e ganhou um bilhete para o céu. a minha mãe anda a monte na cidade dos esquecidos e eu nunca percebi os que a lembram que já doeu mais. é tão difícil ser-se uma memória. às vezes apetece-me dizer um caralho, mas não é correcto borrar a pintura. antes psicopata que insurrecto. a minha avó ainda acha que existe um Deus de tudo! que castiga mas perdoa! que está à espera da penitência e da desonra! enfim, talvez seja um senhor de muitos negócios. criatura modesta. era bonito se Deus coubesse num fato de marca e calçasse nos pés um sapatos de pregos como manda aos outros. ou que tivesse de cortar os braços para fingir que a dor não sabe a derrota. será que Deus tem braços? é que deixou de me agarrar. será que Deus inventou os químicos ou será só o produto deles? meia dúzia de comprimidos e até falo com ele às escuras. é mais fácil vê-lo no escuro, entre o vazio e os demónios e ouvi-lo a cantar de noite. o amor diz que me ama. eu acredito. mas quando está escuro fico confuso. o coração aperta, os demónios queimam e os braços cortam-se. é bom, mas tudo passa. é mau, e tudo fica. são marcas. enterro os dedos na ferida e que se dane a dor. esqueci-me de cortar a memória e queimar os sentidos. perdão, queimar a memória e cortar os sentidos. perdão, perdi o sentido. enterro os dedos na alma e vazio. perdão, perdi os sentidos.

20160513

cosmos


cresce vagarosamente a alma. entorpecida entre a mágoa e o cosmos. será que um dia chove na lua? gostaria de dançar às escuras. ferver freneticamente num bule de explosões e lamúrias. a alma é sempre um ser tão bonito. o whiskey tão caro para só se dar um gole. amadurece vagarosamente a alma. quanto tempo terá ela? sem idade. velhinha. quanto tempo demorará o cosmos para ter uma nova? formar ideias e explodir. milhões de anos e até o big bang já causou mais paixões que danos. irreversíveis. as estrelas brilham tanto. poeira. e eu aspiro pó pelos sentidos. o amor é uma poeira cósmica. sopras e ferve. guardas e cai. gravidade. fere-te com gravidade. se eu soubesse que a magia era mentira acreditaria no meu próprio mal. se eu fosse inocente e o cosmos só o cosmos. o diabo terá mesmo cornos? se eu fosse inocente, ou uma fogueira cósmica em que me deitasse para arder. queimar as pontas dos dedos e fingir que nunca me droguei. foder. pôr uma faca na tua mão e dizer que me cortes. guardar a faca na minha mão e ser eu quem me corto. ser eu e assistir sozinho. cósmico. e buscar coragem ou perdão. procurar um fio que me ligue à terra e me deixe o sangue ferver. deixem-me o sangue a ferver. e o que é do cosmos? quem é o cosmos e quem sou eu? nunca ninguém aparece. para responder. será o acaso tão melhor que eu?

20160420

foi-se


pegas na vida e esperas. deixas passar. o suficiente para te atrasarem o passo. seres ultrapassado por meia dúzia de acasos. é difícil estar sempre à tona. manter a distância do segundo lugar. não ser esquecido. ter capacidade para sustentar o pódio, sem cair em desgraça. é tudo tão dramático. a começar por mim. que  serzinho insignificante. repúdio. é nojento e violento ser-se assim. sofres demasiado por dentro. não há necessidade de se estar sempre no topo. ver o mundo um pouco mais abaixo do que é suposto, também pode ser bom. mas esperas. deixas passar. e num instante largam-te a mão, escorregas num abismo, traem-te nas costas e o tempo nunca volta atrás. o que os olhos viram, não podem voltar a ver como virgens. já não é igual. o acto em si é o mesmo. uma blasfémia para a alma. num instante és ultrapassado. és lembrado. és um morto. és o segundo. és quem chega depois da meta já ter sido cortada. da surpresa. da novidade. era tão bom poder mostrar-te o mundo todo, enquanto o conhecia também. pegas na vida e esperas. mentiras. pegas na espera e a vida. vai-se. quando percebes. foi-se. não tem de ser surpresa. experiência. um atraso. triste sina. tempo e pecado. a vida é um instante. roubado. esperas. e eu espero que ma roubem também. pfff. foi-se.

vomito


desprezo. dás-me com desprezo e eu vomito. engulo o vomito tantas vezes que o meu estômago é não mais que um mar de degredo. morto. maciço. baço. uma réstia liquida onde descansa a morte. o veneno. o nojo. poderia aguentar tempo sem fim, enquanto construo um castelo de névoa e frio. é este o sítio onde habito. onde me guardo. sinto o dever que chama dentro de mim. alimentar-me. castigo-me. engulo o que menos quero, mas anseio-o no mesmo instante. a incerteza de que a morte não chega. de que o medo fica ou parte. que o amor não vem. não estará lá em numero suficiente? o amor pode contar-se e conter-se? ás vezes tento medi-lo. em força. quantos cortes aguentaria ele? até ser amputado de vez? o braço? o pulso onde lhe sinto o batimento. a mão que me tapa a boca e, me dá de comer. os dedos que me impedem o vomito. não quero que saias. não quero sentir o vazio. o estômago em espuma branca quando tudo o resto for. vai. feitiçaria. é tão bom queimar-me o corpo com café e sal. e cortar-me o estômago com os dentes em brasa. queima-me a pele. castiga-me o ser. confessa-me. diz que me torturas a alma e me carregas o corpo com veneno. é assim tão doce a tentação? a loucura do pecado? é mais leve que a alma? quanto pesa? quando mede? posso medi-lo? o degredo? o fim, o abismo, o poço? quantas escadas serão até ver-se luz? desprezo. dás-me com desprezo e eu vomito. engulo o vomito tantas vezes que o meu estômago é um banho de químicos. o que não presta de mim. guardado nas profundezas da minha vergonha. as facas. as mortes. o cancro. o amor. sonhei tantas vezes que julguei ter queimado todas as fichas. o carrossel parou. se o meu sonho viaja, o estômago prende-o. joga-lhe a memória e ela falta-lhe. será um feitiço todas as noites? será o degredo? morto, maciço, baço, que não deixa o sonho ficar? penetrar? deixar ser leve, além do peso que me transtorna. talvez mereça ser isto. o que me resta. não fazer mais por mim. não ter mais ninguém por mim. resignar-me ao barulho das tripas a contestar uma qualquer incapacidade de digestão. é tão difícil destruir o escuro. o que não se vê. o meu maior medo é a faca com que me corto. não chegar nunca ao sítio das coisas más. onde o cancro habita. não ter força para cortar tudo. nem um só bocado. o meu maior medo sou eu. o criador de mim mesmo. o organizador da matança. o escultor do abismo. o servo que me dá de comer. que me impede o vómito. que segura o degredo dentro de mim. que me impede de ser. ser só. desprezo. dás-me com desprezo e eu vomito. não percebo, mas vomito. desentopes-me os canais e eu vomito. amo-te, mas vomito. amo-te.

lembra-te da próxima vez


lembra-te de voltar. voltar sempre para mim. como se pudesse realmente fugir. ter onde ir. desaparecer. desfazer-me em migalhas e ser sacudido da toalha. esvoaçar-me no ar de outra casa. partir em pedaços e fazer dos cacos lixo. ecoar no silêncio de outros braços. é só uma questão de sentido. fazer sentido. ter sentido. onde iria eu? afastar-me do pilar que conheço e onde criei meu sustento. algum. como se uma casa pudesse mudar de lugar? como se fechasse os olhos, pudesse estender a toalha noutra mesa. para quem mais varrer as migalhas? os restos de mim? o que sobra, ninguém quer. restos. quem de mim guardaria o que menos interessa, como se valesse ainda assim a pena? o que sou eu? cacos. migalhas. sobras? restos? cuspo-me se não valho a pena. nada. não parto, não quero ter onde ir, se sempre houvesse uma voz que diga para ficar. chega. vem. anda. vem-te. não dá sequer para partir. se o coração tem um lar. quente. uma casa quente. um sono profundo. um abrigo. se a vida que nos corre se liberta a cada instante de pecado. os teus braços, são os meus. não são nada. há dias em que não são. oh de mim se tivesse sido jardineiro e cuidar de pétalas de tantas cores. ou arranca-las como espinhos e espetá-las numa cama para fazer amor. doer. amar. rasgar a pele. arranhar. sentir prazer na dor. oh de me mim se tivesse nascido gato. ou príncipe. ou sapo. quereria vestir negro. quantos prantos e campos precisaria de correr para te alcançar? cortar-me. fitar-te os vestidos e dançar. com eles. todos. beijar-te as peles. é tão bom ser-se o que uma mulher quer ter. mas nunca chego realmente. fico sempre à porta. nunca entro para ficar. um dia saio e corro. vês-me as costas e choro pela frente, para que não vejas. não quero que me vejas enquanto morro. é bom saber o que a alma consegue guardar. até onde. da próxima vez se for marinheiro. que traga o mar a terra o meu lar. se da próxima vez existir, que me guarde a tua alma. numa pétala de várias cores. nos espinhos desta dor. na cama onde dormires. nos sítios onde fizeres amor. amor. vou morrer. eu sei. também já morri.

tic-tac


tic-toc, quantas feridas no meu corpo são tuas? 
tic-tac, parto a louça, rasgo a pele e como duas.
solidão é o caminho da vergonha. agonia são as paredes do abismo. picotado, picotado, só mais um traço em que me perco e me marco. se sismo, parto. ai, ai, ai, isto dói, mas nunca tanto como a dor. quem me dera ser mais forte que o vazio. é tão triste o que sinto e os pés gemem de dor como abanicos. o que sinto é tão triste e as mãos só pedem sempre mais um risco. é suposto me perder para me encontrar. drenar. escorrer. nada escorre, secura, é preciso ir somente mais fundo. os meus olhos são aquilo que eu não minto. a boca foge de quando em vez porque não encontro as palavras deste labirinto. custa tanto ser mulher. ser melhor. se a luta não é suficiente, morramos todos. dementes. colapsados pela vontade de morrer. de sofrer. de sentir. magoar para sentir. mais além. mais. algo. é preciso sentir algo. a companhia de algo. companhia para morrer. abrir um risco para sentir a companhia de nós mesmos. é uma fúria sem lei, aprisionada pela mentira de nós mesmos. solta-te e vai. sangue. pinta as paredes e corre. vida. quem me dera ter mais para viver, se assim morro. perco tempo. quem me cala estas vozes? quem me fode os tendões onde me suporto com o peso de nada? nada? só queria ser tudo. ser tanto. ser mais além do que em vão. mais forte que o vazio de não ter ninguém. o meu Deus fala entre linhas de desespero. Entrelinhas. é a guerra, é a fome e eu não quero marchar mais além de onde tenho raízes. voar, deixar escorrer-me e partir. é sádica a vontade nobre de morrer. honra o teu nascimento. não pediste? não morreste. não. nada. pouco. somente.
tic-toc, quantas feridas no meu corpo vais sarar?
tic-tac, junto os cacos, desinfecto e bebo duas. doses. solidão. agonia. será isto o abismo? ou só o fim da queda?
tic-tac. tic-toc. tic-.

20160413

ruína


dependência. ser-se de outro. aumentar a estrutura, adquirir um pilar e depois ruir. carência. precisar-se de outro. ser-se autónomo, partilhar a vida e desaparecer. mudar. ameaçar sem ternura. insensibilidade. precisar de afecto. precisar de ouvir. precisar e não se estar atento. quando foi que me tornei a sombra do que a vida devia ser? se te gelam os pés, estarão eles ligados à vida? às vezes sinto que me desconecto. que a vida me é sugada por uma qualquer superfície demoníaca na qual me venço. luto contra mim mesmo. tento aguentar-me sem ruir. mas está longe o resto de mim. quando foi que perdi o controlo à realidade? aquele instinto racional que me guiava. era mais seguro ser-se antes. não mais fácil, apenas mais seguro. sem elementos que me abalassem. era isto que eu receava. quanto mais baixa a base, mais fácil a capacidade de segurar os sonhos. não os deixar fugir demasiado. tê-los sob controlo. não lhes dar nome, nem significado. viver dependente. deixa-los sugar o discernimento como um feitiço num espelho de invisíveis. perder para a carência a necessidade de amor. de afecto. de sentir mais além do que existe. destruir a saudade. queimar as memórias. sobreviver aos enterros. utopias. segredos. sonhos. feitiços. dependência. carência. se me roubarem um pilar, estou pronto a desmoronar para que toda a gente note. que finalmente, ruí. 

corrompi-me


leve. escorregas no ar e olhas em frente. encontraste um achado no traço que desenhaste na pele. olhas em frente, como se o ar entrasse fácil nas narinas. comes um chocolate. será depressivo? é consequente gozar com a vida? qual é a regra de ser certinho? não infringir os valores que te põe de pé? trair a nós mesmos? olharmo-nos de forma diferente? chegarmos ao espelho e gritarmos «corrupto»? o que dói mais que o cansaço? que a ardência? que o estalar da pele enquanto a lâmina nos traça? esvazia a mente? centrar os pecados nesse pedaço de lugar onde concentramos também a fraqueza. o pecado é a fraqueza. ou vice-versa. infringir as leis de nós mesmos. correr atrás do que renegamos. cair no abismo e tentar trepar. fingir que a maturidade nos deu o que queríamos. que alcançamos a mesma merda que os nossos antepassados. tudo fakes. tudo arquétipos de modelos já usados. protótipos uns dos outros, fingindo a beleza de se nascer. dar ao mundo nada mais que um vassalo para sofrer. quem perguntou se eu queria ser feito? um projecto egoísta. decidir dar à luz. conseguir cantar. perder o sufoco. abrir um traço na pele para drenar tudo o que não se vê. para sentir vida além da tristeza. não precisar de mais nada. estar satisfeito. ser perturbado mas estar contente. cegamente leve. é tão fácil ser-se a ruína de nós mesmos. deixar de lutar. cair. ir atrás do que o fundo puxar. entrar no jogo. deixar cair as barreiras que impedem a luta do bem contra o mal. entregarmo-nos ao lado mais escuro. não querer saber. que adianta ser-se bom? toda a vida bom? há quem diga que não acredite no castigo eterno, então resta aproveitar. deixar cair a máscara e sofrer afirmadamente. e gritar no espelho «deixei-me corromper pelo fracasso. quero ser o que resta depois de não lutar mais. cansei. desisti. corrompi-me.»

quantas?


vem de mansinho. vai chegando ao de leve e corrompe-te o ser. a dúvida. o infinito da questão. do nada és apenas a dúvida. o que ela te resta. o que ela te deixa. vem de mansinho. vai chegando ao de leve e come-te a alma, vivo. perdes a confiança naquilo que era mais sagrado. e mutilas. cortas os membros que se gelam para sentir como é. ir mais além. sair de onde te deixaram. encontrar alguma existência dentro de ti. foderam-te com amor. abriram as fendas e bazaram. arrastas o corte com medo e seguras firme. pousas enquanto a vontade vaza. observas. como é percorrer a ardência e ver escorrer ao de leve, de mansinho. para onde vai, por onde vai até cair no chão? o que te deixa? a dúvida? leva contigo a confiança com que te aspiravam cegamente. os dedos tremem. gelam. quem estará cá quando eu cair? tudo seca. a dúvida é uma mulher de muitos homens. a confiança uma colher de poucas bocas. ou alimenta ou deixa à fome. se vai, dificilmente volta. onde estão os teus sentidos? essa cama de rede onde baloiças de olhos em vão. nem é vazio, é fome. tapa-me a boca e enche-me o peito com a tua saudade. melancolia. ingrato. sempre me senti ingrato. o destino é um cabrão. é um saco de sementinhas ruins. ervas daninhas que precisam de ser arrancadas. mas eu não sei cultivar, seu cabrão. vens de mansinho. vens chegando ao de leve e enganas-nos uma vez mais. vens ao de leve, trazes o que mais te convém. o que sobra dos ricos. carregas no botão quando te apetece e o jogo vira roleta russa. confiança. coragem. disparar. morrer. quantas vezes tem um homem de morrer para não confiar em mais ninguém? para entender o infinito? para não amar com desejo? para não querer? para não esperar? para não confiar novamente? para não perder? quantas vezes um homem tem de morrer para sarar? quantas vezes um homem tem de matar? quantas vezes morri? quantas, seu cabrão?

20160412

o que mais custa


o que mais custa é o desapego. é sempre o desapego. é esperar e não vir. e quando chega, se chega, não chegar. em si. o suficiente. fingir que veio. que apareceu. enganar um dia mais. uma noite a menos, sem dormir. o que mais custa é a expectativa. é achar que vai ser assim e não ser nada. ou se chegar a ser, não ser, por ser tão pouco. já não ter para dar. já não querer. perder-se entre o mar e a montanha. entre a vila e a cidade. em sítio nenhum. no fundo o que custa não é o amor. o amor é única farpa que nos entra nos dedos e não dói. o que dói é carregar sozinho as memórias de dois e desapegar. é desenlaçar a mão ao vento se já ninguém a pode segurar e expectar nada. o que dói é a mentira. fingir que está tudo bem e a alma gritar que está tudo mal. deitar sozinho e acordar só. ou não acordar de todo, se assim o corpo não deixar sequer dormir. não quiser dormir. até para o dormir é preciso deixar. desapegar. não esperar nada. meu amor e essa casa onde habitas. quem és? chegaste? de onde chegaste? partiste? fecha a porta, por favor. às vezes aqui faz frio. às vezes encontro a paz que procuro, mas não chega. tranca a porta do lado que mais queiras. meu amor, talvez parta antes de chegares. amanhã. se não ficar foi por ter esperado de mais. onde a alma não sente, o coração não se agita o suficiente para ficar. para ter de ficar. esperar também é uma virtude. amar é um pecado, mas deixar de amar é um crime. desamar. ir desamando e sentir-se. notar-se ao de leve, até ficar carregado. todos os dias um bocadinho mais. como o branco que fica preto, o amor transforma-se em muitas coisas. em muitos ós, em muitos nós e muitos não vás já. fica. mas se ninguém pediu para ficar. então ó, parti, até já. se quiseres vem buscar-me. fundo. estou fundo. mas não te enganes. não desta vez. não me enganes. não desta vez. se eu partir e olhar para trás, não grites que me amas se sabes o quanto de ti amei. não grites que me amas, se não deres o quanto te dei. não grites que me amas, pois foi por ti que matei. me matei. me parti. chacinei tudo o que de mim conhecia só, para agora aprender a me abrigar sozinho. aquecer-me de novo sem alma. sem corpo. sem chão. sem ti.

20160409

mulher21


comecei a contar letras, daquelas que formam palavras. frases. continuei a sentir e, doeu. nunca soube o que era sentir por alguém como falavam nos filmes. mas senti. caí fundo, cegamente, fundo adentro num chão que te roubam. doeu. se me contavam que os livros fazem sentido, perguntava porquê? se me perguntarem se os livros fazem sentido, respondo sonho. Se a vida dá 30 voltas, nós damos sempre mais uma por cima. Se o sonho acabar, lê-se um outro. Dói e se dói, o medo, o horror, o abismo de não ver mais se não o fim, próximo.
Já te vi ser mais criança do que hoje. Crescer faz parte. Mas dói. Dá-me medo ver o quanto és. Quanto te tornaste em tão pouco tempo. Tão rápido. Foges-me da mão e dás-me um sorriso. Dou-te amor, quando quiseres e assim pedires, com jeitinho. Tens de pedir com jeitinho. Decidi aprender a deixar ir para voltar, a contar o tempo para poder dormir, contigo. É tão difícil ser-se só. Estar-se só. Se me tivessem contado o que era a paixão, teria recusado querer senti-la. Com os 7 diabos, que faço eu contigo se não te posso esconder do mundo? Se não podes esconder, só podes mostrar. Com orgulho, teus vestidos que vais despindo e procurando dentro de ti, onde andas? Perguntas. Ofereço-te outros, metáfora. Talvez seja o medo de deixar ir. Se não posso esconder, posso tentar agarrar-te. Colher-te um pedacinho de alma para cuidar e deixar crescer flores. Margaridas, como antes. Não as vi, mas sinto-as em teu cheiro. Em teu pedacinho de peito onde me deixaste entrar. Não faço tudo por ti. Como disseste, faço tudo por mim. Egoísmo. Cuidar de quem queremos por perto. Enganar com carinho para que não fuja. Alimentar os gatos para fingirmos que são nossos. Passear o cão na praia para acharmos que o merecemos. Tão puros. Egoísmo. Peso. Leveza. Ser-se. Amor, és-me. Hoje também é o meu dia, mais um dia para poder estar. Glorificar-te. Desejar-te, despida, com a alma nua pra mim. Orgulhar-me. És tanto. Felicitar-te. És demasiados sorrisos. Vinte e um cálices de vida e três bebidos com a minha. Compaixão, do germânico, co-sentir. Contigo. O que é meu é teu, o que é teu é nosso. Amor. Amo-te. Amor. Parabéns. Mulher. Se te merecer.

20160405

vazio


vazio
assim estou vazio.
o amor é uma borboleta
que nos pousa e nos devora.
vazio
assim estou vazio
o amor é uma promessa
que amanhã deitamos fora
o que a vida nos ancora
o que a vida nos rouba
e tudo o que vazio entoa
vazio
e o que tenho ainda por vazar
e o que é o amor?
e o que é trair?
e o que é gostar?
sem nada esperar,
sem nada guardar,
no fim,
como suportar.
no fim,
como acabar.
no fim,
como dizer fim,
vazio.

escuro,
assim é o escuro
não negro, mas infinito
onde me perco e grito
e peço que me deixes sólido
não partido.
o amor é uma gula
que nos deixa comidos
destruídos,
o amor é uma mentira
que damos sem esperar amar.
miséria,
o amor é uma miséria
onde nos podemos esganar.
aquilo que há para dar,
não receber
como é possível querer
sem ter?
o amor é uma pistola
que dispara se tem mola
que nos rouba e viola
e não se pode controlar.

verdade,
o amor é uma mentira
que nos rouba a intimidade.
mas o que é a verdade?
partir,
o amor é partir,
o amor é deixar partir.
chegar, o amor é chegar
e deixar pousar,
uma borboleta
que nos saiba acalmar
que nos queira sugar
desmontar
para nos poder devorar.
partir. deixar.
vazio.

20160212

incessantemente



tremo incessantemente por dentro. numa mistura de me roer, corroer e descontrolar.
tremo incessantemente internamente. numa mistura de explodir, destruir-me e gritar.
sufoco em soluços e nervos, e se as lágrimas estagnadas no olhar vidrado caírem, sei que serão as primeiras de uma barragem cheia de pensamentos obscuros. são demasiadas colheres e demónios.

-diz alguma coisa.
-que me tire da corrente.
-que não me deixe ir na corrente.
-que me mate. que me aguente.
-por mais um pouco.
-incessantemente.

20160107

onde o cancro



ali, onde a alma vacila e o corpo pede à mente que pare; onde sem sombra na dor se contam as sobras e os restos de amor e de esperança. mas quem será mulher? mas quem será o cancro?

ali, onde o mar embarca no sono e se cala e consente às pedras que durmam, o espirito voa, livre, embalado na esperança do sonho, do alento, do esperar. mas não é o cancro que te assusta. mas sim o chão que pode ruir.

ali, onde o cancro jaz e a morte sussurra e te pedincha um pouco de entrega. onde as veias quebram e secam, onde o cabelo parte sem piedade, ali, onde os ossos ressaem na magreza do ser. não é o cancro que te assusta. mas o medo que tens de perder, tudo aquilo que ainda pode ruir. o que falta erguer-construir. o cancro-o ser.