des
encostados
des
amados
e o que somos no silêncio do amar
se só amamos no silêncio do beijar
mas onde paira o silêncio quando des
encontramos o olhar
se os gatos também falam
mas eu não sei miar
amor, eu nunca soube amar
amor, não sei como é gostar
e este sono, não nos deixa amar
sem uma cama onde encostar
sem uma cama onde encontrar
quantas noites já partimos sem deixar
quantas noites já deixamos por beijar
é tempo depois de tempo de dois corpos lunares
mas que se foda a doença de não saber amar
de não saber beijar
de des
encontrar
de des
encostar
de des
apegar
e o que resta do silêncio entre o mar e o amar
e o que a água deste corpo carregar
des
afogar
des
gastar
amor, eu só quero perder-me no teu mar
diz tentar
diz boiar
diz nadar
mas como podes tu me amar
se os gatos também falam
mas eu não sei miar
amor, eu não sei mais amar
amor, não me consigo deitar
amor, não te consigo matar
amor, não te consigo encontrar
mas não te vou deixar
desamar, de amar, amar, a mar.
20151115
20151022
sou.
sou uma viúva deitada, nas bermas do cancro
e dos buracos de mim.
sou um muro de panos rasgados, nos termos do ódio
e da vergonha de mim.
sou um vestido de noiva, nos passos de uma negra balsa
e de um cortejo fúnebre de mim.
se me ergo ou se me engano.
se me dispo ou se me esgano.
nada resta de mim.
sou o que resta do fim de nada, nas pedras que calquei
nas madrugadas em que dormi, sem ti.
sou o que sobra da guerra, nos sacrifícios da fome
e do amor por mim.
se me ergo, mato-me. sem ti.
se me dispo, não sou mais ninguém. sem ti.
e se esta ilusão me mata,
nada sobra para me fazer viver amanhã,
se de mim nada restará.
sou uma nuvem de perda, nas lágrimas que chovem dentro de mim
e do ácido de ti.
sou um aDeus imaculado, no remorso do que perdi
e para quem parti.
sou as moedas que gastei, no mercado do escárnio, que abatem
sobre mim
e do que se abate sobre mim.
morri.
20150409
nan20
quatro vestidos rasgados, cada
mês tem quatro luas, e despimos todas de branco. meia face é sempre tua, seja
negra, oh seja oculta, se for minha, será tua. outrora desencontrados,
encontrados no abismo. agarrados a nosso destino e ao perigo disso mesmo.
queimemos a pele nestes anos de água corrida e seguimos com sorrisos de
gigantes adormecidos. na consciência de nós. vinte cálices de vida, todos
vestidos de cores, e eu sou negro e tu és branca, mas seja a vida cheia de
amores. seja a minha igual à tua, enquanto dure nossa lua. enquanto dure nosso
amor. e que este brinde seja uma pétala num ramo de tantas flores, num rasto de
cometa que nos guie o pensamento num universo de calor. e sejas vida em mim,
pelo tempo que nos conheça, e sejas rosas brancas em camas de poemas. e de versos
roubados. e de beijos em nossos casos. cubra-te a prata, pele de seda. cubra-te
a alma, minha alma, dispa-te o corpo, meu corpo. sejas tu, eu, nós e os vinte. e
o amor.
20150330
nestes olhos.
olhos parados no tempo, neste tempo que não pára. busco fundo nos meus olhos, neste fundo onde me olho. e me perco, se não me encontro. que fazes tu aqui? comigo? ou enquanto os olhos estagnam, sem mim. que ainda queres de mim pra não partir? não chegou o que te dei? o que um dia irei tirar? que faço eu contigo? caio neste poço e nado no vazio em busca. de mim. quem tem o pedaço que me falta? quem sou, além do que me resta? fundo, nestes olhos estagnados. perdidos. quebrados. sós.
20141215
como estás? perguntou. de frio
antes que a estrutura abalasse, "queres mesmo saber?". terá sido o
suficiente para destabilizar quem se esforçava para não cair. oh pai.
sento no chão frio. cheira a
húmido, penso.
entrelaço os dedos nos membros cruzados
enquanto me agarro para não me bater.
o corpo gela silenciosamente.
a paranóia bate lentamente e
apercebo-me só quando já afundado nela. os livros deveriam ser seis para cada
lado. distraio-me da tormenta com estes pensamentos alinhados. mas não lhes
toco, sou incapaz agora de sentir.
respiro moderadamente.
descontrolo-me porém, solto com violência os dedos gelados e agarro o cabelo, puxo-o
mas não sai. oh de mim. uso do que tenho, sirvo-me do que
é meu e mordo-me onde posso. repudio o que há de sujo em mim, e tento
rasgar-me.
bato a cabeça na parede com força
suficiente para o barulho da batida se sobrepor às vozes. canso-me. sinto dor
finalmente e paro.
os olhos deixam-se secar e ardem
em sal e lágrimas secas agora. ao lado tenho um corpo e alma que me observa com
os olhos da mente. cabeça baixa. mãos trémulas e braços apoiados nos joelhos
que o sentam. apercebo-me meu irmão, enquanto tento recuperar a compostura para
que não continues tendo tal exemplo. que me perdoes assistir a isto também de mim.
compreendo nestes instantes a tua maneira de ser. quem tanto carrega, por algum lado tem
de vazar.
"cuidado como falas"
gritei-lhe ao inicio pois estaria a cobrar-me o silêncio em que me tentava
controlar. e terá sido o bastante para descontrolar o barulho em mim. enfim, mãe...
20141208
eles não se tocam. deitam-se na
mesma cama, toda a noite com o mesmo pedaço de coragem (para eles). ou seja
apenas fraqueza (para mim). partilham lençóis, entendam-se dois corpos frios na
mesma cama que não range, não sente, não chega para aquecer, não chega para
tocar. acharão que não se vê? que não se sabe? as paredes não murmuram, nem
precisam, pois vivem sem vida. este branco que as pinta não foi colorido à cor
da paz. este branco é vazio, é nulidade, é falta de pontes de cor em sorrisos,
é carência de ternura entre corpos.
eles não se tocam. se a memória
não me falha eu nunca vi. não viverei para ver. aprendi a beijar sem ver deles.
talvez não saiba amar por isso mesmo. desaprendi a viver tantas vezes, a
inspirar nuances de peso e negrume e a expirar notas pouco líricas que em nada
me realizam.
eles não se juntam. não se tocam,
não ouvem música, não escutam o vento, não amam a noite, não conseguem.
eles não. nem eu (talvez).
20141203
deles nada se sabe, a não ser quem realmente os vê. nada que
quatro boas paredes não escondam. se os mortos habitassem esta casa, à muito
teriam desistido de procurar a luz deste lar. talvez por isso se percam tanto
por cá. parte-se a alma, dizia à uns dias, algumas centenas deles talvez,
jurava eu que ainda existisse. alma e fé. fomos cobaias da não coragem, do não
amor, do não divórcio e do não mais, do não basta, do não chega. não terá
chegado mesmo? ruínas de vestido branco e alianças de prata. não sei mais
escrever sobre fome e guerra, criei uma greve de sentidos e uma abstinência à
dedicação. ela é escrava de nós, pois se tanto quer partir, sabe-se que só fica
por alguém que não ela. oh mãe, hoje sou tão mais velho que já não vou com
ninguém como as crianças. e eu disse-lhe e isso doí-lhe, pois sabe que nos
perdeu a inocência, quando nos cessou família com mutilações. queimaram-nos os
ouvidos tantas vezes que tiveram os olhos de aprender a ver melhor. sou tão
indiferente às escolhas que lido apenas com o que vem dos outros. mantenho-me
no meu sítio, acomodado às preferências do tempo. há quem diga que não acredita
num Deus interventivo, eu apenas perdi a crença em qualquer Deus que não o meu.
e isto é como dizer-lhe "desculpa mãe, se tu partires não julgues que
escolho ficar com o pai, porque afinal só escolhi ficar dentro das quatro
paredes que me escondem. não tenho culpa que também ele esteja por cá e que tu
não pretendas estar mais." no dia em que a última pedra desta casa cair, espero eu que reste ainda uma última porta, para eu fechar.
20140812
madame. cartas.
baralhe-me as cartas, madame. dê-me o baralho em naipes de sede e
passado com fome de corpos e almas. deixe-me os jokers, aprendi a jogar com
quem serve a vida do lado que mais lhe convém. os reis não existem, mas ainda há príncipes
encobertos por aí. encha-me o copo, madame, com whiskey. repare nesta jogada: uma dama de
copas, um coração vermelho de amor presente. vestido branco, uma paixão que se
sente vibrar como o maior trunfo na mesa. quer sempre folgo e o deslumbre das
flores sobre si. mas observe melhor, madame, olhe nessa outra dama que surge do
avesso com o coração em luto, sempre apoiada nas memórias do tempo. chamam-lhe
espadas, madame, porque magoam. abrem-lhe a carne morena, sugam-lhe amor e
vida; dão-lhe prazer e o sentido despropositado de uma casa antiga e nostálgica.
se estas cartas tivessem rosto que se visse, bastariam seus olhos para lhe dar
fome de sonhos, madame. e sangue nesse corpo que é meu. sua excelência percebe de cartas,
madame? não responda, qualquer que seja sua resposta não me interessa na
verdade. admito que não percebo nada de cartas, nem tampouco destes jogos que
inventam como se o amor tivesse sempre um preço para lá da morte. não me
encaixo neste caos de saudade e tempo. falta um valete, madame. julgo que terá face sacana, há quem lhe chame
ouro que brilha para lá das estrelas; e há quem lhe tenha queimado os paus que
sustentam sua alma num jogo mais antigo. espere, madame, deixe-me sair desta
mesa antes de lançar essa última carta. quem sou eu para aguardar sentado as
certezas do destino? mas deixo-lhe um pedido, madame: se encontrar tais damas
numa outra mesa que não a minha, sirva-lhes ases com amor e frescura. não
importa qual o naipe, nem o passado, só suas felicidades importam, tal como o
futuro que merecem. mas madame, se puder lembrar-se de mim, deixe-me ainda uma última carta, pois também eu preciso de amor. pois também eu preciso de sorte numa última jogada. oh, que
me ensine a jogar à vida. e me mate por fim.
20140809
lembra
lembrei-me de lembrar e lembrei. lembrei-me de sentir e doeu. esqueci-me
das desculpas para não estar lá, e arrependi-me. lembrei-me de ter lutado, e
interroguei-me se foi o bastante, então restou a dúvida. esse presente passado
que me recordo, quando me lembro de lembrar. ardem os olhos e bamboam-se as
pernas, como uma fraqueza vinda de um qualquer cordel que me ata o coração e me
impede o sangue de ser vida, sem ti. lembro-me de já ter sido assim uma outra
vez. não sei quantas vezes o mar traz a mesma onda, mas lembrei-me de ir até
ele pedir se voltavas. lembrei-me que o tempo passa, e que este passado que me constrói
poderia ser o que quisesses. e eu dei-lo, lembras-te? talvez quisesses
responder "e tiraste-o, lembras-te?". e eu amei-te mesmo depois disso,
soubeste? e tu? nunca te lembraste de me contar o que amor te lembra? ou se sou
ainda água dessa onda, onde bebem outros olhos que não os meus. lembras-te
ainda de mim, ou são só histórias dos outros? lembrasses ao menos de me
responder. lembrasses ao menos de me existir.
20140731
memórias
suspira de mansinho. um ultimo sopro em
que o coração reluz. é severa a expressão desenhada pela doença. lava-se o
corpo uma última vez com água benta. fecham-se os olhos, mas abre-se a luz numa
porta para nós desconhecida. dão-se lágrimas ao desespero, é cruel ser-se vivo
quando tudo em nós morreu. vai-te, comece a despedida e sofra assim minha alma.
entregue-se à terra teu corpo em casca de madeira, fiado a uma profecia cheia de
ateísmos na própria crença. ser-se por si só é um fracasso. deixa-se a roupa,
mas leva-se o cheiro, esvanece-se carne e osso em pó e resta nada. um fiasco na
própria criação divina, ou será esta a soberba exponencia da arte? alimenta-se
a dor, escava-se a paz em lágrimas que só encontram chão. e aguarda-se. que o
tempo vai e não volta, que o presente para, que a saudade é tamanha e
o reencontro breve. então aDeus, o que é de Deus se nunca o ser foi nosso. alma
e vida, que o que começa nunca acaba nas memórias da mente.