Almas

20130523

numquam


nunca contei dias porque eram as noites que me matavam. e a vida passou tão rápido, que a luz perdeu-se para ser contada por palavras em cantos escuros.

nunca soube esperar, mas foi a espera que o tempo mudou. secou a morte, tão suja quanto opaca para a verdade e um renascer de nada nos berros de uma dúzia de garrafas com sabores de lúpulo e águas embriagadas.

nunca soube morrer e saberá a vida reconhecer-me a proeza de existir em modo neutro, na respiração meia breve que o passado prende, ou no suspiro acelerado que o futuro me pede, não sentindo.

nunca soube sentir, para além de amar sem ódio inimigo, porque até esses eu cuidaria se tivesse a morte de optar entre mim ou eles. e nem o negro que me acompanhou, nem o capuz de desespero nas baladas ao luar que fizeram chorar as estrelas no inverno me cicatrizaram a pele das memórias desse amar de morte que em mim carrego.

nunca. ora vivo, ora defunto, ora sóbrio de alcoolemia minha, nunca serei de cá, porque tampouco algum dia me deixaram ser de almas que nunca me foram negras quanto os sonhos. esses, nunca os provei vestidos de branco, nem as alucinações me deixaram ver outra cor. ora morto, ora renascido, ora bêbedo de sobriedade minha, nunca serei de lá, porque tampouco algum dia me deixaria ser de almas que nunca foram minhas, mesmo que fossem brancas quanto a verdade de existirmos.