Almas

20180808

MonteDor

haverá sempre um farol
onde deitar e dormir
por fim
como trapo rasgado ou gato vadio [gato veado]

haverá sempre um moinho
de onde remanesce a vida
por fim [silêncio]
como o vento que grita ou as varas que partem o sal

haverá. sempre. ou. para nunca mais.
um mar. onde chorar. rir.
se sempre houverem. os restos. as sobras. o tempo.
como quando te via em flor antes de seres mulher da vida.

e o quê?
por fim
o trabalho árduo e a fome desmedida
a morte - um cavalo branco se branca é a sida
o amor - uma úlcera vil que ilude e isola a ilha
o trabalho é fraco e a fome desgraça
no fim
e o quê?

um mar onde chorar. rir.
para nunca mais dizer. para nunca mais sentir[mo-nos].
se sempre houvessem. pedaços. sombras. vida.
como sabia que eras espinhos e me enganei ao ver-te em flor.

haverá sempre um moinho
de onde a memória foi tirada
no início [quixote]
como gigantes que não se puderam vencer [o aDeus].

haverá sempre o farol
onde amar é doer-me
no início [o mar ao longe]
como veias que iluminavam a esperança e beijavam ao engano [lias-me].

por fim
[a despedida]
ou a luta sob a moral
sob o ideal de se ver [vida].

em último
[a inércia e o cancro]
ou a loucura e os sonhos
sob a realidade que me derruba.

e tudo isso nos diz: -aDeus, MonteDor.

20180801

de manhã.

São quase 9 da manhã e a lua paira no meio do céu como se se tivesse esquecido que amanheceu. 
Na verdade não sei que horas são, apenas achei bonito o azul do céu no branco dos astros. 
Acho que estou atrasado para o trabalho.
há um bilhete reciclado arrancado à pressa e colocado entre a escovas de um carro velho preto. 
Talvez diga aDeus ou talvez diga que te amo. 
Hoje eu não pedi por favor, não porque não quisesse, mas porque não queria que o fizesses sem querer
e é na intimidade da madrugada que se sente saudade, ou quando tudo em redor nos pede atenção
mas só queremos a paz de quem nos conhece e nos faz. Não sou eu. 
A vida é pouco mais que a saudade e os aDeus. A morte é esperar ser o que não somos, se o que não somos também nos faz ser. 
Ontem eu só queria que tivesses ligado, 2 minutos que chegassem para eu saber que te importas e que o cuidado que me tens é uma sátira às despedidas.
Mas tu não ligaste. Porque o meu tempo não é o teu. Nem os desejos que sentes fora de mim.
Hoje de manhã a lua estava no céu. Mas eu não. Nem tu. 

20180724

homem. não-mulher.

não me chega o lesbianismo
pois não é lésbico o corpo que porto.
não me chega adorar mulheres
se carrego comigo a semelhança com todos os homens.
eu queria ser mais puro
e que fosse infinito o sexo do universo.
que derretessem as estrelas congeladas na boca dos anjos com o calor do hálito húmido para me vir.
eu queria ser mais puro
e que fosse infinito o sexo do universo.
que os astros e os mastros e os buracos fossem o acomodar de um novo lar e pudesse entrar em ti. [em paz].
eu queria ser mais puro
e que em ti se aceitasse a minha forma nascida
e se tornasse ilimitada a forma de nos termos lermos e escrevermos.
mas não é lésbica a genitália que transporto
nem o medo que broto do pau que me faz [capaz ou homem].
e não é lésbico um homem
e eu só queria ser mulher para que me amasses mais
e eu só queria ser o sexo que devoras e por quem voltas [madrugada adentro]
madrugadas mais. pernas bambas. prazeres. não iguais.

foda-se.
não me chega aprender a foder com os pêlos e as peles
com os músculos e as sedes ou os suores e os odores que nos calam [virilhas, axilas, conas versus paus]

foda-se.
nunca me chegou tentar. ser mais.
agradar à natureza dos corpos e oferecer-me como um sacrifício.
ó, também eu preciso de ser aceite.
mas não me chega ser lésbico,
se lésbico o meu corpo não mo permite.
ó, também eu preciso de ser aceite.
mas nunca me cheguei a ser perto,
se longe está o meu sexo de ser [lésbico].

que me cortem ou mutilem então
me trans-formem em vida e libido
porque afinal não sou mulher
senão o sexo que me pertence.
e do meio das pernas não gozo do que tu dás
pois não me chega ser lésbico
se afinal não sou mulher.

encara-me com a foice e rasga-me, foda-se.
olha-a. para [chupares].
diferenças.
olha-me. pára. [de me usares].

e do meio das pernas eu não broto o liquido das algas
e não me chega o lesbianismo para derrubares barreiras e baixares as armas.
desejares. [me].
comeres-me a alma e sugares-me.
não sabes sorver [me].
e não me chega ser lésbico
se lésbico num homem é. [o ultraje].
de ser mulher.

encara-me com a foice e rasga-me, foda-se.
a tua boca não me quer-não. a tua boca não me quer.
homem. não-mulher. não.

20180718

trans

sou homem de lã e pele índia sem cor
que das asas que broto como ossos que moldam o ar me sento para voar
e folheando seda e cetim, cascas de pinheiro e ouro viajo
entre ser infiel ou mártir
ou lamentar a vida inútil
porque afinal não morri
ó. fácil é chorar [como o barulho que desliga as luzes do olhar para partir].

sou bicho de pau e corpo sem género ou lei
que vacilo e bambuo entre roupas cruas cheiros imundos e suores intensos
e tocando com a ponta dos dedos viajo entre seda e cetim, cascas de pinheiro
entre homens e mulheres
e sexo em que amor é vida
porque afinal não morri
ó. fácil é usar a boca e lamber [como se a alma gostasse de receber. o que o corpo não tem]

sou mulher alheia. das mulheres que me fizeram sem saber
que as sinto e repito como a estrutura de um corpo que se implanta no mar
e recebendo as ondas, todas as ondas são seda e cetim, cascas de pinheiro
entre sal e m[águas]
ou o frio da solidão quando tudo é
porque afinal não morri
ó. fácil é fugir do vento e vender o corpo [como submissa força a quem abusa de mim]

ó. que neutralidade bélica
que é isto de inventar a guerra para fazer revolução?
como é beijar mulheres entre as pernas e sentir-lhes? [o coração na rata]
ou que brutalidade material é ser por ser só eu?
adorar sexos erectos e usa-los como compensação?
que amor próprio ou individualidade freudiana
quero comer-te mãe. quero matar-te pai
quero a dúvida eterna entre ser e sexo
existir e sexo
mentir e género
foder histérico
porque não posso ser mulher
porque não quero ser só mulher
ou o homem que em mim habita
é um traço hábil da emancipação
eu não sou a criação
se não a ordem de mais um dia
em que o colapso é um cérebro sem nexo
de ser a trans-neutralidade
a trans-precariedade
de um salário de puta e fome.
[hoje à noite eu vendo sexo]
por ar-dor, amor e homem(s).

20180717

torre dos sem prisão

São como socos em sacos de papel que guardam ar.
Como se os braços se esticassem no vento para acertar em algo que não está mais lá.
Fugiu. Distante. In-alcançável.
E eu estrabucho dentro das entranhas e ouso gritar-te serenamente para que me ouças.
Mas nada. Do autocentrismo genético eu li as críticas. Mas não há espelhos para a alma se não o tempo a sós.
Eu fui trocado por um gole fresco de tinturas nórdicas e isso fez de mim o vazio.
No momento em que eu me for eu não volto. Mas o meu luto é demorado e junto dos mortos.
Que saudades não existem para mim. Foda-se o compromisso, eu não existo.
Se não sou tempo quando faço de mim relógio e te mostro as horas. Estou farto de ser cobaia. Preciso de algo.
Amar em sonoro só não chega. Não quero foder. Não quero chorar ao teu lado. Não quero mostrar-te prosa.
Isso já perdeste. Foi a primeira das partes que mandaste embora. E está longe.
Confiança. Estabilidade. Tempo. Gestão.
Carrego-me cheio de merdas por dizer para não provocar uma avalanche, mas se me calo recebo bolas de neve que me acertam como balas à queima roupa e eu morro aos bocados.
Que queres de mim? Aquilo que tu escolhes dar? Desculpas?
Sempre me questionei sobre o que era o destino se fingimos ter uma opção a fazer.
Ir ou não ir. Querer ficar parece uma premissa infundada. Meios tempos. Tempos contados. Tempos cortados. Tempos sozinhos. Essa solidão que me assiste quando te tenho. Se te vou perder como me posso entregar?
Não é justo ser uma opção do momento entregue a palavras de vida inteira.
Não te posso chegar perto? Que é isto? Um campo de concentração para sentimentos oprimidos ou a porra de um gulag a quem quer dar tudo o que conhece às bruxas?
E eu não sou magia.
Se não a fogueira que te mata aos poucos.
Ou o fogo que apagas aos poucos.
Eu não sou.
Que é o pai, é a língua é a vida e os afazeres menos eu.
Eu não. Não sou.
Última opção.
E todas as desculpas para não estar comigo se não um resto de instante ao fim da tarde.
Ao fim do dia.
Nada demasiado longo.
Nada demasiado perto.
Eu sou sozinho.
E as pontas de cigarro são o meu pior serão.
Cansei de esperar de ti.
Eu vou foder com o mar.
E misturar-me com a areia.
Mutilações.

em 16-07-2018, 23:42 - praia do cabedelo.

20180702

Loop

Mas não há nada melhor que a chuva para sentir o céu acima de nós.
Reage caralho. Foge ou morre de vez. Mexe a carcaça ou o cigarro apaga. Corre rio adentro ou morre de vez.
Que puta de ideia é essa de querer arrancar a morte com os dentes e esperar que a vida te mande mensagens?
Se o defeito é estar sozinho porque é que o mundo soa melhor sem mim?
Que se nada doer tudo passará. E mulheres serão felizes sem mim.
Que exigir a presença é injusto mas necessário. Que nunca ter crescido é uma faceta medonha da toxicidade que porto comigo.
Eu queria ser diferente antes de partir. Mas não me garanto e engane-se quem me tem por garantido porque eu não existo se decidir.
Que provoco o mal e me torno a negatividade de alguém que transporta um demónio.
Que morrer é fácil dizem, mas como será sobreviver? Qual é a glória de tentar mais um pouco de loop? O loop. O loop. O loop.
Nada é definitivo. Nem a chuva nem o rio. Nem a noite nem o frio. Nem o vento nem eu. Curvas de tempo.
Temporal. O tempo e quem habita.
Decidir é agir e não esperar.
Talvez devesse correr mas prefiro molhar a cara.
Mas demasiada chuva incomoda e então movo. Insuficiente força. Insuficiente estrutura. Não me decidi hoje.
Se me atirasse à água será que o rio abriria um espaço para não me afogar?
Mas tenho medo do colapso. Ou se alguém me salva num estado já irreversível? Seria destino?
Devia correr de forma assertiva e finita.
Ou agir como alguém-homem. Que talvez letras minúsculas componham mesmo o meu nome. E eu sou o que sobra de mim porque já não me sei montar.
Estou cansado.
Devia morrer mas a puta da chuva deixa-me acordado.
Estás a 2km daqui e só te queria nos braços. Estás a 2km daqui e esses braços não são meus. Se não hoje amanhã.
Que essa casa não existe. Não é para lá que voltas. E eu sou mau. Não sou o que querem de mim. Traidor mas não o suficiente. Não normativo mas não o que baste.
Foda-se não sou ninguém. E digo tudo o que te magoa.
Morro ou fujo de vez? Não vou mas não sei ficar.
O melhor a fazer é pegar no amor e mandares-me embora. Não se carrega a toxicidade do outro por tempo infinito. E mudar é o quê? Curar-me?
Não acredito em mim, não o devias fazer por mim.
Conheço o monstro e o cabrão não se afoga.
Conheço-me feio e a beleza que já viste era só um reflexo teu.
Não sou um espelho mas sei reflectir o que pensam de mim.
Foda-se. Manipular é uma arte dos doentes. Fingir é a cobardia dos homens maus.
Sou um resto de chuva. Ácida. Queimo. Fodo. Com tudo.
Só queria ser amanhã. E o resto do fim do mundo. Que à noite o rio são mil anos.
E nenhum passa devagar.
Que eu devia correr, mas enterrei os pés por ti e fodi-me todo.
Quero morrer mas não sei morrer sem ti.
Foda-se. Não quero ser sem ti.
Nem antes nem depois.
Tentei correr à chuva. Segui estrada fora longe. Olhei para trás e não te vi. Estavas lá eu sei.
Peguei na chuva e voltei. Acendi o cigarro outra vez e cresci. Parecia uma alma envelhecida e mesmo assim não morri.
Foda-se não sei o que faço aqui. Mas acredito no que tens para mim.
Desistir-não-desistir. É como tentar não gostar de ti. Se me mandares embora eu vou. Se me disseres aDeus eu mereço. Se eu morrer não deixes lixo na minha campa. Mas podes cuspir para o chão. Eu mereço o nojo de ser a herança de um cristão. Desamarra-me as pontas. Quero sorrir.
Amor. Quero dormir.
Foda-se. Porque é que preciso de ti?
Não-verdade. Preciso de mim.
E hoje eu não morri.
Hoje eu não morri.
Hoje eu não morri. [loop] até ao fim de mim.

20180513

fotografia

Há uma fotografia na minha cabeça de um tempo que nunca virá. E nela residem todos os amores que conheci rindo juntos. Por vezes desejo intensamente que as coisas não se tivessem tornado em vazios de sentimentos caóticos. Gostava que a N estivesse aqui, que o H nunca tivesse partido e que eu pudesse conhecer todos os amores delxs. Se há coisa que eu queria mesmo é que fossem felizes. Espero que sejam. Egoisticamente pensando só queria que estivessem aqui, nunca tivessem seguido os seus caminhos sem mim. Que dessa fotografia na minha mente se materializa-se uma mesa cheia de gente boa, que pudesse sorrir sabendo que todas as mágoas sararam e onde nós todos, pudéssemos disfrutar da amizade que tínhamos. Como uma grande família. Se há coisa que lamento é ter perdido todas estas pessoas e que todas elas tenham desvanecido da minha memória como se os contornos das suas formas se perdessem lentamente dia após dia. O problema das pessoas não ficarem, é criar em nós uma ânsia demasiado urgente de reconstruir tudo o que perdemos dentro de nós. Uma compensação exagerada ou uma tentativa de substituição de rostos afectos memórias vultos e sentidos para não termos de sofrer. E o problema de não querer sofrer é tentar remediar tudo imediatamente, o que nos desgasta e consome. Queremos passar por cima da dor, a tal ponto que a jeitos de que em uma década ou duas nos perdemos também de nós próprios e é desta forma que nos tornamos irrecuperáveis, até para nós mesmos. Perdemo-nos para sempre em pedaços que tentamos matar junto das pessoas que vão. Como se esses pedaços lhes pertencessem. Às vezes só queria não sofrer, como uma criança imatura que não sabe que os monstros têm formas mais medonhas do que as da própria imaginação. Que esses monstros se vestem como nós, falam como nós, comem como nós. E esses monstros fazem coisas más que nos levam pessoas e nos roubam pedaços de vida. Se a fotografia pudesse materializar-se, abraçaria cada um delxs, um a um, com tempo para ouvir o mar que sopra dentro deles e encostaria o rosto nos seus peitos e cheiraria o sargaço que os preenche. E pedir-lhes-ia perdão, se de alguma forma eles me perderam ou não me encontraram antes mesmo de eles decidirem partir. Tudo o que lamento por fim é a existência da memória. Uma vez a N disse-me que esquecermo-nos de como as coisas eram talvez fosse uma espécie de bênção. Como gostaria que fosse verdade. Começar de novo como se tivesse sempre vinte anos. Como se nunca me tivesse conhecido. Como se nunca os tivesse conhecido. 

20180409

meu poema 23


Queria dar-te um poema mas não conseguia chorar
Escalei sob uma montanha de seda e vesti-me para ti mas...
Queria ser puro demais e gastei-me no chão em forma de boneco de gelo enquanto a neve passava pelo tempo de inverno.
No escuro molhado dos corações tristes lutei contra um fantasma de preto que só me queria ajudar, apenas porque não sabia o que ser com o que me amavam.
Eu, fui feito de pó e escolhido pelo mar para ser sal
Da noite brava e medonha me fundiram em olhos de mel para que te vissem
E do fogo líquido me pintaram num manto que te pudesse cobrir.
Sabias que eu fui jogado pelas águas revoltas e cuspido como um corpo sem folgo para te abraçar?
Eu. Baga de luz em campo de trigo e centeio. Caixa de flores e café negro para ti. Vassalo de um qualquer deus pagão. Caminhei sob um chão de lágrimas e picos celestes para perceber que ser homem só não chega para cuidar de ti. Se alguém puder cuidar de ti sem seres tu, flor maior.

Meu amor,
Que ser de ti um pedaço é ser mulher e ver mulher sem ser na verdade.
E aprender a ler às escuras foi um só ditado sem erros para saber escrever sem medo em tuas costas.

Meu amor,
Que ser homem só não chega para te guardar o ventre e te esconder na alma o que sinto.
Pensar sobre ti à noite é saber acordar feliz de manhã e mais saber,
Que por vezes as histórias são um fragmento de tempo perdido num espaço sem lei
Numa vida sem tintas, numa tela sem fundo, num pincel sem mãos.

Meu amor,
Que ser homem só não chega para ti e eu ousei ser mais mulher.
Crescer como um dente de leão e esperar que o vento me desfizesse no tempo para ti e me partisse no sorriso da maldição de ser frágil.


Meu amor,
Que ser homem só não chega e eu olhei em redor e fiz-me das mulheres que me ergueram e senti ser estéril nas tuas mãos.
Que ao menos ser hábil e fêmea é ser força viva ao meu olhar, mas eu não sei sentir como tu.

Meu amor,
Que não me lembro de tudo o que fiz para chegar até ti.
Mas voltar depois de tantas vidas é acreditar que somos mais que corpos sem histórias e um destino fugaz.
E se tudo isso é uma bênção então eu te venero as hostes.
Eu te envolto a miséria e me desgraço em perdão para que não tenhas nunca de te arrepender ou magoar por estares perto.
Foda-se se te largo da mão e me esqueço.
Ó, foda-se eu não te quero esquecer.
Não, isso não é uma espécie de bênção. Não, isso não é uma espécie de compaixão.
 
Ter-te é a bênção. Ser-te é a vida. Tocar-te é o profundo do céu. Chegar-te é saber sorrir para os astros que te habitam. Se eu te habito.

Iolanda é ser todas as coisas abaixo do céu.
Amar-te é ser eu. É ser tudo. E nada. Amar-te. É ser. Eu.

20171015

ElRei24

Ensina-me a tocar num homem
Pois chegar-te perto e ser subtil é pedir demasiada licença para te derrubar os medos de se ser pouco macho.
Eu não quero encontrar uma parede de forças que me impeça de entrar,
Se te disser aquilo que queres ouvir não serei mais do que a puta que te alimenta o ego.
Mas eu sou mais do que um pedaço de carne que te enche a boca e que morre molhado por fim nos teus traços promíscuos sujos e cravados.
Que gostar de ti é mais do que te roubar a roupa para me usares os músculos e te ires por fim vazio;
Que gostar de ti é esperar que me fales e me contes o que te dói no meio de um beijo feliz;
Que eu sei lá como é tocar num homem ou tocar-te como homem,
Se ser homem só não chega
E se não peço licença é porque cansei de não ser convidado
Vou, rasgo, avanço, e entro.
Não sei o que encontro
Mas ajo e não peço
Perdão
Porque eu não sei tocar num homem
Mas aprendi a levantar-me do chão
E a beijar na boca como um pássaro que arde em desejo de lamber e te ferir
Criar amarras e ficar.
Perdão,
Se nao souber tocar-te de homem
Se não souber curar-te as feridas
Ensina-me a tocar num homem
Eu ensino-te a querer
Me.
Meu cabrão.
Quero-te.
Feliz aniversário.

20170409

rebelde22

Aperta-me o lenço, dá-me as mãos e ergamos os punhos juntos no ar que esta luta é só nossa. Se estou ao teu lado seguro-te, se estás ao meu lado seguras-me para que nada desmorone em redor. Meu amor, de 4 anos se enche uma vida de poemas, de poemas perdidos se enchem 4 vestidos de rendas. E os amores não se esquecem com o tempo, nem o tempo se esquecerá de nós. Meu amor, o que és de inexplicáveis prosas se compõe. Do amargo negro que nos delicia o jejum, ou do agridoce da tua beleza que me mata a fome. És mil erupções. Cataclismos bélicos de imenso belo que seduz. És a rebelião que me afaga o espírito e me quer fazer herói. És facas e latas de tinta vermelha que grita nas paredes a liberdade das almas presas. Tu. És o silêncio dos brancos e o barulho ensurdecedor das palavras oprimidas dos anjos. És um anjo de guerra, uma espartana libertadora em pele de gato vadio e rebelde. És as sombras que te querem devorar quando não vês luz ao amanhecer. Por vezes é difícil acordar. Por vezes é difícil viver. Por vezes é difícil festejar. Rodeados do vazio dos que não estão. Mas mais uma primavera se celebra e eu cá estou para te ver fortalecer sob o chão que se verga para o pisares. Ao teu lado. Pego na tua mão, sinto-te o pulso, ergo-te o braço firme no ar e do mais fundo da vida te peço - grita comigo a luta que somos, dança comigo as flores que nos decoram, voa comigo nos sonhos que são de construir. Vamos, desaperta-me o lenço e beija-me. Tira-me as facas e despe-me. Cruza-me a boca e faz-me amor. Celebremos o teu corpo existir. A tua voz poder gritar. A tua alma pedir para ser. Tu. Vida. Espírito. Terra. Água. Fogo. Ar. Tudo. Amo-te. Parabéns. Brilhas.

20161220

infinitos


somos paralelos. cruzamos o tempo. ficamos intrínsecos aos movimentos cósmicos porque é o ar que nos suporta. inspiramos. expiramos. respiramos o que há para doer. somos películas finas de uma qualquer camada divina. restos do sagrado. aniquilados, mas dizem-nos livres. talvez  um dia pagãos. talvez um dia. não-normativos. somos tantos. somos tangentes ao plano da agonia que quase nos toca. somos o suficiente para sermos vistos. validados. sermos lei. constituídos como parte de um pedaço de terra. de estado.  social. podes vir amanhã. se quiseres vir amanhã e tocar-me. vai doer. mas somos paralelos. ensinaram-nos que linhas assim se cruzam no infinito. talvez se desviem da morte para serem felizes. juntas. num final bonito. num final que não por enquanto. não agora. não, se temos caminhos diferentes. e almas bonitas. e corpos quentes. e línguas molhadas. e coxas grossas. e vales nas costas. e o inferno por baixo dos pés. e riscos. riscos e riscos. na pele. cicatrizes tapadas por roupa que não nos aquece o suficiente para nos sufocar e calar tudo o que dói. dói tanto. desculpa não ser o que sonhaste. desculpa, não ser o que sonhei. se nunca sonhei ser nada. se me plantaram o sonho e deixaram que rebentasse sem poda. somos paralelos mas andamos em círculos. numa órbita quadrada porque temos de caber numa caixa de ferro. e eu nunca saí fora da caixa. eu nunca morri por ninguém mas morreria por ti. eu nunca soube ser ateu. eu nunca soube sentir sozinho. eu nunca soube rasgar as amarras e viver por mim. hoje eu queria ser frio. hoje eu queria não sentir. hoje eu queria ser a besta que os teus olhos vêem no escuro. nas caretas. no sexo bruto. no fervilhar dos dedos que querem bater nas paredes. no monstro que se quer mutilar. na criança que quer morrer. no homem que quer chorar. no filho que não existe. no neto que o avô morreu. somos paralelos na rota. e somos esquisitos na forma. e tu és rosa na cor. e eu sou negro em mim. e culpo-te por seres assim se sou eu que não sabe o que ser. amor, não me importo de morrer. porque é que estou contigo? porque quando estou contigo me sinto feliz. amor, não sei o que fiz. amor, acho que rasguei a pele e me feri. tu não estavas e eu também não morri. hoje. o que importa é quando estamos. quando somos, sim sou feliz. mas, somos paralelos. e o amor? e o amor é um caminho difícil. e o amor é um caminho feliz. talvez um dia. num fim. pagãos. não-normativos. cruzemos o tempo. tracemos os laços e. casemos. nus. no. infinito. amigos. filhos. cobertos. por. um telhado de vidros. para vermos o céu e sabermos. que ainda assim, somos. infinitos. unicórnios. bonitos. e que as cores que não vejo sejam aquelas que sinto. em ti. ó. em ti. em ti. ó. em ti. amor.

20161219

o que queres para o natal?

estamos fartos de sítios vazios. lugares que nos vão deixar um dia. sabemos que a vida é o passo antes da morte, e talvez por isso nunca saibamos qual o passo certo a seguir. gostava que os unicórnios se beijassem. na boca. gostava que o jardim fosse cor-de-rosa. e as casas. e as luzes. e as árvores. e as trevas. nunca soube responder o que queria no natal. talvez devesse ficar contente pelo facto de ter alguém que me quisesse dar uma coisa no natal. mas se aquilo que mais queres é inalcançável aos comuns puritanos, seria lógico perder a sanidade com artifícios materiais que me distraíssem do foco? se cortar os pulsos faz sangue, porque é que usamos isso para cortar a alma e ver se ela ainda sente? se cortar os pulsos funcionasse como cura então terminariam todos os problemas com um saco cheio de cicatrizes. nunca soube ler poemas. nem textos. daquele jeito bonito. nunca soube ser eu. aprendo a ser com os outros à medida que nasço. nunca entendi o que faço aqui. cada vez menos. se aquilo que planeei não é aquilo que tenho, então risco os pulsos e escrevo de novo. gostava que os unicórnios se beijassem. gostava de fazer amor com poemas e cortar as asas aos anjos. um dia o meu pai matou-me num pedaço de palavras soltas. para ele foi só comer sopa, para mim foi rasgar os pulsos. um dia a mãe cansou-se de ser forte e eu cansei-me de ser tudo. às vezes acho que percebo a mãe. às vezes acho que vou ser como o pai. uma noite vou ter um bebé nos braços e se não o partir em pedaços, vou dizer-lhe palavras bonitas. amor, não quero que ele rasgue os braços. amor, eu estou feito em pedaços e não sei como encher os sítios vazios. amor tenho frio. o próximo passo é cego, então. fico contigo?
 
kowo, o que queres para o natal? podem ser canetas.
kowo, o que queres para o natal? quero uma caneca.
kowo, o que queres para o natal? PORRA, podem ser poemas.
avô, só quero ler-te poemas.

20161209

das palavras que cortam


fomos engolidos pela peste e chamamos-lhe amor.  acordamos nos braços de alguém que não nos quer e pedimos licença para parar a dor que nos atinge.  sufoca.  esmaga.  se são as palavras que nos cortam,  o que são os olhos que nos despem quando o sexo não presta?  que fedor.  sinto a alma partida em pedaços de merda de um animal doente.  morto. apetece-me bater.  em mim mesmo. com um bastão calejado que reúna a força de três deuses e a cobardia de um poeta. quero partir e esquecer que fui alguém com um significado belo.  quero chegar sem ser ninguém para que a expectativa seja a totalidade de um vazio de infinidades. tudo.  nada.  nunca ser um meio termo. preto.  branco.  nunca cinzento. entre  o espaço dos ossos ao coração,  cabem quantos quilos de dor?  é que a noite aperta-me o vício de ser decadente.  se tudo o que é bonito me traz tristeza,  como posso olhar as coisas feias sem ver o final intimo da vida?  o escuro tem muitos nomes,  silêncio.  o escuro tem muitos nomes,  ansiedade.  o escuro tem muitos nomes,  foda-se,  pânico.  o escuro tem muitos nomes, ciúmes. quero ser uma puta e foder com o coração,  enquanto finjo que gosto que finjam que me amam o corpo.  quero ser a morte e sê-la de verdade.  desligar.  terminar.  expirar. desaparecer. indagar a memória. preencher uma caixa de memórias com papel de fotografia. quero ser passado e partir sem ressentimento de sentir que és feliz. sabes que não confio mais em mim para garantir que sou um homem são? sou um homem besta.  não sou um homem.  não sou uma besta, mas faço sentir-me assim e acredito que me perdi algures num tempo melhor que este. o que resta de mim não ficou a salvo. não é são.  não quero parar para descobrir. se parar o tempo agora vou ruir as sobras de mim mesmo.  não posso ouvir que me digam que fiquei novamente partido. não quero saber que parti de novo.  depois de tanto tempo.  contigo.  partido. no chão. não posso admitir que tu, enquanto ser me partiu desde o miolo e me roubou. sou um animal ferido.   estou no chão e não me vejo.  não quero parar para ver como estou.  o que resta. o que sobrou .  se essa puta partir sem mim,  leva-me consigo sem saber.  e eu só quero morrer.  preciso de morrer.  amor,  deixem-me morrer. eu preciso de ir. e. eventualmente.  voltar. a ti. e se estas tuas palavras cortam, é então,  isto, aquilo que mata.

20161128

dos montes brancos


existiu vida nas montanhas do norte. talvez nunca alguém tenha pensado em quantos corações perdidos podem ser guardados na carruagem de um comboio de sabão. a tua modéstia sempre me causou dano. se aquilo que desejas não sou eu, quem te deu o direito de trincar para tirar a prova? é que os teus dentes de prata cravam-me a pele e doem, porque. eu vivo no escuro, sabes? quem te trouxe para estas terras avisou-te que aqui o amor é mais intenso? que o rio tem um nome mais salgado do que as lágrimas das princesas? aqui, o que é doce também amarga. é como tu. se ficas ou vais. um dia queria ver o teu país. dizes que os montes são brancos e se assim é, de que cor é a pele das estrelas que caem neles? porque eu gosto de cores, sabes? mas prefiro sempre as tuas, é como quem te escolhe para seres a mais bonita. a luz que resplandece de ti é a que que eu gostava de ter para me iluminar. gostava de te conhecer de novo noutro tempo. noutro sítio. só nós. teríamos mais sorte, talvez. poderíamos escolher não ser o que fomos antes. eu não seria virgem e tu não serias de longe. às vezes pergunto para onde irei quando tudo acabar, porque é isso que me aflige, o medo do fim, sabes? sempre quis ser mais do que aquilo que era, mas nunca fiz por ser mais do que aquilo que me deixavam ser. a expectativa de se esperar um dia para se ser o que não se foi antes, transforma a vida numa espécie de morte antecipada. é do género, espera que logo cantas. mas cantas o quê? que som? que melodia? que letra? quando o momento chega actuas de que forma, se não treinaste antes? mulher, eu nunca soube amar antes, como é que poderia acertar contigo? é como esperar aprender por ler nos livros. mas e na prática, como faço para te pegar na mão e arder? para te encostar a boca e não parecer perverso? mecânico? porque amor é mais do que encostar a boca, não é? amar é um sentimento dos olhos que não vêem, não é? sabes? eu apaixonei-me por ti e doeu esquecer que aquilo que fazias não era igual ao que esperava de ti. que as palavras são mais susceptíveis a magoar quando queremos afastar alguém. ou manter alguém como recluso. mas foda-se, que importa ser livre de dar às asas se não temos um sítio para pousar? para descansar, sabes? a tua pele tem o cheiro da baunilha mais sexy e o teu corpo já foi mais destrambelhado, mas é disso que eu gosto. de te querer tirar a camisola de lã que trazes do país dos montes brancos e descobrir que há linhas e curvas que não se vêem quando está nevoeiro. um dia gostava de subir a um lugar mais alto e gritar tudo o que me apetece. o vento tudo levou? mas levou para onde? será que as palavras batem nos montes do teu país e por serem fortes demais se transformam em pedaços de algodão para que não doam tanto ao tocar na superfície das coisas tristes? é assim que vocês pintam o mundo, não é? o branco serve de cegueira a tudo o que é doloroso? o branco serve de gelo a tudo o que pode doer? é por isso que vocês não sentem? ficam à superfície de tudo o que pode ferir. intoxicar. rasgar. dilacerar. ficam à espera que os comboios partam e larguem corações perdidos nos países vizinhos? de onde vieste, morena? a tua modéstia sempre me causou dano e aquilo que queres não sou eu. e tu. és só dos montes brancos.

20161119

que. é.


é difícil ser-se mais. gostava de entender a razão das coisas. um dia vou ser mineiro e encontrar carvão dentro de mim. e como uma mina explorada tornar-me nada finalmente. ser tóxico o suficiente para me acabar depois de servir de combustível para iluminar alguém. um dia serei doutor e encontrar doenças dentro de mim. ser a cura para a vida me acabar. ou seja, não fazer nada para combater o destino. deixar acontecer a vida na sua essência. é difícil. é difícil ser condenado. gostava de saber como as coisas me acontecem? por vezes penso que estarmos condenados à morte não é verdade. como castigo ou imposição estamos sim, condenados à vida. não a pedimos e provável é que quando a aceitemos, ela se vá. nunca acreditei em planos. nunca acreditei na felicidade. nunca acreditei na sorte. nunca acreditei em sonhos. e por erro vacilei. dei-me ao desplante de sorrir como se fosse dono de um império de células que me contaminavam com surpresas e magias. e remédios. e beijos. e abraços. não lamento a derrota de desaprender tudo o que julgo ter aprendido. aquilo que sei é uma farsa e tudo o que sinto é mutável. mutável à velocidade que se tiram as roupas para fazer amor. mutável à velocidade que o coração bombeia sopros de mágoa. tenho fome. a vida não nasce no ventre. aí nasce a fome. aí nascem borboletas que desaparecem com a chuva. aí nascem dores se os nervos são maiores que as paredes do corpo que te fecham. aí morre tudo o que é intenso e glorioso. no ventre. no estômago que dilata e remói porque estás longe e a apenas um segundo de me largares a mão e não me sentires mais. nos intestinos que se torcem e se entopem por não conseguires expulsar tudo o que nasce e temes. no fígado que te pede mais, mas lateja ainda da última vez, mas que se dane o risco do amanhã. hoje eu preciso de beber. e se a bexiga estiver lá e eu preciso de mijar então alguém me lembre como se usa porque eu já não sei amar. caralho, mas que tem isso a ver com deixar o corpo funcionar? é preciso usar os olhos mais vezes e enganar a utopia de sermos seres de bem. às vezes sei que uma reviravolta da vida, fará revelar em mim um homem morto. pouco falta para ser mau. se já me odeio por ser pouco e pequeno e gasto e preso e manso e um psicopata adormecido, o que falta é uma pilha no relógio biológico que me faça trabalhar ao melhor nível. adianta ser-se bom para descansar a consciência ou para ter uma consciência descansada? é que não adianta ser bom, se à noite tudo te dói, até o sono. e não adianta ser do bem, se tudo o que desejas se resume ao teu próprio eu. honestamente? genuíno? não somos todos hipócritas? não somos todos egoístas? somos os desejos de nós mesmos? não. não somos todos. mas eu sou. confesso. ser-me difícil. ser condenado. ser mais. esse cérebro que funcione em paz. que comande a vida, que a morte comando eu.

20161115

se fosses pelo menos unicórnio.


cavalinho de algibeira. branco. culto. hábil domador de afectos. que fé é a tua? crês nas coisas bonitas? se a tua alma é branca, como reluzem azul os teus olhos? que fogo é esse que queimas? o teu corno lança feitiços de amor? és a união da terra com o mar enquanto Lucifer beija o céu? julgo-te filho de Deus, mas nascido de uma vargem de ervilhas tortas. puseste uma semente de maldade em tudo o que tocaste e fizeste da serpente uma culpada apetecível. quem atribui nome aos animais? se o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita, para que serve andar de pé? erecto. moderno. sábio. os unicórnios voam? porque guardaste os contos de bruxas e afixaste a fome dos pretos em cartazes com cores de bugigangas? a puta da fome é negra, Senhor! alguém já te pediu a morada para entregar o dízimo e ao invés de te deixar a esmola deixou-te um copo de água choca? é que as pessoas cheiram mal, Senhor. as mentes estão podres e o hálito com que criam discursos é venenoso. os gatos tem superpoderes e nós temos tudo o que nos resta, mas não chega. o que nos resta Senhor, está misturado com um bando de lacaios, submergido nas filosofias baratas de profetas modernos e a magia esconde-se em bolsos de mulheres nuas onde os unicórnios fazem amor com as ninfas. é preciso esconder o belo como se fosse tudo o que mais importa. o amor esconde-se porque a doutrina disse que assim deveria ser. a loucura esconde-se porque a doutrina disse que era marginal. a arte oculta-se porque a doutrina diz que o povo tem de ser burro. a inteligência mecaniza-se porque a doutrina disse que nem todos merecem a vida. se quisesses fazer amor com um homem, Senhor, tinhas de te esconder num corpo de mulher e bater-lhe. mata-la quem sabe. se quisesses fazer amor num prado de margaridas e violetas, onde o vento corta a alma em porções cósmicas, terias de construir paredes altas porque o amor tornou-se perverso e sádico de se ver. Senhor, se dissesses que afinal és preto e que depois de cresceres quiseste ser mulher em vez de ser homem, sentirias as pedras baterem-te no rosto até o teu cérebro ser sopa para os corvos. serias traído pelos seres criados à tua semelhança. o amor é coisa que magoa. que ofende. que indigna os corpos abençoados pelas doutrinas da fé. o amor não é para se ver. o amor já não são as pessoas. essas aceitaram o histriónico mas não o sentimento de culpa. aceitaram a repulsa e escolheram o mal dizer, em troca de meia dúzia de favores corrompidos por um sistema em declínio. a mentira é mais digna que a verdade sempre que alguém quiser assumir que não cabe na caixa de ferramentas que se vende no hipermercado. eu não quero ser comercial. a minha vaidade é única. a minha alma não se quer corromper. porque é mais fácil desdenhar o bem alheio do que resolver o mal que se semeia no próprio coração? a humanidade está perdida, tal como todos os seres mágicos. esconderam-se num manto invisível e pediram à morte uma barca para fugirem. se moisés existiu, moisés se enganou no destino. moisés não carregou tudo o que pôde. estão os centauros junto das estrelas? estão os elfos na floresta a compor sons com acordes secretos? são os gigantes as montanhas do norte? e os unicórnios, Senhor? foram extintos quando a pureza se aniquilou junto dos corações malignos? Senhor, fodemos com este mundo e não conseguimos parar. parar-te. se és a falácia que move a cabeça das maiorias, não seria lógico cortar o mal pela raiz? a tua, oh criatura mágica, a ti ninguém te vê. a ti ninguém te fode. oh, se fosses pelo menos unicórnio, não serias um mero criminoso passivo.

20161113

belos, unicórnios.


existem cores por baixo de uma manta verde escura. cores há que não sei o nome a que respiram. se têm alma própria, alimentam-se delas ou das cores de outro alguém? se pintasse um quadro só saberia usar o negro, se pintasse uma alma só o quereria evitar. se um dia saísse de noite e o céu tivesse cores que ainda não vi, talvez acreditasse ser um prado de magia. queria saber onde moram os unicórnios. onde pousam as borboletas. a que cheiram as joaninhas. e para onde vão as almas depois de morrer. às vezes queria alguém capaz de me mostrar o mundo, que me soprasse ao ouvido o relato da felicidade de tudo o que acontece. como um cego que precisa de sentir para ver, eu precisaria escutar uma voz para sentir a vida que me rodeia. os sons, o mar, as estrelas, os corpos. nus. quem não quer uma mão que não nos larga? uma boca que não nos evita? um olhar que não nos cobra o lamento? o silêncio. a vaidade. o anseio. a dádiva divina. e a fraqueza dos homens. se conhecesse uma virgem, fingiria ter a força de um cavalo e a pureza de um bebé. fingiria ser a representação do doce e o significado do belo mascarado nas vestes de uma fantasia medieval. gostava de morrer deitado. gostava de dormir agarrado a mulheres e homens e criaturas fantásticas. confesso ser egoísta a mais para amar de menos. não me concentro em mim se posso admirar os outros. se não domino a morte que me invade, necessito o deleite de uma musa que me encha de vida. desconfio que sou um traidor do meu próprio eu, deixo-me caçar pela mentira que sei que a é.  emancipo os poderes da feitiçaria, rogo aos desejos de um regaço abençoado. repouso, morena. deito-me, unicórnio, no teu colo enquanto me mentes com o que cantas em tua alma. se fosses a encarnação de Deus, fingiria ser o sangue da vida que combate o mal. a cura. a bondade. o ouro, a prata e o branco no só mesmo elemento. quero sair ao entardecer e fazer um gelado de nuvens. quero vir pra casa a correr e dar-to antes que derreta. quero colher raios de sol e plantar luz onde houver sombras. quero tocar no teu mundo e fazê-lo brilhar de novo. quero-te com luz e vida. e quero que me recolhas o esqueleto por fim. que me guardes os ossos na tua memória e me escrevas. que nas minhas ossadas risques o teu nome como se me possuísses. que beijasses nos meus restos de pele e lá cravasses todas as tuas lendas mágicas. tudo o que sonhas poderia ter lugar no meu corpo. e por fim o usasses de novo. para curar tudo o que o negro pintou. que me pegasses no corno, unum, e o inocentasses com desejos escondidos. perversos. solitários. quentes. molhados. posso dizer-te que me uses. posso deixar que me laves a alma. posso pedir-te que me leves contigo protegido pelas costelas que te guardam a vida. posso aprender magia e cavalgar perdido no espaço das memórias que criarmos. quero ser mais feliz que Deus. quero ser mais perfeito do que o belo. quero ser mágico e espalhar cores na tua mente. encontrar-me contigo num céu cor-de-rosa, num fim de tarde de outono e beijar-te a pele salgada onde mutilas a alma. dar-te as mãos onde transpiram poemas e fazer de nós. dunas. versos. crianças. amor. unicórnios. realizar-nos por fim, belos, unicórnios.

20161112

aqui jaz


cada vez que a primeira for a primeira grande vez. cada vez que voltares nunca mais serás a mesma. porque quem vai, parte para voltar um dia. diferente. transformado de tudo o que foi. somos maiores que a vontade de morrer. somos menores que a vontade de ir e nunca seremos maiores que a vontade de amar alguém. por isso vamos. devastando tudo em redor. com a coragem de destruir tudo aquilo que nos sustem, arriscando perder tudo aquilo que somos. em metade somos mais do que não ser nada. mas não dependemos de alguém para sermos inteiros. ainda assim não compensa ser-se tão pouco, quase vazio. ah, o vazio é amargo. o chocolate é negro. o passado é sempre triste. porque é passado e acabou. não é felicidade, é nostalgia. tomamos por garantidas as memórias como se fossemos capazes de as replicar uma e outra vez no presente. a rotina é tomar por garantido o momento, as pessoas, é saber que ele está e estará lá. perde importância. não se arrisca mais. dá-se o empenho aquilo que é novo porque nos faz sonhar mais alto. faz-nos ser mais. a rotina consegue questionar-nos sobre o que há além dos fios de ouro e das costas mouras. aquilo que sabemos não chega a tudo o que ainda queremos saber. experimentar. estar-se só é uma condição divina. admirar toda a criação em redor. o ritmo das coisas. os passos das pessoas. as cores das montras. as gotas de água nas janelas. as poças no chão. os animais abandonados.  os ossos cruéis. o frio na pele. a fome. as roupas molhadas. é tão fácil sair de casa para se ser diferente. é tão passivo ficar-se quando já se sabe o que se vai encontrar. a expectativa desflora o entusiasmo, o conhecimento o inverso disso mesmo. já não tenho de te dar o que sabes que vais receber. se já sabes como é receber de mim, optas coleccionar o que é receber de outros. é substituível a forma de se ser. é comum, já ninguém é extraordinariamente belo, único. não. aquilo que tu és, não é mais do que o espaço que ocupas. do tempo que te despendem. se não existires, libertas o mundo e o mundo de alguém. não fazes nada aqui. ninguém te deve nada. és um corpo facilmente substituível. não sejas ingénuo. o amor não existe. o que existe é a ideia de amor concebida para reduzir ingenuamente a criação humana. a coragem. não é preciso ter coragem, basta ter vontade. o medo. o medo não te impede se esse medo não existe. o que existe é a ideia de medo. um passo antes. de saltar...





...aqui jaz. joy

20161108

quero que morras


quero que morras. e ao de leve te desvaneças de mim. que largue a tua dor, que me causada, impelida me rasgou. tenho uma alma partida e tenho pena de mim. quero-te odiar. e sentir que não te devo nada. se em tempos me deste à luz, nestes tempos, perdeste já o dão de me dar a luz. se alguma vez a deste, terá essa única vez ficado incólume. desde aí nada mais há brotado se não a fome, a guerra, a morte e a peste. e será esta última, a que nos preenche os corpos quando encostamos os rostos para beijar. não é fome, mas é morte quando os corpos se tocam e o frio invade os recantos mais profundos de um corpo que guarda órgãos. desenvolvemos demasiado os sentidos, somos extraordinariamente avançados para aquilo que o mundo nos pede. nos deixa ser. o mundo quer de nós a caixa com a nossa profecia. tu queres de mim que me professe dentro de uma caixa onde não caibo. se quero ser mais, desculpo-me comigo. se não queres ser mais, desculpas-te comigo. o mundo são muitas desculpas para todas as guerras. eu, cansei, de, ser um mártire das coisas bobas, das almas fracas, mas ainda ofereço o meu corpo para a fome alheia. para que em mim explorem o significado da peste. para que arranquem aos pedaços os meus sorrisos e assim venha a morte. para que dentro de mim desmoronem os muros que tento segurar em sapatas de saudades e afectos, oh a guerra e eu. se tanto me bombardeio sozinho. contra mim próprio, e tanto não chego que ousas bombardear meu corpo com os restos que explodem do teu. que angústia merecer mais do que o que se tem. desejar mais vida do que a vida que há em si. gosto de ver coisas bonitas, mãe. gosto de segurar nos pobres e ajudar os tristes, mãe. mas não a ti. canso-me de ajudar quem de si não se mede, não se vê no espelho com medo da própria desgraça. gosto de partir, mãe. de não ter horas para chegar, porque também eu nunca chego. nunca parto realmente e nunca venho totalmente se me perco em vários sítios. mãe, eu sou a desgraça que se amarra aos outros para que não se desgracem sozinhos. sou um muro inútil que ruirá na esperança de ver os mortos voltar. mas mãe, o egoísmo de se ser humano está na medida que escolhemos dar de nós aos outros. escolher quais os outros que beberão de nós. tanto bebeste de mim que me sugaste por anos. encontrei fontes de água e poços de luz e preciso de os ver. vivos, mãe. amor, vivo. não tenho hora para chegar e por isso morro lá fora. não tenho horas para partir e por isso nasço quando saio. é a surpresa de se ser eu, inesperado eu. não pedi para nascer, não peço para morrer, só não quero que doa, a vida, é claro. oh mãe. não quero que morras.

20161003

por extenso


pergunta numero um,
por extenso
que o percurso é longo
e o amor vai morrendo
aos poucos
pedaços de terra que não se casam
não se igualam
estagnaram nesse vale
e o que vale no fim de contas
é o resto
de nada
que nada é amar um,
se não chega
colecciona-se um pedaço de estrela
que o universo vai morrendo
aos poucos
dizem que é a vida
assim será
com o que o tempo nos diz
e tudo o que o tempo dirá
oh vida
eu questionei a tua sina tantas vezes
e que adianta ter uma sina
se é o destino que nos escapa pelos dedos
oh amor
inventaram que era a dor
e o sofrer e o doer e o morrer
mas isso não é amor
então que se aprenda a viver
a partir pra não chegar
a fugir para não apanhar
a correr para não te ter
a morrer para me apagar
e ser a distância entre lágrimas e sorrisos
ser o longe e ser o perto
e não ser opção no momento certo
se opção é um escolher incorrecto
indevido, imperfeito, não concluído
queria chegar-te.
ao ouvido
gemer de dor e dizer
que tenho frio
oh amor
se não me tocas nos pés
tocas nos pés dele
tocas nos teus pés
se são pés que adquiriste para caminhar
contigo
se tenho frio e não tenho ninguém
se tenho amor mas não tenho a tua mão
se tenho casa mas ela está vazia
se tenho casa mas não posso entrar
se tenho fome mas não posso comer
se tenho raiva mas não posso gritar
se tenho amor mas não posso dar
se tenho a ti mas tenho de esperar
para que estejas
para que venhas
para que abras a porta
para quê?
esperar
só, se só ficar
se só não ter mais o que amar
se não a mim
há tanto para me amar
em mim
acima de mim
mas para quê?
se o fim é a morte de mim mesmo
só, poder morrer só
numa noite de amar-me sozinho
sem pés, só os meus
velhinho
porque hoje não era o meu dia
mas era dia de morrer
e tu não estavas
então parti sem te dizer
sem te tocar
sem os teus pés
sem a tua mão
com a tua alma distraída nos pés de alguém
nos que escolheste para caminhar
contigo
assim é não estar sozinho
mas eu estou
bandido
roubei a minha própria glória
e escrevo para me enganar
para fingir que sinto
que minto quando dói mas digo não
quando dói e me queixo sou egoísta
mas há o queixume
há o lume e há ciúme
mas não importa se há pés para te dar
pés para caminhar
pés para andar
o que é uma casa sem andares
na noite em que casares
mas tu não vais casar
comigo
eu não vou casar
contigo
que o divino só quer morrer
amar não é sofrer
mas amar é um percurso longo
que o amor vai morrendo
outro vai nascendo
pergunta numero um,
por extenso
que o percurso é trágico
que o amor é mágico
se só de amor fossemos
ríssemos
se só de amor nos apaixonássemos
morrêssemos
então o que seríamos além da miséria de um cupido
do devaneio de uma reacção química
do estilhaçar de um cometa perdido
do ruído ultra-sónico de um palpitar caótico?
eu sou a vida que escolher
hoje chamo-me persistência
que o amor vai morrendo
mas ninguém sabe a resposta por extenso
ao que eu temo
ao que eu tenho e vou perder
hoje chamo a vida
e liberto-me do passado de mim mesmo
e que seja a vida a pintar a nova dor
se os meus pés vão contigo
e as minhas mãos só te sabem de cor
oh e isso não é dor
é amor
é
hoje chamo-me persistência
é
o que me faz ficar
a deixar ver-te partir
quebrar
se um dia morrer sozinho
numa noite de mansinho
sem pés para me tocar
que não sofras quando me encontrares
pois suspirarei sossegado
por teus pés não me sentirem gelar.
mas o percurso é longo
o tempo é o tempo
o tempo são só segundos
a vida é só o bater do coração
a morte é o fim disso mesmo
o amor não se sabe
e o amor não cabe
pergunta numero um
o percurso é longo
e o amor vai morrendo
e o amor vai persistindo
e o amor vai nascendo
e o amor vai ficando
e eu vou ficando
e tu vais ficando
aos poucos
até quando?
quando
morrermos
não sobrarão pedaços
aos poucos
sobraremos descalços
com os pés
que caminharam juntos
aos poucos
aos poucos
aos poucos
saberei amar melhor
se um amor é pouco
e o percurso é longo.
amemos, por extenso.