rouba-me a pele. leva-me noite, sussurra-me
borboleta enquanto o tempo nos guarda e voa. poderiam as névoas segurar o
brilho das estrelas, mas nunca o nosso, pois nunca o negro brilhou tanto por
mim. oh lua, não tires a luz destes corpos teus. escuta os silêncios deste mar,
que nos leva e trás, que nos vê e esconde por vales de vento. segredos. somos
belezas históricas de infortúnio, pedaços alheios passados, talvez a sorte
nunca tenha sido a nossa melhor madrinha. contasse eu os grãos da areia pra me
perder em ti, nos números infinitos para onde o olhar te foge. ai essa alma, nos
caminhos da minha. outra vida. outro destino nos terá cruzado as palmas da mão,
seguindo a corrente que nos afaga o peito e se humedece nos lábios. oh esses
ombros. oh quente corpo, despe-me os sonhos enquanto construímos beijos e
lava-me nos tons de sal dos teus vestidos mais desnudos. encontra-me nos teus
olhos enquanto o tempo nos guarda e voa. rouba-me o tempo, para que nunca te perca
o presente.
20130823
20130821
parêntesis, fim de linha...
a vida tem um. ou dois. pontos finais que nos tomam. ou retomam.
parágrafos de sentimentos ressuscitados que nos mudam de
ares mas não aquilo que se respira. contos de quase morte. suspiros de quase
vida. quente inverno, mordido chão; oh ele, quente inverno. veias tortas,
linhas cruzadas, palavras escritas. talvez os fantasmas entendam de pontuação,
já que eu não entendo de desamor! pontos mortos verticais ou curvos de
transição, decapitados silêncios em dores de interrogação escravizada pela eternidade...um dois três, uma duas três, continuações improváveis,
passados abertos em portas presentes. ponto final.
parágrafo, fim de linha. oh fim de vida. analogias
simplificadas, personificações do vento; ponto e vírgula já que não há coragem;
personagens sem alma dentro da minha.
choro, parêntesis alheias, casa vaga. ai vida? interrogação, talvez
seja a morte dizendo para viver. talvez um travessão me queira amar (enquanto uma
sombra diz):
-tempo, aprecia os corvos.
20130814
morfina, nosso amor
céu e terra; água e fogo. duas
terras paralelas em fundos de meias doses de whisky e sangue. os corvos pousam
e voam. e uma verdade entre eles com outros nomes, de almas perdidas e mentes
encontradas envoltas em si. e de uma ponte suavam tambores, em tons de alvorada
para umas quaisquer vidas mortas. adormecidas ao toque do amor impróprio, consumido
em chamas de outras marés, alimentados por águas de outros infernos, que não os
passados. seguimos em frente, alimentados por um qualquer leite materno,
envoltos em colheres de prata como se fossemos sopa para doentes terminais. ah
quantos de nós se esqueceram de viver em troca de meia dúzia de prazeres
divinos? procurámos anjos da paz e sentámos à mesa com guerreiros de vestes
negras. confundam-se as pálpebras se o whisky não tiver mesmo sangue vertido. seguimos
em frente, tapámos os olhos com umas quaisquer lentes porque eles são bonitos
de mais para se mostrarem à luz do que significa ser-se belo. e quantos de nós se
esqueceram de como amar, em troca de uma breve presença em terras obliquas aos
caprichos de deuses e demónios, que apenas nos matam em cada pedaço de vida? quantos
amores se perdem no vazio de não se saber amar, anjos, demónios e corvos de bem
e mal? morfina, nosso amor, talvez sem dores históricas nos encontres!